Até onde? Até quando? - Ponto SJ

Até onde? Até quando?

Até onde, até quando continuaremos a ser meros espectadores, satisfeitos com o lugar de treinador de bancada? Quando passaremos a ser consumidores atentos que refletem, pensam pela sua cabeça e não se deixam enganar por tudo a que assistem?

A atualidade da vida nacional coloca-nos perante questões que nos exigem uma reflexão que vá para lá da denúncia de factos, da constatação dos mesmos e das leituras feitas por terceiros sobre os mais diversos acontecimentos.

Uma reflexão que parte da certeza de que não podemos separar a atualidade nacional da sua dimensão política, plano em que governo e oposição se gladiam diariamente, tendo como natural e pública justificação a defesa do bem comum, isto é, o bem de todos os portugueses. Na dimensão política precisamos de ter em consideração que cada partido político não justifica o que diz e faz, em função do próprio partido e dos seus militantes, mas sim de todos os portugueses, ou melhor, dos mais pobres, dos mais desfavorecidos, dos desempregados e reformados. Também é relevante não esquecer que existe uma tendência inata de políticos e não políticos para julgar o todo pela parte, ou a parte pelo todo, de acordo com o que convém neste ou naquele momento.

Segue-se que a atualidade é “embrulhada”, no melhor sentido da palavra, pelo trabalho da comunicação social, que nos traz diariamente a sua visão dos factos, assente no trabalho jornalístico – que se rege pelo seu código de ética, queremos acreditar – e na diversidade de comentadores que ocupam a primeira linha da leitura dos mais diversos acontecimentos.

Quem fica com a fatia mais difícil de digerir deste “bolo”, que nos é dado de bandeja diariamente, são os portugueses que ligam a televisão, ouvem a rádio, consultam as redes sociais ou ainda conseguem ler jornais.

Quem fica com a fatia mais difícil de digerir deste “bolo”, que nos é dado de bandeja diariamente, são os portugueses que ligam a televisão, ouvem a rádio, consultam as redes sociais ou ainda conseguem ler jornais. E é aqui que se coloca uma questão que me tem assaltado nestas últimas semanas… Até onde, até quando, vamos continuar a consumir notícias e comentários, sem refletir, sem nos questionarmos, sem trocarmos impressões com verdade e honestidade com quem habitualmente falamos?

Ouvindo, vendo e lendo as mais variadas apresentações da atualidade e os comentários que provocam, temos de saber questionar a veracidade dos factos, assim como as posições políticas e ideológicas de quem os comenta. Não conseguimos colocar as nossas dúvidas e questões, no imediato em que as escutamos, porque somos consumidores. Mas quando nos atrevemos a questionar esta ou aquela pergunta, este ou aquele comentador, os direitos da comunicação social assumem o protagonismo de guardiões da defesa da verdade, da justiça e da democracia. Até onde, até quando?

É claro que a imensa maioria dos portugueses não está disponível para grandes reflexões. Apenas quer ter trabalho, comida na mesa, casa onde viver, com água e luz, filhos na escola, combustível no carro, férias pelo menos uma vez no ano. E como a maioria não consegue preencher todos estes itens nas suas vidas, a realidade prática impõe-se a qualquer tipo de teoria ou exigência de pensamento crítico. Mas, insisto, esta realidade não pode impedir que surjam reflexões, que se façam perguntas.

Como a maioria dos portugueses não consegue preencher todos estes itens nas suas vidas, a realidade prática impõe-se a qualquer tipo de teoria ou exigência de pensamento critico. Mas insisto que esta realidade não pode impedir que surjam reflexões, que se façam perguntas.

Perante o recente drama real e mediático criado com a correção dos exames nacionais, impõem-se perguntas: em anos anteriores, nunca ocorreram problemas? As percentagens que se referem ao trabalho já feito não têm igual peso às percentagens do trabalho por fazer? Os professores que não se queixam serão menos ou piores do que aqueles que se manifestaram publicamente pedindo a demissão do ministro? O ministro que tem conseguido conduzir a máquina imensa da Educação deixou de ser competente de um dia para o outro? Os benefícios que foram conseguidos para os professores nestes últimos dois anos devem cair por terra, em função deste desastre de proporções inimagináveis?

Como em tudo na vida, a balança – símbolo escolhido para identificar o exercício da justiça – tem sempre dois pratos e devemos manter a capacidade de ver e confirmar o peso do positivo e do negativo, da verdade e da mentira, do premeditado e do imprevisto em tudo o que acontece. Se assim não fizermos, é real o risco de sermos manobrados por terceiros. Na balança deste acontecimento, que ganhou contornos de caos, de desastre total, de tragédia nacional, quais são os pesos de cada um dos lados?

Existem outros elementos, na análise destes factos em concreto, que não devemos esquecer. Em primeiro lugar, a oportunidade excelente para criticar a ação governativa e tentar derrubar mais uma peça no difícil xadrez de governar de um governo minoritário; em segundo lugar, a ação dos sindicatos, fortalecida pela recente vitória na questão da reforma laboral e tão presente no setor da Educação; em terceiro lugar a velha máxima «good news, no news».

Em tempos idos, os piquetes de greve conseguiam exercer um poder real sobre os trabalhadores. Esperemos que esses tempos tenham passado e que os professores que trabalharam e continuarão a trabalhar, ajudando a cumprir calendários, o possam fazer sem sentirem receio de represálias ou afrontas no espaço público. Acredito que para os professores, o maior interesse foram e serão sempre os alunos, que têm direito a ver as suas notas nas pautas, e as suas famílias que as esperam com igual expectativa.

Voltamos ao trabalho essencial da comunicação social na defesa da verdade, da justiça e da democracia e que, para tal, escrutina diariamente a sociedade. É uma verdade que esta  merece ser sempre defendida. Mas é igualmente necessário que a comunicação social seja isenta, imparcial e exigente para com todos os intervenientes no espaço público. Conscientes de que a luta das audiências ocupa diariamente o outro prato desta balança…

Até onde, até quando seremos meros espectadores, satisfeitos com o lugar de treinadores de bancada? Quando passaremos a ser consumidores atentos, que refletem, que questionam, que pensam pela sua cabeça e não se deixam enganar por tudo aquilo a que assistem?

Recordo o velho e impiedoso ditado popular “todo o burro come palha, a questão é saber dá-la”. Não é o que desejo para os nossos filhos e netos, que terão a responsabilidade de conduzir o futuro.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.