Ibizificação - Ponto SJ

Ibizificação

A praia (já não) é de todos. A questão é saber se continuamos a querer praias onde todos possam simplesmente estar. Porque uma sociedade pode ter praias juridicamente públicas e, ainda assim, torná-las socialmente privadas.

Há uma transformação silenciosa a acontecer nas nossas praias. Chamemos-lhe Ibizificação: a praia deixa de ser apenas praia e transforma-se numa experiência de consumo. Beach clubs, restaurantes, espreguiçadeiras, música, estacionamento pago, zonas reservadas, serviços exclusivos. Nada disto é necessariamente mau. O problema começa quando aquilo que era um dos espaços públicos mais democráticos passa a ser vivido de acordo com a capacidade económica de cada um. A praia continua pública no papel, mas a experiência de a habitar é cada vez mais desigual.

A privatização do espaço público já não precisa de uma cancela. Pode acontecer através do preço do estacionamento, da escassez de acessos gratuitos, da ocupação crescente da frente marítima ou da dificuldade em chegar sem carro. Não é preciso proibir ninguém de entrar. Basta tornar mais difícil chegar ou permanecer. A praia pode continuar pública sem continuar verdadeiramente acessível. E assim, pouco a pouco, vamos aceitando como normal que o acesso ao espaço comum tenha diferentes níveis: há quem possa simplesmente chegar e estender a toalha; há quem possa comprar uma experiência muito mais confortável, exclusiva e distante dos outros.

Há aqui um paradoxo curioso. Vivemos obcecados com a autenticidade. Queremos praias “secretas”, experiências únicas, lugares ainda não descobertos, fugir das multidões e encontrar aquilo que os outros ainda não encontraram. Queremos estar num lugar público, mas, se possível, sem os outros. Mas milhões de pessoas procuram exatamente a mesma coisa. O desejo de sermos diferentes acaba por produzir os mesmos lugares, os mesmos restaurantes, os mesmos beach clubs, as mesmas fotografias de Instagram e, no limite, as mesmas experiências. Procuramos a praia autêntica e acabamos a transformar todas as praias numa versão da mesma praia.

E talvez seja aqui que devêssemos parar para pensar. Porque aquilo que estamos a perder não é apenas uma determinada paisagem ou uma certa forma de fazer férias. Estamos a perder a experiência de partilhar um lugar com quem não escolhemos. A praia sempre foi um estranho espaço de encontro: crianças e idosos, ricos e pobres, turistas e moradores, pessoas de diferentes culturas e estilos de vida, todos diante do mesmo mar e debaixo do mesmo sol. O espaço público tem precisamente essa característica incómoda: não podemos escolher quem está ao nosso lado.

Talvez a questão não seja, portanto, saber se podemos pagar por um lugar melhor na praia. A questão é saber se continuamos a querer praias onde todos possam simplesmente estar. Porque uma sociedade pode ter praias juridicamente públicas e, ainda assim, torná-las socialmente privadas. E talvez a verdadeira liberdade não esteja em poder comprar a melhor experiência, mas em poder estender uma toalha, dar um mergulho no mar e descobrir que, naquele momento, aquele lugar ainda é de todos.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.