Os números têm o condão de impressionar. O número de homens e de mulheres que têm procurado o batismo em adultos nos anos mais recentes, também. Muitos deles são jovens-adultos, em países em que, tradicionalmente, todos, ou quase todos, eram cristãos batizados em criança. Em França, país onde o fenómeno tem despertado particular interesse, dentro da Igreja mas também nos meios de comunicação generalistas, pela Páscoa deste ano de 2026, foram batizados 13 234. Em 2025, tinham sido 10 384; em 2024, 7 135. Se recuarmos a 2016, 4 124 foi o números de adultos que receberam o batismo.[1] Crescimentos análogos, ainda que com menor expressão, verificam-se na Bélgica, Holanda, Áustria, Alemanha, Irlanda, Reino Unido, só para mencionar alguns países europeus[2] onde os processos de secularização são particularmente significativos, constituindo fenómenos de dissipação daquele lastro simbólico e cultural e de visão da realidade modelado pelo cristianismo, referência comum das sociedades ao longo de mais de um milénio. A socióloga Danièle Hervieu-Léger classificou-o como processo de “exculturação” do cristianismo.[3]
Dado o interesse, não só dentro da Igreja mas também do ponto de vista cultural, publicamos o artigo “Uma vaga de batismos que alegra a Igreja”, de Guillaume Cuchet, historiador da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne. O objeto de análise é a realidade francesa; o método usado é histórico-sociológico. Se, por ser novo e complexo, o fenómeno pode impressionar, a sobriedade da análise histórica recomenda prudência. Como sublinha Cuchet, entre 2000 e 2023, com o batismo de adultos, a Igreja teve uma recuperação de 4 000 batismos. Porém, importa compará-la com a perda de cerca de 200 000 batismos de crianças durante o mesmo período. Se pensarmos em termos de recuperação, ela é inferior a 2%. A quebra real de batismos é, portanto, acentuada. Além disso, tal recuperação ainda não tem impacto visível noutros indicadores clássicos da vida eclesial: a prática dominical continua a diminuir; o número de ordenações não se inverte; a inscrição dos filhos, pelos pais, na catequese não mostra variações significativas. Dizendo respeito quase exclusivamente a jovens entre os 18 e os 25 anos que ainda não são pais, os efeitos são necessariamente prematuros. Para que tenham expressão estatística mas também alcance estrutural na vida da Igreja e, eventualmente, na relação desta com a sociedade, será preciso esperar uma década.
Vindo ao contexto português, há traços específicos da realidade francesa que não são diretamente transponíveis para a nossa, como o contributo da migração cristã extraeuropeia, a competição com o Islão e com grupos evangélicos ou as dinâmicas religiosas próprias dos territórios franceses ultramarinos. Por outro lado, a nossa realidade estatística também é diferente. Dos poucos dados obtidos junto de fonte da Conferência Episcopal Portuguesa, relativos aos anos compreendidos entre 2014 e 2024, o número de batismos de pessoas com mais de sete anos, que compreende os adultos, tem variações pouco significativas. Em 2014, foram 6 174; em 2024, 7 396. Já no que se refere aos batismos de crianças até aos sete anos de idade, há uma variação negativa com alguma expressão: em 2014, foram 53 770; em 2024, 49 662.
Mais do que os números, são sobretudo as leituras de fenómenos como este que interessa considerar de modo crítico, desde logo, porque expõem diferentes entendimentos, dentro da Igreja e na sociedade, por vezes em conflito, da relação a cultivar entre o universo da experiência cristã e os quadros existenciais e culturais do nosso mundo em profunda mudança, bem como do tipo de presença a promover pela Igreja no nosso espaço público. O que é que Evangelho pode e deve oferecer, hoje, nomeadamente no contexto europeu, quando se dissipa um ethos comum, que assentou, em grande parte, em princípios evangélicos, é a grande questão que importa manter em aberto.
Permito-me uma nota pessoal. A experiência pastoral recente numa igreja do centro de Lisboa tem-me possibilitado conhecer e acompanhar adultos que, com experiências de vida e buscas espirituais muito variadas, se aproximam ou, na maioria dos casos, se reaproximam da Igreja em busca de aprofundamento espiritual, de proximidade comunitária, de formação catequética e teológica. Alguns deles desejam receber o batismo. Outros, a maioria, porque foram batizados em criança, o crisma ou comunhão pela primeira vez. O contacto com estes percursos de vida e de busca espiritual, na maior parte dos casos, nada lineares, confirma-me na convicção de que nos move aquilo que nos comove e que aquilo que nos comove profundamente é quanto nos move a dar passos existencialmente significativos, por vezes, disruptivos em relação à própria história de vida. Nestas biografias, recordando um conhecido título do Cardeal Tolentino, é a sede o primeiro motivo de elogio.
