Uma cidade são relações - Ponto SJ

Uma cidade são relações

Mas afinal o que é uma cidade? Que relação tem cada um/uma de nós com a cidade onde habita? E o que significa habitar a cidade?

Quando nos questionamos “O que é uma cidade?” em que pensamos? Talvez prédios e ruas; quem sabe empresas, trânsito, serviços; e ainda, lugares onde há uma aglomeração excessiva de gente e grande confusão! Vivemos recentemente eleições autárquicas e, ainda que a relação das pessoas com a cidade fosse uma preocupação presente na maior parte dos programas eleitorais, infelizmente, deu-se muito pouco destaque à mesma nos debates entre os candidatos.

A palavra “cidade” tem origem na palavra latina civitas, que significa “cidadania” ou “conjunto de cidadãos” e, posteriormente, passou a referir-se ao espaço físico onde estes viviam. A raiz latina civitas está intimamente ligada ao conceito de comunidade. Já a palavra urbanismo provém do termo latino “urbs, urbis” que também significa “cidade”, referindo-se à organização da vida na cidade. Uma civitas com uma boa urbs é o ideal que todos procuramos!

Mas afinal o que é uma cidade? Que relação tem cada um/uma de nós com a cidade onde habita? E o que significa habitar a cidade? Estas e outras questões têm sido motivo de reflexões e partilhas inspiradoras na Comunidade Rupert Mayer.

O urbanista Carlos Moreno (1970) estimula-nos a refletir sobre a cidade dos 15 minutos, onde todos os espaços e serviços essenciais à nossa vida deveriam ser acessíveis a um quarto de hora de distância

Por um lado, aprendemos com João Seixas, geógrafo e especialista neste tema, que uma cidade não são nem pessoas, nem prédios, nem ruas… são relações, são laços entre seres humanos, relações afetivas, comerciais, culturais, entre outras. O que é que potencia a vida na cidade? O que é que faz com que os seres humanos queiram estar uns com os outros? É a proximidade entre as pessoas aquilo que faz uma cidade? Ou será que andamos mais distantes uns dos outros? Porquê?

Um dos obstáculos à proximidade entre pessoas pode estar relacionado com o próprio urbanismo. O urbanista Carlos Moreno (1970) estimula-nos a refletir sobre a cidade dos 15 minutos, onde todos os espaços e serviços essenciais à nossa vida deveriam ser acessíveis a um quarto de hora de distância, seja a pé, de transportes públicos, de carro. A maioria das cidades no mundo não estão construídas em função das relações, da cultura do encontro, da criação de laços entre as pessoas.

As cidades estão dominadas pelos carros, o espaço público é cada vez mais comercializado e tem menos qualidades, segmentam-se as classes sociais em zonas diferentes da cidade, etc. Segundo Moreno “o retorno do investimento numa cidade mede-se pela qualidade dos encontros que aí criamos.”

O Papa Francisco também nos inspira através da Encíclica Laudato Si, chamando à atenção para a cultura do descarte, da indiferença e para os excluídos da cidade, cujos problemas, muitas vezes, são apresentados nos discursos políticos como meras questões colaterais. Aliás, isto deve-se, em parte, ao facto de que muitos opinion makers, meios de comunicação social e centros de poder situarem-se em áreas que não propiciam o contacto direto com os pobres e os seus problemas. Mais ainda, por exemplo, Portugal é um dos países da União Europeia onde o poder local é muito frágil, na medida em que, apenas cerca de 11% do Orçamento Geral do Estado vai para o poder local (cerca de 10% para as Autarquias e 1% para as Juntas de Freguesia), que é quem tem a responsabilidade na gestão das cidades. Perante este cenário, como dar atenção aos excluídos?

Não há soluções simples, mas de facto está ao alcance de cada um/uma mudar o modo como habitamos a cidade, como temos os sentidos despertos, estamos atentos e nos importamos com o que se passa à nossa volta, começando pelo nosso prédio ou nas ruas onde circulamos. E também depende de cada um/uma a relação que cria com o seu bairro e, consequentemente, com o poder local eleito, participando mais ou menos nas iniciativas promovidas pela Junta da Freguesia e pelo Município. Como o Bom Samaritano, queremos ser cidadãos atentos e ativos nas nossas cidades e cristãos que se deixam tocar pela vida dos outros, sobretudo pelos que não têm voz, nem vez, e contribuem para que as relações fraternas sejam de facto o mote para o desenvolvimento da vida na cidade.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.