Uma Roma escondida - Ponto SJ

Uma Roma escondida

Eu que fui para servir, vinha sempre servido pelo "santo povo fiel de Deus".

Ter sido enviado a Roma pela Companhia de Jesus para estudar Filosofia foi um privilégio. Viver numa comunidade internacional de formação, com jesuítas de oito países europeus, em San Saba, fez-me perceber aquilo que significa fazer parte de um Corpo Apostólico Universal, que se quer disponível para ser enviado onde for mais necessário, e ofereceu-me uma experiência comunitária necessariamente diferente daquelas que tivera em Portugal. Além disso, a vida da Companhia em Roma proporcionou-me caminhar lado a lado com jesuítas de todas as idades, feitios e proveniências, cujo estilo certamente marcará o meu percurso.

Por outro lado, completar a Licenciatura em Filosofia numa Universidade Pontifícia como a Gregoriana, com alunos e professores dos quatro cantos do mundo, foi uma experiência muito enriquecedora e desafiante, onde pude aprofundar os fundamentos filosóficos do magistério social do Papa Francisco, mergulhar em temas de Filosofia da Religião como a secularização ou a fenomenologia e percorrer uma jornada intelectual, seguindo as pegadas de grandes vultos do pensamento humano, como Platão, Agostinho, Kant, Pascal, MacIntyre ou Hannah Arendt.

Foram dois anos de muitas graças, também ao nível de Igreja. Tive a oportunidade de acompanhar os últimos meses do pontificado do Papa Francisco, na sua debilidade, doença e morte que não deixaram de ser proféticas; de viver o Jubileu de 2025, que abriu as portas da Esperança para tantos peregrinos; e de saudar da praça o recém-eleito Papa Leão, cuja chegada inaugurou uma nova era na Igreja e no mundo. Vivências inesquecíveis que me moldaram como cristão e me fizeram sentir, efetivamente e afetivamente, com a Igreja.

No plano cultural, Roma nunca desilude, como cidade-museu a céu aberto, sempre com novos recantos por explorar. É o objetivo da fase dos primeiros estudos do jesuíta “conhecer o contexto da missão”. Mesmo com os incómodos próprios do contínuo fluxo de turistas, tal horizonte formativo também passa por uma imersão naquilo que a cultura local tem para oferecer em termos de música, arquitetura, escultura, cinema, literatura, desporto, realidade política e vida de cidade cosmopolita. Nesse sentido, Roma não é só museu, é galeria em constante construção e mutação, é interceção dos planos eclesiais, artísticos, patrimoniais, urbanos, numa teia sempre inacabada.

Roma não é só museu, é galeria em constante construção e mutação, é interceção dos planos eclesiais, artísticos, patrimoniais, urbanos, numa teia sempre inacabada.

Mas, na verdade, a Roma que trago no coração não é a das praças, a dos monumentos milenares ou dos papas. Não é a Roma de Raffaello e Caravaggio, Bernini e Borromini. Não é a Roma das cúrias gerais e das igrejas monumentais, dos padres e das freiras, dos bispos e dos paramentos. Não é a Roma dos bares de Trastevere ou dos cinemas de Testaccio. Não é a Roma do Estádio Olímpico e do Foro Itálico. Nem sequer é a Roma de Pedro ou Inácio de Loyola.

A Roma que eu trago é uma Roma escondida, que tive a graça de conhecer por dentro. É a Roma que acontece, por exemplo, nas traseiras de uma comum igreja paroquial, dos Santos Fabiano e Venâncio, onde fui enviado com dois companheiros jesuítas a servir como acólito, catequista e animador. Ainda no centro, mas já devidamente afastada dos polos turísticos, esta paróquia, animada pelo carisma neocatecumenal, foi uma porta de entrada privilegiada para a vida real das famílias romanas. Marcou-me desde logo o número de crianças na igreja ao domingo e a alegria com que cantavam o Glória e o Santo. Foram algumas dessas mesmas crianças – que pude acompanhar num percurso de fé inesquecível entre a Primeira Comunhão e o Crisma – as principais mestras do meu italiano: tinham a arte de corrigir carinhosamente as minhas calinadas nos femininos e nos plurais, tantas vezes irregulares.

Ao mesmo tempo que estas atividades progrediam, fui-me apercebendo de um gesto da Liturgia daquela comunidade simples, mas muito significativo. No ofertório, além do pão e do vinho, eram entregues pelas próprias crianças bens alimentares que ficavam depositados em grandes cestos aos pés do altar. Também eles eram incensados com o mesmo fervor do que os outros dons.

