Retrato de um casal que deixou de o ser - Ponto SJ

Retrato de um casal que deixou de o ser

Será que os G. vão conseguir mesmo mudar de vida? Irão largar a vida espiritual demasiado consumista e colecionadora de estímulos em que foram caindo ao longo dos anos?

O casal G. forma uma dupla perfeita. São bem apessoados, com ótima conversa e muito religiosos. Dinamizam e participam em vários grupos, desde campos de férias a irmandades, e vivem completamente “para os outros”. Não há dia da semana que não tenham reuniões ou atividades em alguma das seis ou sete associações ou movimentos em que participam.

Os G. têm “imensos filhos”, todos a atravessar a alta adolescência. Cumprem à risca os deveres funcionais da paternidade e até gostavam de acompanhar os filhos mais em profundidade, mas são tantos e tão bons os programas, tantas e tão boas as causas e missões que os mobilizam… Enfim, “os miúdos hão de crescer e perceber isso”. Entretanto, os filhos não são propriamente órfãos de pais vivos, sempre vão sendo cuidados… embora um deles tenha confidenciado recentemente à sua professora: “quando for grande serei um crente praticante, mas não vou pertencer a nenhum movimento: os meus pais não param em casa!”.

O grande problema atual do casal G. é quando se encontram os dois sozinhos, sem programas ou reuniões. Olham um para outro, e… correm para o telefone à procura de um casal amigo que lhes valha nessa solidão a dois. Aterraram há pouco nos 50: a intimidade conjugal ainda existe, mas não é tão aliciante. As conversas entre os dois parece que saturaram. As “menopausas” todas da vida procuram outros estímulos, outros recreios. Adultérios explícitos, nem pensar!… Platónicos, talvez, imaginárias aventuras no secreto vasculhar de antigas paixões nas redes sociais. E se…

A vida interior dos G. tornou-se toda exterior, e a vida exterior internalizou-se. Vivem para fora, quase vazios por dentro. A oração tornou-se uma formalidade.

A vida interior dos G. tornou-se toda exterior, e a vida exterior internalizou-se. Vivem para fora, quase vazios por dentro. A oração tornou-se uma formalidade. O silêncio, perturbador, e só possível quando muito musicado: música muito clássica, ou blues, como o azul melancólico da sua vida atual.

Nem sempre foi assim…

Houve tempos em que viviam de forma mais harmoniosa. Os filhos iam nascendo, pertenciam a um único movimento, faziam muitos programas a dois. Entretanto foram aceitando todos os convites, a querer ir a todas: “agradadores”, apressados, “yescouple” sem discernimento…

Agora os planos de férias e viagens são o melhor alimento ‘espiritual’ do casal G.: as fugas possíveis e legítimas. Combinadas, claro, com as muitas outras causas e missões em que se envolvem. Não podem perder pitada! Vivem a pensar no futuro: no próximo evento, na próxima viagem. Uma canseira. Pelo menos assim adormecem rapidamente, sem repararem demais um no outro…

O telemóvel é companhia permanente de cada um dos membros deste casal. Criticam os filhos adolescentes – que não largam aquele vício, um horror! – mas o casal também não larga os ecrãs: as séries tão giras de infinitas temporadas, os shorts muitíssimo bem feitos com coisas tão giras, religiosas e outras que partilham abundantemente nas redes e com os 6 ou 7 grupos dos quais fazem parte.

Há tempos, os G. fizeram um retiro espiritual diferente. Ao início, prometia ser mais um retiro igual a tantos outros: casais espirituais um bocado altivos mas buscadores, dias de grande entusiasmo, mas que depois não suscitam nenhuma decisão vital e, passadas poucas semanas volta tudo ao ‘normal’…

Porém, desta vez, estava lá um casal convidado, intrigante, que deu um testemunho que mexeu muito com os G. Também tinham muitos filhos, mas faziam parte de um único movimento e tinham como ponto de honra ter uma única reunião semanal fora de casa. Que “queriam ser realmente casa um para o outro, para os filhos e amigos próximos”. Que a sua “prioridade era construir uma intimidade de grande comunhão entre os dois, um lar quente, profundo”. E que para isso era preciso “fortalecer a vida espiritual e familiar do casal numa íntima comunhão amorosa de oração e vida”, para depois daí “transbordar vida para os filhos e para os outros”. Que “na vida espiritual, muitas vezes, menos é mais e que se tem de começar é a viver de dentro para fora”. Que “não é possível ir a todas e ajudar toda a gente porque o paradigma do amor conjugal é primeiro seletivo antes de ser universal”. E outras “deixas” tão ou mais ‘espiritualmente incorretas’ como estas.

Tudo isto mexeu muito com os G.: um soco valente no estômago de cada um! Falaram pessoalmente com o dito casal que era realmente atrativo, muito afetivos um com o outro, e espiritualmente muito profundos.

No final desses dias tiveram uma longa conversa com o orientador do retiro que lhes disse que, para crescerem, teriam de renunciar a três coisas**: a vários dos grupos em que participam; a estar quase todos os dias da semana fora de casa, e a estar sempre rodeados de pessoas para serem também verdadeiramente um para o outro. Caiu-lhes a ficha…

Os G. estão cansados da vida que levam e este ‘click‘ pode ter sido o início de uma nova vida, mais verdadeira, melhor discernida. Será que os G. vão conseguir mesmo mudar de vida? Irão largar a vida espiritual demasiado consumista e colecionadora de estímulos em que foram caindo ao longo dos anos? Perceberão eles que viver “para os outros” não significa viver na dispersão e no FOMO permanente de pertencer a todos os grupos e querer ir a todas sem priorizar nem discernir? Terão forças para se reencontrarem os dois numa vida espiritual mais harmoniosa e verdadeira? Conseguirão voltar a saber estar juntos só os dois, um para o outro? Conseguirão priorizar os filhos e amigos sem deixar de ter um coração largo para outros próximos que encontrem no caminho?

 

** Alguma semelhança com o “Retrato de Mónica”, de Sophie de Mello Breyner, não é pura coincidência.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.