As marcas do (des)amor - Ponto SJ

As marcas do (des)amor

Proteger uma criança começa antes do gesto violento. Começa na consciência. Na responsabilidade. Na humildade de reconhecer limites. Na coragem de pedir ajuda. Na comunidade que sustenta e acompanha.

Há histórias que atravessam gerações.

Recordo-me de, em miúda, num dia de reflexão no colégio, terem partilhado connosco uma história simples: a do pai que entrega ao filho um saco de pregos para que ele pregue um prego na porta sempre que perde a paciência, e retire um prego sempre que consegue controlar-se ou pedir desculpa. No fim, já feliz por colocar menos pregos e retirar mais, sinal de que está a crescer, repara que a porta ficou cheia de buracos. Então, o pai explica-lhe: “As pessoas ficam marcadas assim. O pedido de desculpa tira o prego, mas não apaga o buraco. Deixa marca.”

O filho entristeceu-se.

Hoje, como mãe, escuto os meus filhos a contarem-me a mesma história.

E entristeço-me.

Percebo hoje — basta recordar com dor tantas notícias dramáticas das últimas semanas sobre situações de violência intrafamiliar para lá do limite — como esta história continua atual. Talvez até mais urgente.

A beleza e a exigência de amar uma criança

Ser mãe, ser pai, ser educador é uma das escolhas de amor mais bonitas. Quando escolhemos amar uma criança, escolhemos escutar e atender às suas necessidades — as básicas (alimentação, descanso, segurança física e afeto) e as emocionais (afeto, presença, autonomia, confiança, validação e previsibilidade). Sim, o “afeto” aparece duas vezes — não por gralha, mas por ser tão essencial, tão estrutural, como a raiz para qualquer planta.

Todos vivemos experiências de amor e de falta de amor e todos somos capazes de gestos que cuidam e de gestos que ferem.

E todas as vezes que uma criança vive abandono, rejeição, abuso ou negligência, fica marcada. Sejam grandes ou pequenos os pregos. Seja qual for o material da porta.

Assim foi connosco. Assim continua a ser nas relações uns com os outros — vamos deixando marcas na vida uns dos outros.

Quantas vezes observamos nos nossos filhos, alunos ou noutras crianças ao nosso cuidado marcas que influenciam a forma como crescem, confiam, arriscam, se relacionam, amam e tomam decisões.

Estes medos são espaços deixados por faltas de amor. E, independente da nossa responsabilidade, são sinais para nós, adultos. E os sinais dizem-nos, como os semáforos: pare; escute; olhe… e só depois avance!

Hoje sou eu, adulto, quem responde pelos meus gestos, pelas minhas palavras e pelas minhas escolhas. Sou eu quem decide se deixa pregos na porta dos filhos que me foram confiados. Sou eu quem decide retirá-los e reparar o que foi danificado.

O mapa de riscos familiar

Proponho um exercício simples, honesto e transformador: a elaboração de um mapa de riscos familiar de formas de violência na nossa família. Não para apontar dedos, mas para apontar caminhos.

Passo 1 — PARE: Reconhecer

Quais as formas abusivas mais habituais na nossa família? Violência verbal? Violência física? Violência emocional? Violência sexual (com ou sem contacto físico)? Negligência? Abandono?

Exercício difícil este…

Este passo exige verdade. Este passo exige mais: que não nos escondamos atrás da resposta: “Ele provocou-me.” ou “ele desobedeceu”. A pergunta certa não é “O que a criança fez?”, mas sim: “O que reside em mim que me impede de responder de forma adulta e não violenta?”

Passo 2 — ESCUTE e OLHE: Compreender

Porque ocorre?

Aqui olhamos para as necessidades dos adultos e das famílias, procurando compreender porque é que, mesmo desejando cuidar bem dos nossos filhos, acabamos tantas vezes por agir com gestos de desamor.

É o que chamamos de fatores de risco das formas de violência. O que eu, mãe, preciso? O que nós, famílias / comunidade, precisamos?

Aponto apenas alguns fatores de risco individuais e de contexto — e vale a pena parar dois segundos em cada alínea:

• Stress, cansaço, exaustão

• Pressão de horários, de tarefas, de resultados

• Exigências profissionais e familiares

• Sobrecarga financeira e insegurança na sobrevivência

• Falta de tempo e de descanso

• Falta de rede ou comunidade que ampare

Tantas vezes as famílias vivem em modo de sobrevivência, e a falta de condições faz com que o medo, a culpa e a vergonha falem mais alto do que o amor. Quando uma família não sabe como vai pôr comida na mesa amanhã, como pode encontrar disponibilidade emocional para cuidar?

Um dos fatores de risco das famílias é precisamente solidão e falta de amparo. Somos todos chamados a cuidar uns dos outros, a estar atentos uns aos outros. A ajudarmo-nos. A sermos suporte. Rede. Família. Comunidade.

Passo 3 — Medidas

E AVANCE!

Agora que compreendo, o que posso, quero e vou fazer? As grandes transformações começam com pequenas escolhas possíveis:

Há certos gestos que não são admissíveis: chapadas, murros, pontapés, abanões, palmadas. Há certas palavras que não quero que os meus filhos oiçam (nem da minha boca nem de ninguém): insultos, humilhações, comparações, ameaças. Há certas ausências e abandonos que quero preencher com presença e atenção.

Quando acontecem estes comportamentos que decidi não serem aceitáveis, já consigo reconhecer que agi como não quis. E, reconhecendo, posso de coração pedir perdão — tirar o prego — e restaurar com amor.

Se a causa é mais profunda, se a raiz está nas minhas feridas, nas minhas crenças, na minha história, tenho de pedir ajuda e aceitar ajuda.

Somos seres interdependentes. Precisamos uns dos outros — também para cuidar dos que nos foram confiados por Deus para amar.

A nossa escolha

Não podemos continuar a ver pregos nas portas dos nossos filhos. Alguns causam sofrimento. Outros colocam em risco a saúde e a vida.

Proteger uma criança começa antes do gesto violento. Começa na consciência. Na responsabilidade. Na humildade de reconhecer limites. Na coragem de pedir ajuda. Na comunidade que sustenta e acompanha.
Que seja este o nosso compromisso. Que seja esta a nossa escolha.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.