A casa que queremos construir - Ponto SJ

A casa que queremos construir

Neste tempo de recomeços, ponho-me a pensar na casa que quero construir para desvendar o mistério de cada um dos meus filhos e dar-lhes a liberdade para serem um dom para o mundo e para os outros como Deus os pensou.

Quando no dia do nosso casamento, ouvia com a ingenuidade bonita dos dias do casamento, a bênção nupcial a pedir para nós «o dom dos filhos» e a graça de sermos «pais de virtude comprovada», não sabia como aquelas palavras me viriam a pesar. E mesmo que mo tivessem descrito com todos detalhes e condições, eu não teria nem ouvidos nem coração capazes de compreender.

Quase uma década depois, com várias pequenas expressões desse dom a correr pela casa, admiro a minha pobre inocência e agradeço por isto ser na mesma medida tanto melhor como mais difícil do que aquilo que me passava pela cabeça naquele dia.

Cá em casa, acabámos de sair de um verão a tentar equilibrar trabalho, contar e esticar dias de férias, aceitar a caridade dos avós e gerir as horas de televisão. E nestas épocas mais difíceis, ainda me surpreendo por me espantar com a minha pequenez para este papel que aceitei no dia do casamento.

A muito custo, e graças aos tempos de tormento, fui entendendo que não tenho de lutar contra o que dói em ser mãe. Não há nada de errado, é o esperado, está certo, é o que acontece aqui debaixo do sol. O meu papel está muito mais em viver bem os dias de sombra do que em evitá-los a todo o custo. Pode não parecer uma conclusão difícil, mas na prática demorei a chegar aqui. É quando aceito o sofrimento, as noites mal dormidas, os gritos, o caos, as doenças, a minha estreiteza para lidar com tudo isto, e me entrego inteira à minha casa, que vejo sentido e alegria em tudo.

Também tenho percebido que são muitas vezes as faíscas de eternidade que vislumbramos daqui que nos salvam e nos dão pernas para continuar a andar com alegria. O momento de Céu que é olhar um filho nos olhos no meio de uma birra, quando se desfaz em lágrimas, ira e frustração, e num segundo perceber naquele olhar a alma que nos foi confiada. Já foi para mim esse olhar perdido e inocente que me tirou de um estado de desespero e me fez o coração compadecido porque vi ali a eternidade. Ou só um gesto inesperado, uma pergunta inusitada, a forma de andar, o jeito a comer.

É quando aceito o sofrimento, as noites mal dormidas, os gritos, o caos, as doenças, a minha estreiteza para lidar com tudo isto, e me entrego inteira à minha casa, que vejo sentido e alegria em tudo.

Na carta Patris Corde, o Papa Francisco escrevia que o trabalho dos pais é só desvendar o mistério que cada filho traz consigo. Que somos todos pais adotivos como São José, «que sempre soube que aquele Menino não era seu: fora simplesmente confiado aos seus cuidados».

Neste tempo de recomeços, ponho-me a pensar na casa que quero construir para desvendar o mistério de cada um dos meus filhos e dar-lhes a liberdade para serem um dom para o mundo e para os outros como Deus os pensou. Perdoem-me o tom romantizado, mas já percebemos que o romance nos ajuda a andar. A lista que vou montando:

Uma casa onde se faz perguntas sem medo. Onde as inquietações sobre a vida e a fé, mesmo as mais estranhas, têm sempre resposta. Mesmo que tenhamos de estudar e voltar mais tarde com uma explicação.

Uma casa onde se fala das realidades que não se veem com a mesma naturalidade com que se fala do que se vê. Onde se fala de Deus, do Céu que nos espera, da morte que custa, mas que nos faz lá chegar.

Uma casa onde se reza, como se faz tudo o resto. Antes de comer, antes de dormir, antes de sair. Onde pedimos pelos amigos tristes, pelos vizinhos doentes, e uns pelos outros em voz alta.

Uma casa onde nos olhamos nos olhos e pedimos desculpa. Onde sabemos que todos falhamos, mas que somos sempre convidados a pedir perdão.

Uma casa onde recusamos ficar no chão da amargura, das coisas que fizemos e dissemos pelo peso da rotina e dos dias, das dores que carregamos.

Uma casa onde garantimos que todos nos sabemos amados. E onde os pais se abraçam na cozinha depois de uma discussão.

Uma casa aberta ao mundo e aos outros, onde se vive com alegria e humor, e onde sabemos sempre onde está ancorado o nosso coração.

Uma casa onde às vezes nada disto acontece, mas onde podemos sempre recomeçar.

Que as coisas pequenas e grandes dos dias não nos desviem o olhar. Nós sabemos onde está o nosso fim. A nossa Casa é o Céu. Mas enquanto não chegamos lá, abramos as portas e as janelas para deixar entrar o Céu na nossa casa.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.