“Oh My God” é um documentário de um jovem realizador, Rodrigo Marques Mendes, nascido entre a geração Millennials e a geração Z, que explora o porquê de muitos jovens se afastarem da religião e procurem identidade na espiritualidade. Revê perspectivas de académicos e jovens, e também aborda espiritualidades e diferenças entre gerações.
Em primeiro, só o facto deste documentário ter sido realizado e estar actualmente disponível no Prime Vídeo é (e devia ser!) de uma alegria enorme para a Igreja e para a sociedade, e acredito mesmo que é um dos feitos culturais mais importantes da nossa geração em Portugal.
O desejo profundo de alguém de, mais do que tentar dar respostas, tentar ler os sinais do tempo e compreender as motivações genuínas da nossa geração e dá-las a conhecer através de um filme é um trabalho louvável para quem vive e segue estas gerações de perto. Inclusive para mim, que faço parte da geração Millennials e revi-me totalmente nesta produção. Representa uma forma muito certeira, clara e sólida das procuras e as sedes verdadeiramente humanas destas duas gerações, dentro e fora da Igreja e o porquê delas.
E por isso trago, também, este documentário como ponto de partida para a minha reflexão, que me ajudou também a ganhar alguma clarividência sobre a minha própria sede.
1. Uma geração com sede
Somos uma geração que desconfia de rótulos. Que questiona aquilo que recebeu. Que tem dificuldade em pertencer simplesmente porque sempre se pertenceu. Queremos experimentar, conhecer, desconstruir, voltar a construir. Procuramos propósito, significado, uma vida que faça sentido. Temos uma liberdade e uma abertura que gerações anteriores não tiveram da mesma forma. E há qualquer coisa de muito bonito nisso.
No final do documentário, o Rodrigo chega a uma imagem que me ficou particularmente: talvez a questão desta geração já não seja tanto a garrafa, o rótulo ou sequer o líquido, mas a sede. Somos uma geração sedenta, à procura. Uma geração que anda com a garrafa na mão à procura daquilo que possa finalmente responder às suas perguntas.
Acho esta imagem lindíssima. Mas é precisamente aqui que começa a minha inquietação. Porque a sede é importante, mas a sede não determina aquilo que é a água.
2. Quando procurar a verdade se transforma em construí-la
Uma das imagens usadas ao longo do documentário é a da espiritualidade como uma garrafa, da religião como um rótulo e de Deus como aquilo que está dentro. E a geração actual parece ter uma relação particularmente livre com todas estas dimensões: rejeita alguns rótulos, experimenta diferentes garrafas, procura diferentes líquidos e, muitas vezes, mistura elementos de várias tradições espirituais.
O próprio documentário termina com uma imagem provocadora: somos capazes de andar com uma garrafa com vários líquidos e vários rótulos. E talvez seja precisamente aqui que esteja um dos grandes perigos espirituais do nosso tempo e destas duas gerações (Millennials e Z). Não porque procurar seja errado. Não porque questionar seja errado. Pelo contrário. Muito menos porque experimentar, duvidar ou atravessar períodos de afastamento signifique necessariamente abandonar Deus.
O problema começa quando deixamos de procurar a verdade e passamos, quase sem perceber, a construí-la. Quando aquilo que faz sentido para mim se torna automaticamente verdadeiro porque faz sentido para mim.
3. O “Deus de bolso de trás”
Quando Deus deixa de ser Aquele que procuro conhecer e passa a ser Aquele que adapto àquilo de que preciso.
No documentário, um dos académicos convidados surge com uma expressão particularmente forte: o “Deus de bolso de trás”. Um Deus que está disponível quando precisamos dele. Que retiramos do bolso perante determinada necessidade e voltamos a guardar quando já não nos é conveniente. Um Deus do qual escolhemos aquilo que nos serve, rejeitamos aquilo que nos incomoda e misturamos aquilo que queremos com outros elementos que naquele momento nos parecem fazer sentido.
E aqui parece-me existir uma contradição fundamental.
