"Fomos ao terreno" - Ponto SJ

“Fomos ao terreno”

O “território” não é só território. É habitado não por “eleitores”, mas por pessoas concretas, com desejos, medos e frustrações – mas também, numa democracia, com poder para mudar o seu destino. 

Existe uma expressão em política que sempre achei suspeita. Quantas vezes não ouvimos já um político dizer, num vídeo de campanha ou numa entrevista em directo, as palavras “estamos no terreno” ou “conhecemos o território”? A expressão assume, à partida, que o político vive num gabinete ou que o seu lugar é na tribuna e nas lutas partidárias, e “ir ao terreno conhecer o território” é uma actividade extraordinária; (ou seja) o político está a fazer um esforço que deveríamos todos agradecer, ou reconhecer como distintivo. Com alguma perspicácia, até encontramos um teor feudal nesta expressão: o senhor vai falar com os seus súbditos e ver se lhes faz algum favor. Uma democracia feudal é uma contradição nos termos.

“O povo é quem mais ordena”: é esta a convicção que todos gostamos de expressar sobre a nossa democracia. Mas a verdade é que o povo não ordena nada no paradigma do “político que vai conhecer o território”; nesse contexto, o povo é ordenado por técnicos camarários e ministeriais, peritos em comunicação e dinâmicas de popularidade intra- e interpartidária.

Que ferramentas podemos usar contra esta alienação persistente, mas subtil, do nosso poder político enquanto cidadãos? Há algumas lições que tenho aprendido no meu envolvimento cívico e político ainda curto, e por vezes de forma dura:

1 – Suspeitemos de iniciativas de “participação” cidadã. A menos que estejamos a falar de uma verdadeira assembleia de cidadãos ou de um orçamento participativo com consequências práticas como fruto da deliberação conjunta (e há bons exemplos destes), estas iniciativas de “participação” muitas vezes são exercícios de cosmética para nos darem a sensação de que a nossa perspectiva e o diálogo entre todos importa; mas depois na prática não temos nenhum peso nas decisões.

2 – Não esperemos que sejam os outros a resolver, que seja o político ou o vizinho a detectar o problema. Agarremos os recursos que temos disponíveis com as nossas mãos e façamos directamente a mudança que é necessária. Se alguém é atropelado à porta de minha casa porque existe um problema óbvio de insegurança rodoviária, peguemos em papéis e cola e vamos divulgar uma petição no nosso bairro; vamos bater a portas, falar com jornalistas e usar as redes sociais. Isto, na minha comunidade, resultou. Demorou, houve muitos desentendimentos pelo caminho e a resposta final foi pouco ambiciosa, mas o facto é que conseguimos que a Câmara Municipal implementasse medidas concretas. É um começo.

3 – Numa democracia qualquer cidadão pode ter um papel político. Porque é que eu não considero, como independente até, ser candidato a um órgão político? Será que tenho medo de ser alvo de preconceito? Se sim, estou a compactuar com uma narrativa de que não gosto. E assim nada muda. Ou será que sinto que não sou capaz porque não sei o suficiente, não tenho capacidades? A resposta a este medo é simples: numa democracia, basta conhecermos a nossa comunidade e termos uma preocupação por ela. Só esse é o seu caso, isso já distinguiria o leitor de muitos representantes eleitos hoje em dia… E é importante não esquecer que o trabalho político é sempre feito em conjunto; é isso que o define, aliás; é o que torna o trabalho mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo.

4 – Valorizemos e apoiemos o jornalismo local, que tem muita relevância. Os jornais de cidades e freguesias cobrem assuntos que outros jornais normalmente não têm interesse em cobrir, pelo menos em profundidade; falam de problemas muito concretos e usam uma linguagem normalmente acessível ao leitor. Além disso, estes jornais criam comunidade, e todos sabemos que uma comunidade é sempre mais forte e resiliente do que um indivíduo.

Afinal de contas, o país não é paisagem. O “território” não é só território. É habitado não por “eleitores”, mas por pessoas concretas, com desejos, medos e frustrações – mas também, numa democracia, com poder para mudar o seu destino.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.