Aconteceu há dias em Braga a defesa da tese de mestrado em teologia do Duarte Nifo, SJ, intitulada: “Matemática e ação divina, uma aproximação a John Polkinghorne”.
O tema interessa-me. O autor é amigo de longa data e a matemática tornou-se comum: recebemos juntos formação para a poder ensinar. E ambos ensinámos vários anos, em aula e em explicações.
A tese enquadra-se no contexto largo da relação entre fé e ciência. Começa por abordar aspetos diversos dessa longa relação. A certa altura, o texto aponta diretamente para a Matemática, questionando: “será que os sinais matemáticos podem expressar algo mais do que aquilo que representam na sua imediatez? Será que a matemática apenas expressa rigor e exatidão, numa lógica materialista? Será que podemos reconhecer a existência de uma dimensão sacramental na matemática?”. A tese vai além destas perguntas, mas, neste contexto, fixo-me nestas questões de fundo. Foram as que mais me tocaram no texto e na sua defesa.
Sabemos que um sacramento é um sinal visível que remete para uma realidade invisível. E daí vem algo original desta tese: “Ocorre algo idêntico no caso da matemática quando esta, ao descrever uma realidade sensível, remete simultaneamente para uma ordem e uma regularidade que são do plano invisível. (…) Sendo uma linguagem que nos permite descrever e quantificar o universo, a matemática aponta para uma realidade maior, é sinal do próprio Logos divino”. Neste âmbito, o autor evoca um magnífico texto de Santo Agostinho onde se compara a transformação da água em vinho no milagre “extraordinário” das bodas de Caná com o milagre “ordinário” do ciclo da água que permite que nasçam videiras e, depois, vinho. E conclui: “quando a matemática nos ajuda a descrever os fenómenos físicos que provocam a chuva, quando equações químicas descrevem o processo de fermentação do vinho ou ajudam a determinar o seu grau alcoólico, … enfim, quando a matemática ajuda a descrever o mundo e o universo, então está também a tornar mais concreto e mais presente o modo como a graça de Deus nos é comunicada de forma ‘ordinária'”.
A matemática torna-se mediação entre o visível e o inteligível, entre o mundo e Deus: traços de um código explicativo da ordem divina do cosmos.
Há muito tempo que pensava na relação que poderia haver entre a matemática e Deus, sem a conseguir explicitar ou definir. Esta tese veio em meu auxílio. Padrões e axiomas diversos, proposições e condições no cálculo algébrico, teoremas e corolários na geometria analítica, derivadas e primitivas, integrais, limites notáveis, números irracionais especiais e números complexos, análise combinatória… tanto e tanto que ao longo de séculos foi formulado por muitos matemáticos: o que pode ter todo este corpus matematicus a ver com Deus e a sua ação no mundo?
Voltemos à tese apresentada na cidade dos arcebispos: “porque proporciona o encontro com a ordem, a beleza, a novidade… a matemática remete para o próprio Criador, a fonte de toda a racionalidade”. Neste sentido, o autor avança com a tese: “É por tudo isto, que eu entendo que podemos defender a sacramentalidade da matemática”. Tese original que pede desdobramentos e explicações: “Os sinais matemáticos, em si convencionais, tornam-se símbolos quando revelam a inteligibilidade profunda do real e, por conseguinte, a racionalidade do seu Criador: através da linguagem simbólica da matemática, o ser humano acede ao Logos divino que estrutura o cosmos”.
Deste modo, a matemática torna-se mediação entre o visível e o inteligível, entre o mundo e Deus: traços de um código explicativo da ordem divina do cosmos. E “também aqui, como nos sacramentos que a Igreja nos oferece na liturgia, é necessário um ato de fé para que o sinal se torne sacramento.” É preciso acreditar que a explicação matemática da ordem do mundo não é fruto do puro acaso ou do caos. Mas, continua o autor, “para ser sacramento não basta a capacidade de remeter para uma realidade invisível. Os sacramentos são também sinais eficazes da graça, que realizam aquilo que significam”. Por isso, a matemática não será um sacramento em sentido estrito, litúrgico, efetivo. Mas pode sê-lo de forma alegórica, como bem o frisou o autor na sua defesa.
Não sendo efetivamente um sacramento, a matemática pode ser uma espécie de sacramental da ação divina.
Atrevo-me a acrescentar quatro notas pessoais que a tese me foi sugerindo, mini corolários da tese apresentada.
Para mim a matemática é um lugar onde se notam claramente “vestígios do Criador na sua criação”: no caso, na criação conceptual do mundo, no projeto do universo. Que por ser conceptual não é menos real. O estudo aprofundado da matemática revela certas coordenadas que o Criador quis revelar na sua obra criadora. Assim estejamos abertos a isso.
Não sendo efetivamente um sacramento, a matemática pode ser uma espécie de sacramental da ação divina. Um sacramental é, em sentido devocional, um sinal, um objeto ou um rito sagrado (uma medalha, um terço, um santuário, uma bênção, crucifixos, água benta) que de certa forma prepara a receção dos sacramentos. Também a matemática, ao dar-nos a conhecer partes do código estrutural da Criação pode tornar-nos mais “bem-dispostos” para receber a Graça divina. Nesta linha a matemática podia bem ser considerada uma pré-catequese.
Na natureza criada, uma paisagem maravilhosa, uma montanha deslumbrante, seriam também “sacramentais” da ordem e beleza da criação. Como o podem ser também a música ou a poesia, quando elevam o espírito humano. Ou mesmo a filosofia, quando não se fecha em si própria e se abre ao transcendente. Aliás, matemática e filosofia caminham a par. Pitágoras, Platão, Euclides, Descartes, Pascal, Newton, Leibniz, Russel, Wittgenstein… são pensadores que integraram sempre filosofia e matemática.
Termino com um pensamento que deriva diretamente de São John Henry Newman, o mais recente doutor da Igreja: tal como a filosofia, a matemática eleva-nos acima do plano mais básico e ‘sensorial’ da vida. No seu estado puro, a matemática não tem “utilidade” nenhuma – as suas aplicações na física e na economia serão já outra coisa – e por isso pode ser considerada uma arte liberal. E o que fazem as artes liberais? Nada, a nível prático. Muito, a nível interior: entretêm sadiamente o nosso espírito, mantendo-o vivo e ocupado; afrontam e explicam a diversidade da vida interior e exterior, das relações; desligam-nos do materialismo, abrindo ao transcendente. Assim, o ensino das artes liberais – incluindo a matemática pura – pode bem ser uma pré-evangelização.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