Como interpretar, então, o fenómeno? Depois de um longo inverno, trata-se de uma retoma do cristianismo, uma espécie de vaga contracultural de recristianização, sinal de que “Deus não dorme” ou, simplesmente, uma surpreendente exceção que confirma a progressiva erosão das formas de pertença à Igreja e da relevância desta na cultura partilhada? De uma oportunidade, por parte da Igreja, para fazer desviar a atenção dos escândalos provocados pelos abusos sexuais, como dirão alguns mais cínicos, ou de uma reação de pendor espiritual, como um «despertar silencioso»[4], contra o niilismo ambiente?
Mesmo que possa vir a ter expressão estatística – por honestidade, como mencionei antes, haverá que pôr em perspetiva o aumento dos batismos de adultos com os números expressivos de abandonos e de diminuição de batismos de crianças –, não entendo que esta dinâmica deva ser colocada no registo revivalista de recuperação de influência perdida, de um qualquer sentimento de desforra face a profecias de irrelevância da fé e de perda de lugar do cristianismo na sociedade ou de reivindicação de atenção no espaço público. Tendo consciência do seu avesso, com os seus muitos nós e rasgões, quero crer que o mundo secular e plural em que vivemos seja um bom lugar para a experiência crente madura. Outros lugares do passado, aparentemente mais propícios, não favoreceram necessariamente a força “inteira e limpa” do Evangelho. Vivemos um tempo outro, com características específicas, exigências próprias e possibilidades inéditas, que cabe assumir como “condição de possibilidade”.
Acompanho a análise que o teólogo Severino Dianich faz do fenómeno de conversões de adultos à fé cristã, para quem é legítima a reflexão que se concentra nos sintomas e nos efeitos que o aumento numérico de batismos possa produzir na estrutura social.[5] Mas ficar por aí seria um erro. Em primeiro lugar, porque «a Igreja não é um partido político» e a sua missão não é proselitista. Não tem como finalidade tornar-se numerosa ou mais poderosa, nem deve cultivar a própria glória. O seu ideal não é afirmar a si mesma, nem conquistar poder para, com ele, determinar o desenvolvimento da sociedade. A Igreja vive descentrada na Palavra, nos seus destinatários, na procura do Reino de Deus como bem comum. Na sua identidade mais íntima, é uma comunidade “extrovertida”, exposta nesse movimento de saída, não autorreferencial: está na verdade, não necessariamente quando está no centro e tem reconhecimento público e influência social, mas quando se descentra e se vira para fora de si, começando por assumir a parte de quem não tem palavra nem voz, dos marginais, das periferias. Por isso, deve aprender a reposicionar-se como uma voz, qualificada e qualificadora – uma voz, não a voz –, no jogo múltiplo e pluriforme de cruzamentos e de relações entre dinâmicas, sensibilidades, atores individuais e instituições que exprimem forças e dão forma ao nosso tempo.[6]
Em segundo lugar, neste nosso contexto sociocultural de mudanças epocais, para responder adequadamente ao fenómeno, a reflexão deveria concentrar-se naquilo que caberia à Igreja fazer, em que diálogos e em que mudanças deveria empenhar-se, em que reformas das formas institucionais deveria ser mais consequente. Uma pessoa adulta que chega, hoje, à fé e deseja entrar na Igreja não é igual a quem fez todo o percurso nela desde criança e que, de um ou de outro modo, foi sendo modelado por um quadro de referências e por uma linguagem comuns. Estarão as comunidades disponíveis para realizar esta hospitalidade, para mudarem o que tiverem de mudar e deixarem-se pôr em causa por quem chega de novo? Serão capazes, por outro lado, de enquadrar e de ajudar a purificar as motivações que estiveram na base da opção de quem chega, de favorecer a necessária confirmação e de acompanhar a sua lenta maturação? A procura de radicalidade, de sacralidade e de beleza na liturgia, o desejo de silêncio, a adesão a referências morais e à pertença comunitária, entre outros motivos e razões, precisarão de ser purificados e modelados para que ganhem consistência evangélica e fecundidade existencial. Em grande parte dos casos, as comunidades cristãs estarão muito aquém destas exigências, ou por desatenção, ou por indisponibilidade, ou por falta de meios e de carisma.
