Para quem vive na sala de aula e faz do ensino uma vocação – lamento dizê-lo de uma forma tão direta – os resultados recentemente divulgados do Programme for International Student Assessment (PISA) 2025 não foram nem são uma surpresa. Pelo contrário, são altamente previsíveis e, acrescentaria, são uma verdadeira bênção, por três motivos que passo a explicar.
1. Graças à catástrofe da digitalização dos exames nacionais, outra bênção sobre a qual teremos que refletir mais tarde, este ano não foram publicados os habituais rankings das escolas, que, mutatis mutandi, muitas vezes se limitam a opor os resultados dos exames nacionais de escolas privadas contra os das escolas públicas, extrapolando contextos e fazendo do sistema educativo português um mar vermelho dividido entre entidades titulares. Apesar de algumas inglórias tentativas de transformar o PISA no novo Moisés, substituindo o do rankings das escolas, este estudo desenvolvido pela OCDE, concebido em 2000 para avaliar se os alunos, de diferentes sistemas de ensino, conseguem mobilizar as suas competências de leitura, de matemática e de ciências na resolução de situações do dia a dia, sugere uma visão unitária sobre o sistema de ensino de cada país. Neste sentido, em lugar da tendência frequente à polarização do ensino, a bênção dos resultados do PISA trouxe a preocupação pelo todo, recentrando a reflexão no que no que é essencial e determinante em educação: o processo ensino-aprendizagem. Os resultados são objetivamente aquém do esperado, confirmam a tendência negativa dos resultados do PISA de 2022, seguem a tendência da quebra dos hábitos de leitura e manifestam um retrocesso dos alunos portugueses na aquisição de conhecimento. Responder precipitadamente, para alimentar o feed de agências de notícias, com uma catadupa de medidas inovadoras, baseadas em perceções ou sugeridas por um agente de IA, é transformar estes resultados numa maldição. Mais do que comparar os resultados dos alunos portugueses com o “insucesso” dos outros (França ou Alemanha) ou o “sucesso” asiático (China e Singapura), mais do que reanimar o velho do Restelo que habita secretamente nas salas de café das escolas, a bênção destes resultados são a oportunidade de construir uma visão unificada e realista do nosso sistema de ensino, avaliando que sociedade estamos a construir e que cidadãos queremos educar.
Protegendo a escola da gritaria das ideologias e dos radicalismos, estes resultados poderão ser uma bênção se permitirem fazer da escola um investimento a longo prazo, conjugando uma visão micro com uma macro.
2. A segunda bênção que trouxe estes resultados está vinculada à necessidade de planificar a longo prazo. Não contesto a relevância de todos os assuntos prementes relativos à educação em debate, como a colocação de alunos, a falta de professores, a digitalização da avaliação externa, etc. Todavia, como Sísifo, corre-se o risco de viver acorrentado às respostas imediatas e de não desenvolver uma visão a longo prazo. Todos os anos, os educadores são submergidos pelo ritmo frenético da vida da escola, perdendo a capacidade de a sonhar. Há responsabilidade política que é preciso averiguar, há mudanças educativas que carecem de reflexão e análise pedagógica, há um novo contexto digital e tecnológico que necessita de ser eticamente compreendido. Protegendo a escola da gritaria das ideologias e dos radicalismos, estes resultados poderão ser uma bênção se permitirem fazer da escola um investimento a longo prazo, conjugando uma visão micro com uma macro. Por outras palavras, exigem uma resposta responsável, um consenso alargado e políticas educativas consistentes, que não estejam apenas centradas na sustentabilidade financeira do Ministério da Escola Pública ou na gestão dos problemas do imediato, mas no perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória (PASEO, 2017).
3. Alguns analistas dirão que estes resultados são uma catástrofe, eu considero-os uma oportunidade para, finalmente, com realismo, olharmos para o sistema de ensino português e em vez de colocarmos tanta importância na revisão do currículo ou na fusão de ciclos de ensino, canalizarmos as energias para a sala de aula, a qualidade do ensino, a formação de quem ensina, o contexto de quem aprende. Como sabemos, este estudo não avalia apenas as competências da leitura, da matemática e das ciências, mas também a capacidade de resolução colaborativa de problemas, a literacia financeira e o pensamento criativo dos alunos. Por exemplo, parecem-me desafiantes algumas conclusões do estudo sobre o uso da IA na educação, nomeadamente, no que se refere ao domínio das ciências. Os desafios acelerados que se vivem hoje exigem uma reflexão cuidada sobre a forma como se chegou até aqui, sobre os passos que não queremos repetir e sobre os caminhos que temos de voltar a percorrer. Não basta olhar para o futuro, projetar novas revisões curriculares ou até novos exames de certificação das aprendizagens. Não basta culpar os governos ou o COVID. Como procuramos transmitir diariamente aos nossos alunos, na escola, os erros só serão uma oportunidade de melhorar, se reconhecermos onde erramos e procurarmos modificar a nossa ação. Estes resultados podem ser a bênção de que carecíamos, se suscitarem, entre a escola e a família, uma reflexão profunda sobre a forma como se educa e os meios que se empregam. A missão da escola não é entreter crianças, preencher tempos livres, manter os alunos ocupados, enquanto os pais trabalham; a escola tem uma função social de criar sentido comum, a responsabilidade política de promover a sabedoria e o desenvolvimento integral de cada aluno-cidadão.
Numa sociedade cada vez mais polarizada, que vê na diferença uma ameaça e que não sabe dialogar, a escola não pode ser um campo de batalha ideológico, mas o lugar onde todos têm o direito a verdadeiramente ser humanos. Talvez estes resultados ajudem o país a refletir mais sobre a educação e falar menos da escola como um problema, evitando que os portugueses de 2030 sejam avatares do ChatGPT ou do DeepSeek.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
