Brinquedos que falam quando ninguém os vê
Confesso uma fraqueza que partilho com qualquer pai de uma criança pequena, que ele próprio cresceu com o Woody e o Buzz: vi mais vezes do que gostaria de admitir os filmes do Toy Story e, à força de os rever, fui-me convencendo de que aquela história de brinquedos que ganham vida quando ninguém os observa é, afinal, uma excelente metáfora para a política contemporânea, onde também as figuras parecem só verdadeiramente mexer-se quando julgam que o tabuleiro adormeceu. No centro de tudo está um menino chamado Andy, dono de um cowboy de pano e de um astronauta de plástico, que escreve o seu nome, com caneta de tinta permanente, por baixo da bota de cada brinquedo, marcando-os como seus, dando-lhes identidade, missão e um lugar no mundo. E é por uma curiosa coincidência onomástica que me parece quase impossível não pensar nesse Andy ao olhar para o outro Andy, o deputado Andrew Murray Burnham, que, esta segunda-feira, num museu de Manchester, fez o discurso com que se prepara para se tornar o sétimo primeiro-ministro do Reino Unido numa única década.
Um “King of the North” sem reino certo
Apelidado pela imprensa de “King of the North” – e trazendo, ele próprio, a abelha-operária de Manchester tatuada no braço, como quem manda gravar a tinta permanente a quem pertence –, Burnham regressou a Westminster há escassas semanas, depois de quase uma década de autópole no norte, vencendo uma eleição intercalar, recebendo a bênção de quase todos os rivais que recuaram um a um, e tornando-se candidato único a um trono que Keir Starmer, exausto e impopular, deixou cair. É dos raros políticos europeus com sondagens de simpatia positivas, e talvez seja exatamente por isso que se tornou aquilo que de mais perigoso um político pode ser – uma tela em branco onde cada facção se apressa a escrever o seu próprio nome, esperando que Andy a reconheça como sua.
O Woody e o Buzz de uma mesma cabeça
Porque o problema de Burnham, como o de qualquer Andy, é ter brinquedos a mais e braços a menos. De um lado está o Woody, o brinquedo antigo, leal, de pano e coração à esquerda: o homem que disse, há um ano, que o país tinha de “deixar de viver refém dos mercados obrigacionistas”, que quer nacionalizar a Thames Water, pôr a água, a energia e os transportes sob “controlo público mais forte”, e que batiza a sua doutrina de “Manchesterismo”, esse socialismo amigável para com as empresas que promete enterrar o neoliberalismo dos anos oitenta. Do outro lado está o Buzz, o brinquedo novo, reluzente, convencido de que é mesmo um astronauta e não um boneco sujeito às leis da gravidade fiscal: o candidato que, mal a corrida aqueceu, veio garantir que afinal “nunca disse que se podia ignorar os mercados”, que mantém as regras orçamentais de Starmer, e que manda os seus emissários sossegar os gestores de obrigações de que a sua chegada não provocará “qualquer colapso financeiro”. Seis em cada dez gestores de fundos, recorde-se, apontaram-no como o candidato capaz de gerar a pior reação dos mercados; e Andy, como o menino do filme, anda a aprender a escrever o seu nome ao direito, depois de o ter escrito, durante anos, com o “n” ao contrário das ortodoxias de Westminster.
A Inglaterra a duas velocidades, do mapa das Rosas ao gilt market
Há nisto, claro, mais do que biografia: há Geografia, e há História. A Inglaterra que Burnham promete “rebalancear” é a mesma que, há cinco séculos e meio, se dilacerou entre a rosa branca de York e a rosa vermelha de Lançastre, num norte que sempre desconfiou que o poder, o dinheiro e a corte moravam longe de mais, demasiado a sul, demasiado dentro de uma bolha. Foi em Manchester, não por acaso, que a cavalaria carregou sobre a multidão em Peterloo, em 1819, e foi também de Manchester que saíram, no século XIX, tanto o livre-cambismo dos industriais como o primeiro grande grito operário contra eles – de modo que chamar “Manchesterismo” a uma doutrina é, ironicamente, invocar ao mesmo tempo o santo e o demónio do capitalismo. Burnham quer instalar um “No. 10 North”, uma segunda Downing Street no norte, como quem reparte o brinquedo a meio para que ninguém fique sem ele; mas o gilt market, esse Sid implacável da casa ao lado, aquele rapaz que desmontava os brinquedos para ver do que eram feitos, não quer saber de identidades regionais nem de abelhas tatuadas – quer saber quem vai ser o ministro das Finanças e quando será o próximo orçamento, e ao primeiro sinal de gastos a mais arranca uma perna ou rasga uma costura da libra.
“You’ve got a friend” – mas qual deles?
E aqui regressa, inevitavelmente, a velha canção do filme, aquele “You’ve Got a Friend in Me” que toca sempre que alguém precisa de decidir a quem pertence. Porque um primeiro-ministro, como um brinquedo, não se define pelo que tem nas mãos – o leme, o botão, o orçamento – mas por aquilo que tem escrito na sola: o nome de quem o reclama. O drama de Burnham é que tem vários nomes rabiscados na bota ao mesmo tempo, o da esquerda sindical que o quer redistribuidor e nacionalizador, o do centro pragmático que o quer prudente e tranquilizador dos mercados, o do norte que o quer vingador de décadas de abandono, o da City que o quer inofensivo, e ainda o de um eleitorado que, fartando-se de sete primeiros-ministros numa década, apenas o quer durável. Cada um julga que a tinta é permanente e que só lá está escrito o seu nome; nenhum reparou que Andy, no fundo, está a crescer, e que os meninos que crescem acabam, mais cedo ou mais tarde, por doar a caixa inteira dos brinquedos a uma Bonnie qualquer que talvez nunca os ame como o primeiro dono os amou.
A bota, o nome e a coragem de o assumir
Termino como começo, entre filmes vistos vezes de mais e histórias que se repetem porque insistimos em não as aprender. Há uma cena, no segundo filme, em que limpam o nome de Andy da bota de Woody e o brinquedo, sem aquela assinatura, perde-se de si próprio e quase deixa de querer voltar para casa. É esse o risco do nosso deputado Andy: que, de tanto consentir que todos lhe escrevam por baixo da bota o nome que mais lhes convém, acabe por não conseguir ler o seu próprio. A coragem que se espera de quem governa – e é sempre uma coragem mais discreta e mais difícil do que a dos discursos – não é a de agradar a todos os brinquedos do baú, mas a de escolher, à luz do dia e com tinta que não se apague, a quem verdadeiramente se pertence: à cidade ou ao mercado, ao norte ou ao centro, à prudência ou à esperança, e, em última instância, à gente concreta que vive nas casas que faltam construir. Que Andy Burnham tenha o juízo de descobrir, debaixo da própria bota, não o nome que os outros lhe rabiscaram, mas aquele com que poderá olhar-se ao espelho – porque, como o filme tantas vezes nos lembra, só vale a pena ser brinquedo se for para ser, de facto, brincado; e só vale a pena ser primeiro-ministro se for, de facto, para servir.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
