Diálogo sobre a fé aproximou crentes e não crentes - Ponto SJ

Diálogo sobre a fé aproximou crentes e não crentes

Em quem crê quem não crê? Em quem não crê quem crê? Cerca de 400 pessoas juntaram-se para ouvir um político, uma editora, uma enfermeira e um rapper numa improvável conversa sobre fé, dúvida, transcendência e sentido da vida.

O auditório do Colégio de São João de Brito, em Lisboa, encheu-se na noite de sexta-feira, 18 de setembro, para acolher uma interpeladora e profunda conversa sobre os limites e a experiência da fé. Esta conferência promovida pela Paróquia de São João Batista do Lumiar trouxe à conversa o que sentem e pensam crentes e não crentes e foi moderada pelo jornalista e escritor Luís Osório, a quem muito se deveu a fluidez da conversa, sempre pontuada com humor e profundidade.

Sob o tema “Em Quem Crê Quem Não Crê, Em Quem Não Crê Quem Crê”, sentaram-se à mesma mesa a editora Zita Seabra, a enfermeira Cármen Garcia, o economista e antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e o rapper Mário Cotrim, mais conhecido como ProfJam. Ou seja, três crentes e um agnóstico.

A abrir a sessão, o P. Francisco Rodrigues, sj, pároco da igreja São João Batista do Lumiar e anfitrião desta iniciativa, sublinhou a necessidade da escuta ativa entre crentes e não crentes, afirmando que “o diálogo sério e sincero enriquece-nos a todos”. Apelou ao “poder salvífico do diálogo”, recusando “o confronto agressivo, as trincheiras defensivas e os monólogos” em favor de uma “troca aberta, respeitosa e de profunda escuta mútua”. E foi precisamente isso que viria a acontecer ao longo de toda a noite.

Assumindo-se como “um agnóstico, um cético”, Pedro Passos Coelho trouxe para a conversa a perspetiva de quem continua à procura de respostas sem considerar encerradas as grandes perguntas da existência. “Respeito muito todos aqueles que acreditam que há alguma coisa transcendente, que está para além do nosso entendimento”, afirmou. “Ainda não encontrei resposta, mas ando à procura.”

Ao longo da sua intervenção, refletiu sobre o problema da origem do universo, a capacidade humana de distinguir o bem do mal e defendeu o livre-arbítrio. Num dos momentos mais marcantes, rejeitou uma visão pessimista da natureza humana: “Eu acredito muito na humanidade e nas pessoas. (…) Nós podemos escolher, e eu acredito que o exemplo, a observação e a aprendizagem nos podem levar a ser pessoas melhores.”

O antigo primeiro-ministro partilhou ainda episódios da sua própria vida que o levaram a interrogar-se sobre o mistério da existência, recordando experiências familiares vividas em ambiente hospitalar e momentos que permanecem difíceis de explicar racionalmente.

Zita Seabra recordou que não existe um único caminho para acreditar. “Chega-se à fé de muitas maneiras” afirmou, defendendo que a fé é sempre uma escolha livre e pessoal. “A fé não nos chega através da espada. A fé chega pela livre vontade e pela decisão individual e pessoal de cada um.”

Ao refletir sobre o lugar da religião nas sociedades contemporâneas, destacou a liberdade religiosa como uma das grandes conquistas das democracias modernas e insistiu que a busca de sentido continua a ser uma necessidade profundamente humana. “As pessoas têm necessidade do transcendente, têm necessidade de perceber qual é o sentido da vida, têm necessidade de ser ajudadas a distinguir, em qualquer momento, o bem do mal.”

Mais tarde, procurou também clarificar uma distinção que considera fundamental: “Fé não é fezada. Uma coisa é uma fezada, outra coisa é fé.” E evocou uma ideia de G. K. Chesterton de que “a fé está sempre na medida da nossa razão” e que a procura começa justamente onde a razão encontra os seus limites.

A partir da sua experiência de maternidade e de enfermeira em cuidados intensivos, Cármen Garcia levou para o auditório histórias concretas sobre fragilidade, sofrimento e esperança. “Numa cama de hospital, nós somos todos iguais”, afirmou. “Não há diferenças entre crentes e não crentes. Não há diferenças entre ricos e pobres.” Foi precisamente nesse contacto diário com a vulnerabilidade humana que descobriu uma nova relação com a morte. “Aprendi a não ter medo da morte”, confessou. “O que eu percebi é que tenho de viver bem a minha vida.”

A enfermeira e escritora partilhou também a forma como a maternidade e os seus desafios a têm ajudado a fortalecer a fé instintiva e pura que descobriu quando ainda era criança e que a tem acompanhado ao longo da vida.

Mário Cotrim, o rapper ProfJam, trouxe a sua experiência da fé, recordando o seu percurso de catequese e formação cristã, falou da confiança inicial da infância, mas também da necessidade de uma fé amadurecida. “Há uma sede nossa de confiar”, afirmou e descreveu a sua compreensão atual da vida espiritual como algo que não pode ser vivido isoladamente.

“Já tentei compreender Deus sozinho”, confessou. Contudo, foi descobrindo que a fé se constrói em comunidade e em relação com os outros. Comparou a Igreja a um hospital: “As pessoas vão lá tratar-se. Eu vou lá pedir ajuda.”

Se a riqueza do painel foi evidente, a participação da assistência confirmou que a noite invocou questões profundas que dizem respeito a todos. Houve intervenções de todas as idades e proveniências, desde um jovem vindo de Braga, que contou ter chegado quase por acaso à conferência, até uma senhora de 99 anos que fez questão de estar presente nesta conversa e falou sobre esperança, fé e a experiência de uma vida longa. A audiência foi, assim e também, protagonista deste diálogo que não terminou ali, mas continuou a ecoar nas conversas e reflexões que cada um levou para casa.

No final, ficou a sensação de que o tema da noite não exigia vencedores nem procurava conclusões definitivas. O que se procurou foi algo mais raro: um espaço onde diferentes convicções pudessem encontrar-se sem caricaturas nem hostilidade.

Neste tempo marcado pela polarização, a sala cheia mostrou que continua a existir uma vontade profunda de conversar seriamente sobre aquilo que mais importa e que, por vezes, crentes e não crentes têm mais perguntas em comum do que respostas para os separar.