Meses mais tarde, a comunidade ficou abalada pela notícia da morte prematura do diácono permanente da paróquia, Danilo, na véspera do casamento da filha mais velha. Não o conhecia bem, apenas sabia que era ele quem proclamava o Evangelho ao domingo. Qual não foi o meu espanto quando, na missa do seu funeral, pesada pelo pranto partilhado, além de uma grande parte do clero de Roma, estavam presentes paroquianos que nunca tinha visto naquela igreja: os pobres. O peditório da missa do funeral foi totalmente consignado ao serviço Cáritas da paróquia, serviço cuja existência eu desconhecia. Pelos vistos, Danilo ocupava-se de coordenar, discretamente, um centro de distribuição de alimentos e de escuta que na pandemia salvou a vida a centenas de famílias e continua a prestar auxílio a pessoas em situação de sem-abrigo, migração mais ou menos forçada e pobreza de diversas magnitudes. Instintivamente, quis juntar-me àquele projeto, como modo de homenagear a vida e a obra escondidas de Danilo. Depois de dialogar com o meu Superior e com a viúva do diácono, que herdou a gestão do Centro, ainda pude contribuir durante um ano naquele serviço, tão escondido, mas tão necessário.

A equipa era constituída por voluntários da paróquia e dividida em dois setores: quem distribuía os cabazes semanalmente aos utentes regulares, sendo que alguns dos servidores eram antigos ou atuais utentes; e quem fazia parte do serviço de escuta. Este era constituído por paroquianos que punham a sua formação e profissão ao serviço das necessidades dos utentes: psicólogos para atender aos mais desesperados, médicos para algum cuidado de saúde mais direto, advogados para ajudar nos processos de regularização de papéis. Juntamente com um dos padres da paróquia, tinha a função de acolher e dialogar com as pessoas nos entretantos dos trâmites burocráticos, além de fazer fotocópias ou fazer traduções de última hora.

Era absolutamente terapêutico para mim tirar duas horas da minha semana, a cada quarta-feira, e deixar que as minhas noites – mais reais ou piegas – fossem iluminadas pela dignidade da vida daquela gente. Vidas sofridas, mas que não deixavam de sorrir. Tal como Cristo: quanto mais sofredor na Paixão, mais resplandecente – nas suas feridas – na Ressurreição. Por alguma razão, os pobres são os preferidos de Deus.

Tal como Cristo: quanto mais sofredor na Paixão, mais resplandecente – nas suas feridas – na Ressurreição. Por alguma razão, os pobres são os preferidos de Deus.

Jamais esquecerei o banho de realidade que experimentei diante de uma grávida indiana de oito meses, desesperada por arranjar casa para acolher o filho que vinha a caminho; ou diante de um homem peruano, que insaciavelmente lutava para tentar encontrar em Itália o único tratamento para a doença fatal que afligia a sua irmã; ou diante de um senhor idoso, sem rendimentos para pagar um lar, porque os filhos não conseguiam – ou não queriam – cuidar mais dela.

Eu que fui para servir, vinha sempre servido pelo “santo povo fiel de Deus”.
Nas vésperas da minha partida de Roma, encontrava-me a preparar o meu exame oral final de Filosofia, que incidia sobre os quatro anos de estudos. Deparei-me com um dilema, naquele contexto, difícil de resolver: com o exame na quinta-feira de manhã, e porque “há sempre mais qualquer coisa para preparar melhor antes do exame”, devia ou não ir à última quarta-feira de Cáritas na Paróquia?

Deixei o coração falar mais alto do que a razão, não temerariamente, mas fiando-me nas tão pascalianas “razões do coração”: “Daqui a 20 anos, vou lembrar-me da despedida dos meus amigos de Roma ou de duas horas extra de estudo para um exame?”.

Levei para a minha despedida – para os utentes e voluntários, era só uma tarde normal – uma imagem do Cristo do Sorriso, símbolo do mistério da vida daquelas pessoas: uma dignidade infinita, que resplandece em forma de um sorriso que brota desde dentro das feridas. Rezamos juntos, como sempre. Orações mais balbuciadas do que inspiradas, diante da grandiosidade das vidas que tinha diante dos olhos.

Pedi que registássemos aquele momento com uma fotografia: os sorrisos demonstram bem a tal dignidade que naquela hora me fez bem assinalar a alta voz. Sorrisos que mostram um momento especial para mim e para eles, como uma festa de gala, a verdadeira graduação, antes da hora. Tais mestres da escola da vida, aquela que se tece nas ruas, ao sol e ao frio, profetizaram com tenacidade: “Amanhã é garantido que superarás o exame”. Acertaram.

Ciente de que fiz a escolha certa, ao regressar à comunidade ainda naquela noite, contei ao meu Superior o sucedido, como quem chega a casa e conta à família as novidades do dia. Estava de consciência tranquila, mas não esperava aquela reação vinda do responsável pela minha missão de concluir os estudos de Filosofia, particularmente comovida e comovente: “O que fizeste hoje vale mais do que mil exames finais”.

Estou convencido que o valor daquele dia, daquele ano, daquela cidade, não reside em qualquer ação filantrópica ou apostólica. O valor daquela cidade está escondido nas vidas feridas daqueles meus amigos, e resplandece – tímido, mas glorioso – naqueles sorrisos cheios de eternidade.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.