Cordas de amarração - Ponto SJ

Cordas de amarração

São as mãos da minha avó e eu sei que elas nasceram para amar, tudo o resto é uma variação dessa linguagem.

Crónica ficcionada sobre um óleo de Henri Fantin-Latour

Muitas vezes o amor é feito de cuidados ténues que podem passar por mero hábito ou rotina, quando, na verdade, são dádivas singelas deixadas nos dias. Não importa para quem: se calhar, são só para ela, um sinal de amor-próprio, a satisfação íntima de quem cuida de si, ou então, são um carinho para quem entrar – se entrar – seja quem for que o dia traga.

Seja bem-vindo quem vier por bem, como diz o azulejo amarelecido junto à porta.

Com ela é assim.

Coloca com cautela uma jarra de flores em cima da mesa. São quatro hortenses cheias de um rosa desmaiado, com folhas carnudas que se erguem com naturalidade. Ficam na jarra, tal como podiam estar no lugar de onde foram arrancadas. Imagino um muro baixo de pedras escuras, presas pelo tempo e pelo musgo. Há lagartixas que se esquivam em dias de sol, melros assustados que as visitam, a espreitar o interior da janela ou alguma minhoca que se arrasta junto aos canteiros. As mãos que arranjam as flores são tão antigas quanto as pedras, seriam capazes de abrigar pequenos animais furtivos à procura de abrigo, curvar-se-iam com esforço num ninho de artroses, a afastar a hera entrelaçada nos pulsos.

Essas mãos são as mesmas que me abençoaram, que me escovaram o cabelo, que me ensinaram a fazer croché, que me descascaram a fruta no final de uma refeição, que rezaram comigo antes de adormecer e que me mostraram como se faz compota de amoras silvestres apanhadas no meio das silvas atrás da casa. São mãos que já conhecem todos os caminhos, todas as árvores de fruto e cada repolho da horta. Movimentam-se numa coreografia ancestral, conhecida, treinada.

Olho para elas, mais uma vez. Os dedos deformados parecem cordas de amarração, esfregam os nódulos salientes à procura de calor e consolo para uma dor com que se vive. Tentam rodar a aliança que ancorou num anelar estrangulado, mas o aro não se move: ficou ali, simplesmente, como um juramento antigo que se fundiu na pele. Agora, as mãos e o corpo vivem num diálogo interrompido, mas quando esse corpo decide, finalmente, repousar, deixa-se cair numa cadeira e as mãos – sem o saberem – abrem e fecham devagarinho, como se conversassem com mãos fantasma, há muito desaparecidas e que não querem sair daquela casa. Também essas eu conheci: eram grandes, fortes, calosas. Eram as mãos que protegiam e que se impunham, que trabalhavam e descansavam, caídas naquelas outras que as recebiam. Hoje, são mãos invisíveis de saudade.

Volto à manhã onde estou, às mãos satisfeitas com a mesa arranjada que agora sobem à altura do rosto e fecham-se uma na outra como se preparassem uma prece. Atrás delas, desenha-se um sorriso de satisfação; depois, descem novamente, decididas, rumo ao avental. Limpam-se no pano e atiram-se ao dia.

São as mãos da minha avó e eu sei que elas nasceram para amar, tudo o resto é uma variação dessa linguagem.

(Henri Fantin-Latour, Natureza morta ou La table garnie)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.