Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio convida-nos a abrir os olhos para reconhecer que tudo é expressão do amor e da ternura de Deus por mim. A dado momento, convida-nos a contemplar a “corte celestial”, olhando “os santos, como têm estado a interceder e rogar por mim” (EE 60). Recordo-me de sentir, com surpresa e ânimo, que todos aqueles que estão já junto de Deus me apoiam e torcem por mim, como uma bancada que aplaude e dá força ao atleta no estádio.
E foi no Estádio de França que, com o Papa Leão XIV, 80 000 jovens franceses (e não só) puderam saborear algo desta experiência. Ali, a história de fé do povo francês foi contada a partir dos seus santos e santas que iam formando uma multidão. Olhando para esse exército de santos, disse o Papa que “a luta para a qual somos chamados é a da fé, ou seja, a dedicação por viver como discípulos de Jesus”, porque “é em seu nome que temos a força dos justos, para resistir à tentação” e “a perseverança dos mansos, para nos dedicarmos ao bem”. Por isso “o nosso combate não é uma luta contra os outros e não recorre às armas da violência, do desprezo ou da opressão. A nossa única arma é o amor que se doa”.
À medida que a multidão dos santos avançava, colocava as mãos sobre os ombros de vários jovens presentes na primeira fila, confiando-lhes, com esse gesto, uma herança. É dessa herança que nos fala a introdução da Carta Encíclica Magnifica Humanitas (MH 1):
“Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que «o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente». Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude.”
o Papa Leão diz aos jovens franceses: “Vocês são os santos de França!”. Tarefa exigente, porque num país onde o discurso político se encontra cada vez mais armado e extremado, esta herança de fé e humanidade não é decorativa, mas um critério de discernimento para a Igreja e para a sociedade.
Vendo este gesto, o Papa Leão diz aos jovens franceses: “Vocês são os santos de França!”. Tarefa exigente, porque num país onde o discurso político se encontra cada vez mais armado e extremado, esta herança de fé e humanidade não é decorativa, mas um critério de discernimento para a Igreja e para a sociedade. A identidade da Igreja, por estar centrada em Cristo, deve seguir-se dessa herança que molda o mundo, tendo como critério a dignidade humana e finalidade o bem comum.
Há, no Papa e na igreja francesa, uma alegria pelo renascimento da vida da Igreja, bem visível no aumento dos catecúmenos, nos jovens que procuram pela fé um sentido maior que parecia esquecido e até entradas de seminaristas no ano propedêutico. E há também uma chamada de atenção, feita na homilia da celebração das vésperas, na Catedral de Notre Dame, para que a descoberta (e defesa) de uma “identidade” não signifique exclusão, luta e desprezo, mas uma atitude de saída, acolhimento e abertura:
“É a partir da Encarnação que decorre a identidade da Igreja, chamada a estar sempre “em saída”. Como discípulos de Cristo, sabeis bem que a comunidade cristã não é um refúgio onde retirar-nos para nos protegermos do próprio tempo. Pelo contrário, ela oferece-se, à semelhança das antigas catedrais, como um espaço de acolhimento, respeito, revelação e sentido para todos. Aqui reside a força de uma Igreja viva: acolher a periferia, que já se encontra no seu coração; o distante, que, na realidade, já está próximo; o estrangeiro em quem Cristo já bate à porta.”
Viveram-se dias de alegria partilhada e de uma leveza que contrariava o “peso” de uma multidão. A cidade deixou-se tocar pela celebração e pela liturgia, solene e simples, que trouxe o silêncio e recolhimento à multidão. E, neste ambiente de amizade simples, mais de 800 000 deram rosto àquela “Igreja, presente no mundo como sinal de unidade para toda a família humana” (MH 19).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