Se Jesus Cristo é, para um cristão, “o caminho, a verdade e a vida”, então Deus não pode ser simplesmente mais um líquido dentro da garrafa.
Não pode ocupar o mesmo lugar que todas as outras possibilidades que vou experimentando até descobrir a combinação espiritual que melhor corresponde às minhas necessidades. Porque, nesse momento, já não sou eu que procuro Deus. Sou eu que fabrico um Deus à minha medida.
Talvez seja esta a fronteira mais difícil de reconhecer: a diferença entre uma procura sincera e uma construção espiritual em que o meu próprio eu se torna o critério último de verdade. Isto não significa que todas as pessoas tenham de viver a espiritualidade da mesma maneira! Nem significa que práticas como yoga, mindfulness, reiki ou tantas outras experiências referidas no documentário não possam ter significado profundo para quem as vive. Cada pessoa tem um percurso único, e seria absurdo tentar reduzir todos esses percursos à mesma experiência.
Por isso, não me faz confusão outras possibilidades de espiritualidades. A questão que me inquieta é outra.
O que acontece quando Deus entra nesse mesmo “buffet”?
Quando escolhemos um pouco daqui, outro pouco dali, retiramos aquilo com que não concordamos e construímos uma espiritualidade perfeitamente adaptada a nós?
Nesse momento, talvez aquilo que esteja no centro já não seja Deus. Talvez sejamos nós próprios.
4. Mas como chegámos aqui?
E seria demasiado fácil terminar aqui culpando simplesmente uma geração relativista, individualista ou incapaz de se comprometer.
Porque o próprio documentário levanta uma pergunta que me parece igualmente importante: como chegámos aqui?
Se tantos jovens cresceram dentro da Igreja e chegam à idade adulta sem conseguir perceber claramente aquilo em que acreditam; se existe uma separação cada vez maior entre acreditar e pertencer; se determinadas questões humanas e sociais provocam um afastamento profundo; se muitos sentem que não encontram dentro da Igreja espaços onde possam fazer perguntas verdadeiras sem receber apenas respostas prontas, então talvez seja necessário perguntar também o que falhou na transmissão da fé.
Talvez não baste dizer a esta geração que não pode misturar líquidos.
Talvez seja preciso perguntar se alguma vez lhe demos verdadeiramente a provar aquilo que dizíamos estar dentro da garrafa. Porque uma fé herdada apenas como rótulo dificilmente sobreviverá numa geração que rejeita rótulos.
5. Uma oportunidade para a Igreja
E talvez aí esteja também uma oportunidade enorme para a Igreja.
Esta é uma geração que pergunta. Que procura. Que quer compreender. Que tem sede de significado, de propósito, de comunidade, de alguma coisa que seja maior do que ela própria. E não tenhamos medo de ter essa sede! Talvez seja precisamente aí que Deus possa encontrar estas gerações.
Mas, para isso, teremos também de ter coragem de dizer que procurar não significa que todas as respostas sejam iguais. Que abertura não significa necessariamente relativismo. Que liberdade não significa construir uma verdade à medida de cada um.
E sobretudo que Deus não existe para se adaptar às nossas necessidades.
Somos nós que entramos numa relação com Alguém que nos precede, nos ultrapassa, nos questiona, nos consola, mas também nos transforma.
6. Procurar Deus ou fabricar Deus?
Talvez a grande questão deixada por Oh My God seja, por isso, ainda maior do que aquela com que o documentário termina. Sim, somos uma geração com sede. Uma geração talvez profundamente sedenta. Mas a sede, por mais verdadeira que seja, não transforma todos os líquidos em água.
Porque há uma diferença enorme entre procurar Deus e conhecê-lo, e fabricar Deus consoante aquilo que determino.
Talvez o desafio espiritual do nosso tempo (e não só destas duas gerações) seja precisamente este: conservar toda esta liberdade para procurar sem cair na tentação de fabricar aquilo que queremos encontrar. E lançar-nos sem medo, a explorar esta boa tensão entre a fidelidade e a novidade.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