Como consequência, em terceiro lugar, importaria identificar os aspetos da vida cristã capazes, hoje, de pôr em contacto pessoas não religiosas ou de outras religiões com a força vital do Evangelho de Jesus e a identidade estruturalmente comunitária da fé cristã. Entre nós, os cristãos deixaram de ser capazes de falar do Evangelho a quem não o conhece de todo – essa era uma prática cultivada apenas nas ditas “terras de missão”, já que entre nós, o comum era “nascer” cristão.[7] Mas é bom que passem a familiarizar-se com o facto de que, sempre mais, se encontrarão com pessoas que não foram batizadas em criança e que, em relação à fé cristã, não têm referências significativas nem sequer partilham a linguagem mais elementar. Este é um dado relativamente novo – para Dianich, é um dado desejável, já que considerar o batismo de adultos como a prática normal e o batismo de crianças a exceção será marca de um cristianismo maduro. Por isso, entre nós, é chegado o tempo em que cabe aos cristãos reaprender a falar de Jesus Cristo a quem não o conhece – cabe-lhes reaprender o exigente e delicado ofício de tradução. Para tal, devem cultivar a liberdade e a criatividade para procurar e encontrar outras palavras e outras formulações, outras imagens e outras expressões artísticas, outros ritos e outras práticas que sejam capazes de dizer e realizar, hoje, o Evangelho. Diante de novos sujeitos, em quadros culturais inéditos, é incontornável a questão: que formas visíveis para esta força espiritual com impacto existencial e alcance cultural? Afinal, o nosso tempo secular e plural é um tempo favorável, como o são todos os tempos, não para voltar ao que já se foi – ao tempo em que os cristãos eram muitos e eram determinantes em quase tudo –, como se a identidade cristã, como qualquer identidade, fosse uma relíquia e não o risco de um caminho a percorrer, mas para gerar o novo, com dedicação, imaginação e autenticidade, por fidelidade ao Evangelho de Jesus e compromisso com a edificação daquilo a que chamam Reino de Deus, que, para ser tal, será bem comum.
O mandamento de ir e de pregar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mateus 14, 21) deixou de prever «o recurso à pressão do Estado, à força da lei ou à opinião maioritária da multidão», afirmou José Augusto Mourão, há já alguns anos. O que pareceria perda, afinal, é um bem. De facto, passou o tempo em que a «conversão do Império fez crer que a organização institucional e legal de uma sociedade pelo político às exigências evangélicas poderia operar uma osmose de adesão dos cidadãos ao Reino de Deus», em que, portanto, «o quadro do anúncio e da conversão era fixado pela adesão coletiva». Superado o «domínio institucional, cadastral, que englobava numa mesma adesão social os membros da sociedade», podemos regressar ao lugar originário da escuta da Palavra disseminada num mundo entregue à sua própria liberdade e responsabilidade. Dentro deste novo quadro, conviria não atender tanto aos números mas também à verdade com que os cristãos e as comunidades vivem e testemunham, de facto, o Evangelho de Jesus. Por isso, ainda nas palavras do frade dominicano, serve aquilo a que chama pudor: o «pudor [que] convida a não manipular, a manter-se retirado na proximidade», como Deus revelado em Jesus de Nazaré que «é quando se afasta que se faz próximo»[8]. Não há que confundir tal atitude com uma retirada eremítica para contrastar o risco de diluição cultural, nem tão pouco com indiferença. Levando a sério os destinatários, que são sempre pessoas reais, culturalmente situadas, é, antes, questão de assumir a atitude criativa – por isso, arriscada – de concentrar o anúncio do Evangelho no «essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário», de modo que a proposta acabe «simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade» e, assim, se torne «mais convincente e radiante». Estas são palavras do Papa Francisco em Evangelii gaudium – este nº 35 merece ser memorizado – que devem ser tomadas como chave de leitura e princípio de ação.
Números à parte, aqueles que, a uns, animam e fazem sonhar com o regresso a passados grandiosos e aqueles que, a outros, deprimem e parecem levar à desistência, o nosso tempo, com os seus traços inéditos, uns inquietantes, outros consoladores, será particularmente propício para fazer regressar ao mais essencial e ao mais belo do Evangelho, essa força-fogo capaz de gerar e de modelar formas quentes, verdadeiras. Ainda que desejado e dito de muitos modos, vindos de múltiplos caminhos, será o que verdadeiramente procuram os adultos que se aproximam ou reaproximam da fé.
[1] Cf. Conferência Episcopal Francesa, “Enquête ‘Catéchuménat 2026’ sur les baptisés de Pâques – Dossier de Presse”, https://catechese.catholique.fr.
[2] Vejam-se os estudos sociológicos produzidos pelo Instituto Pew Research Center.
[3] Cf. Danièle Hervieu-Léger, Jean-Louis Schlegel, Vers l’implosion? Entretiens sur le presente et l’avenir du catholicisme (Paris: Seuil, 2022), obra que já mereceu atenção nestas páginas: José Frazão Correia SJ, “Como ser cristão numa cultura pós-cristã?”, Brotéria 199–2/3 (2024): 102–108.
[4] John Steves, “The ‘Quiet Revival’ breaks spiritual stillness in the United Kingdom”, The Gospel Coalition, 11 de abril de 2025.
[5] Severno Dianich, “La Chiesa e i battezzati adulti”, Settimananews, 23 de maio de 2026.
[6] Leia-se com muito proveito Marcello Neri, Fuori di sé. La Chiesa nello spazio pubblico (Bolonha: EDB, 2020).
[7] Em O Louco de Deus no fim do mundo (Lisboa: Porto Editora, 2025), o escritor Javier Cercas, que se apresenta a si mesmo como ateu, dá testemunho dessa capacidade, adaptado à cultura, neste caso, à cultura mongol, de falar do Evangelho pela primeira vez a pessoas que, dele, nada sabem.
[8] José Augusto Mourão, Quem vigia o vento não semeia (Lisboa: Pedra Angular, 2011), 164.165.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
