Morte, posse e liberdade - Ponto SJ

Morte, posse e liberdade

Talvez por isso haja algo profundamente inquietante nesta vontade tecnológica de reconstruir os mortos. Não porque uma máquina possa aprisionar uma alma, mas porque queremos vencer o limite da perda.

Há poucas coisas tão certas na vida como a morte. E talvez poucas que a nossa cultura se empenhe tanto em esconder.

Afastamos os mortos das casas, abreviamos os lutos, higienizamos os rituais e encontrámos eufemismos para quase tudo. Agora a inteligência artificial oferece-nos uma possibilidade nova: já não apenas guardar fotografias, cartas ou gravações de quem morreu, mas fazê-lo voltar a falar.

Existem sistemas capazes de reproduzir a voz, o rosto, as expressões e até o modo de responder de uma pessoa morta. Alimentados com mensagens, vídeos, fotografias e outros vestígios digitais, podem gerar uma representação suficientemente convincente para manter uma conversa.

Chamamos-lhes griefbots, deadbots, avatares póstumos. Os nomes são novos. A tentação é antiquíssima: não deixar partir quem amamos.

É aqui que a antropologia cristã tem uma palavra fortíssima a dizer. O cristianismo não nega a morte. Leva-a terrivelmente a sério. Cristo morreu. O corpo morre. A separação é real e o sofrimento da ausência também. Mas a morte não tem a última palavra.

A fé cristã afirma algo muito mais radical do que a sobrevivência de uma memória: a pessoa está destinada à eternidade em Deus. Não à conservação indefinida daquilo que foi, mas à plenitude daquilo que é.

A fé cristã afirma algo muito mais radical do que a sobrevivência de uma memória: a pessoa está destinada à eternidade em Deus. Não à conservação indefinida daquilo que foi, mas à plenitude daquilo que é. A esperança cristã não é uma cópia. É ressurreição.

Talvez por isso haja algo profundamente inquietante nesta vontade tecnológica de reconstruir os mortos. Não porque uma máquina possa aprisionar uma alma, mas porque queremos vencer o limite da perda.

Tomar a sua voz, o seu rosto, as suas palavras, os seus gestos e fabricar com eles uma presença que já não existe. Isso é apropriação. Sempre guardámos vestígios dos mortos: fotografias, cartas, objetos, roupas, gravações. O cristianismo venera até relíquias. Mas uma relíquia nunca pretendeu ser o santo.

Quando a memória começa a responder-nos, deixa de ser apenas memória. Passamos a fabricar gestos que a pessoa nunca fez, respostas que nunca deu, opiniões que nunca formulou, usando precisamente aquilo que lhe era mais próprio: o rosto, a voz, a linguagem, a história.

Há nisto um problema evidente de consentimento e de direitos de personalidade. Mas há um problema anterior ao jurídico. O outro não nos pertence, nem vivo, nem morto. A morte torna evidente aquilo que já era verdade em vida: amar alguém não é possuí-lo.

E talvez seja exatamente aqui que a tecnologia contemporânea toca numa das nossas maiores fragilidades: estamos cada vez menos dispostos a aceitar aquilo que não controlamos – o envelhecimento, a doença, a morte. Queremos gerir, prolongar, corrigir, reproduzir.

A tradição cristã oferece uma resposta muito diferente à morte. Não nos manda esquecer os mortos, manda-nos continuar a amá-los. A comunhão não acaba: transforma-se. E há uma diferença enorme entre permanecer em comunhão e exigir presença. A primeira treina o amor; a segunda é uma forma de egoísmo.

Por isso o luto é também uma escola de liberdade. Deixar o outro ser. Deixar o outro partir. Não somos nós que o conservamos na existência. Aquilo que uma pessoa é será sempre infinitamente maior do que aquilo que dela conseguimos guardar.

A morte não nos ensina a esquecer. Ensina-nos a não possuir e a continuar a amar quem, permanecendo o mesmo, entrou já num outro modo de ser.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.