Há expressões que parecem apenas passageiras, próprias de uma idade, de um grupo ou de um momento, mas que acabam por dizer bastante sobre o tempo em que vivemos. “Six-seven” é uma delas. Pode querer dizer “tanto faz”, pode querer dizer “logo se vê”, pode traduzir uma hesitação, uma indiferença ou até qualquer outro significado que escape a quem já não habita naturalmente esta linguagem, mas talvez seja precisamente essa indefinição que a torna reveladora. Mais do que uma expressão com sentido fixo, “six-seven” parece traduzir uma certa forma de não escolher, de não se comprometer demasiado com uma opinião, uma vontade ou uma decisão.
À primeira vista, é apenas gíria juvenil, mas talvez seja mais do que isso. Talvez seja também um sintoma.
Não porque os jovens de hoje sejam menos capazes, menos inteligentes ou menos sensíveis do que os de outras gerações. Esse diagnóstico fácil raramente ajuda a compreender o que quer que seja. O problema talvez seja mais fundo: muitos cresceram num ambiente que os habituou a viver na lógica do imediato, da opção infinita e da satisfação sem espera. São gerações formadas numa cultura on-demand, onde quase tudo está disponível no instante e quase nada exige verdadeiro tempo de maturação. Já não é preciso esperar por um programa que vai dar na televisão: escolhe-se o que se quer ver, quando se quer ver. Já não é preciso lidar muito tempo com a falta de alguma coisa em casa: encomenda-se e, pouco depois, chega à porta. Quase tudo pode ser ajustado, trocado, interrompido, substituído.
O problema é que a vida interior não funciona assim. O carácter não se forma on-demand. A capacidade de decidir não aparece no preciso momento em que é preciso escolher, a liberdade interior, o sentido de responsabilidade, a firmeza, a capacidade de suportar a dúvida, a frustração ou o silêncio, tudo isso leva tempo. Leva confronto consigo mesmo, leva limite, leva demora, leva espaço interior, e talvez seja precisamente isso que falte a tantos jovens: não valor, não talento, nem sequer sensibilidade, mas um centro a partir do qual seja possível viver sem depender constantemente do que vem de fora.
Porque decidir não é apenas optar entre duas possibilidades. Decidir é ter dentro de si alguma coisa que sustente a escolha, é conseguir preferir, é conseguir renunciar, é aceitar que viver implica fechar portas, assumir perdas, deixar cair alternativas e isso tornou-se especialmente difícil num mundo que educa para manter sempre tudo em aberto, como se a liberdade consistisse em nunca aderir demasiado a nada.
Decidir é ter dentro de si alguma coisa que sustente a escolha, é conseguir preferir, é conseguir renunciar, é aceitar que viver implica fechar portas, assumir perdas, deixar cair alternativas e isso tornou-se especialmente difícil num mundo que educa para manter sempre tudo em aberto, como se a liberdade consistisse em nunca aderir demasiado a nada.
Talvez seja esse o traço mais inquietante que a expressão “six-seven” deixa adivinhar. Não apenas a indecisão, que faz parte de qualquer juventude, mas uma habituação ao estado intermédio, à suspensão, ao adiamento, ao descompromisso. Como se a posição mais segura fosse nunca investir demasiado, nunca afirmar demasiado, nunca escolher demasiado. Como se o ideal fosse permanecer disponível para tudo e preso a nada, só que uma vida assim corre o risco de ser vivida mais em reação do que em convicção.
Quando falta vida interior, a pessoa fica mais disponível para ser conduzida do que para conduzir a própria vida. Decide menos do que imagina, vai aceitando, adiando, deixando andar, entregando aos outros, ao ambiente, ao acaso ou ao algoritmo uma parte demasiado grande daquilo que lhe acontece. O “six-seven” deixa então de ser apenas uma expressão leve ou engraçada para se tornar quase um retrato involuntário de uma fragilidade maior.
Também por isso seria injusto transformar este assunto num ataque aos mais novos. Eles não inventaram sozinhos esta forma de estar. Foram educados por um mundo que também nós construímos: um mundo rápido, saturado, altamente estimulante, mas fraco em silêncio; um mundo cheio de opinião e pobre em discernimento; um mundo que fala muito de liberdade, mas investe pouco na formação interior de pessoas realmente livres. Talvez os jovens não estejam a inventar um vazio novo, mas apenas a exprimir, com outra linguagem, uma dificuldade que é de todos.
Talvez por isso o desafio das gerações futuras não seja apenas aprender mais, adaptar-se mais ou competir mais. Talvez seja reaprender a escolher e para isso não bastam opções, nem autonomia aparente, nem acesso imediato a tudo. É preciso espessura interior, aprender a esperar, a perder, a sustentar uma decisão e a perceber que viver bem não é manter todas as portas abertas para sempre, mas ter dentro de si alguma coisa suficientemente firme para atravessar uma delas.
Num mundo cada vez mais “six-seven”, talvez o mais urgente não seja produzir pessoas com mais respostas rápidas, mas formar pessoas com alma.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
