Os Padres do Deserto: a 'cela' como escola interior - Ponto SJ

Os Padres do Deserto: a ‘cela’ como escola interior

«Atelier de Quaresma – a arte da contemplação» propõe o regresso a uma sabedoria antiga, a sabedoria do silêncio, como antídoto para a divisão que a dispersão cria em nós. Neste terceiro texto são-nos apresentados os Padres do Deserto.

Ouça o artigo em audio, pela voz do P. Marco Cunha, sj.

 

Quando falamos de meditação cristã ou contemplação, não estamos a referir-nos a uma moda recente nem de uma simples adaptação moderna a hábitos espirituais oriundos de outras tradições religiosas. Falamos de uma tradição antiga, exigente e profundamente humana, que encontrou no deserto um lugar de grande fertilidade; um lugar privilegiado de aprendizagem e florescimento da vida espiritual. Os Padres e Madres do Deserto são uma das fontes mais ricas e fecundas da espiritualidade cristã, precisamente porque levaram até às últimas consequências o desejo de escutar Deus no silêncio do coração.

No século IV, milhares de homens e mulheres deixaram as cidades onde viviam e todas as suas seguranças para mergulharem no deserto do Egipto, da Palestina ou da Síria. Não fugiam do mundo por desprezo, mas por sede. Sede de verdade. Sede de unidade interior. Sede de Deus. O silêncio tornou-se, para eles, um mestre e o deserto o lugar onde tudo o que é acessório cai e só o essencial permanece.

Abba Arsénio, um homem nobre e culto que tinha sido tutor dos filhos do imperador Teodósio I e que por isso viveu 11 anos na corte imperial de Constantinopla rodeado de luxos, um dia faz esta oração: “Senhor, guia-me de modo que eu seja salvo”. E ouviu uma voz que lhe disse: “Arsénio, foge dos homens e serás salvo”. Refugiou-se, então, no deserto do Egipto, no Vale dos Acetas (Scetes), zona também conhecida como o Deserto da Nitria (Uádi Natrum, vale do Natrão). No deserto, estando em oração, escutava a voz de Deus que lhe dizia:

Arsénio, foge, cala e pacifica, e serás salvo.

Esta frase resume o caminho da Hesíquia, a paz interior. Este caminho propõe fugir do ruído que dispersa, calar as palavras inúteis, pacificar o coração agitado para poder escutar o Espírito: sem moralismos, mas como uma pedagogia espiritual que move o orante à escuta: o silêncio não é fim em si mesmo, é caminho para a comunhão. A meta não é o vazio, não sentir ou não pensar: é mergulhar n’Aquele que nos habita.

“Não te movas depressa”. A vida espiritual não se apressa.

Outro grande nome do deserto é Abba António (conhecido em Portugal com o nome de Santo Antão ou Santo António Abade), considerado o pai da vida monástica. A sua escolha radical do silêncio e da solidão tornou-se fecunda para toda a Igreja. A vida monástica e consagrada nasce deste movimento que acolheu algo essencial: sem silêncio exterior não há silêncio interior. Ainda mais: a relação com Deus, sem o silêncio, torna-se superficial. Numa ocasião um irmão pede uma palavra a Abba António e ele responde:

Escuta o que te ordeno: onde quer que vás, tem sempre Deus diante dos teus olhos; e seja o que fizeres, tem em mente o testemunho das sagradas Escrituras; e seja onde for que te encontres, não te movas depressa. Guarda estas três coisas, e serás salvo.

Não te movas depressa” noutros lugares aparece “caminha devagar”. A vida espiritual não se apressa. A graça tem o seu tempo. O coração precisa de espaço para amadurecer. O silêncio não é só a ausência de ruido: o corpo precisa do seu silêncio.

Abba Poemen, conhecido pela sua sabedoria simples, diz um dia a um irmão que lhe perguntava se era melhor falar ou calar:

Quem fala por amor de Deus faz bem; e quem cala por amor de Deus, também.”

Este apoftegma (palavra grega que designa uma “sentença” ou uma frase de alguém) reforça que não é o silêncio o fim em si, mas que este está ao serviço d’Aquele que nos reúne no seu amor.

A nossa maior batalha não é exterior, mas interior. É a batalha contra a dispersão.

Há muitas palavras como estas que atravessaram os séculos até nós, mas há uma que continua a ressoar com força especial. Um irmão foi a Scetes procurar Abba Moisés e pediu-lhe um conselho. O ancião respondeu:

Vai, senta-te na tua cela e a tua cela te ensinará tudo.”

Esta frase tornou-se uma espécie de síntese do caminho contemplativo. A cela é, em primeiro lugar, o refúgio físico onde o monge permanece em oração, mas não é apenas um lugar físico: é o quarto interior, o coração, o castelo interior. Acima de tudo não é fuga; é regresso a casa. É o lugar onde deixo de lado as distrações, e começo a escutar o que realmente se passa em mim. É lugar de deserto onde me encontro a sós comigo mesmo e me descubro habitado e profundamente amado.

Isaac de Nínive exprimia-o de forma muito clara:

Se amas a verdade, sê amante do silêncio… o silêncio te unirá a Deus.”

E Madre Teresa de Calcutá, muitos séculos depois, retomava a mesma intuição ao dizer que o fruto do silêncio é a oração[1] . O silêncio, insisto, não é vazio estéril; é espaço habitado. Há um princípio antropológico que subjaz, nem sempre explicitamente, a toda a espiritualidade do Deserto: o Ser Humano, o homem e a mulher, cada um de nós é habitado pelo Espírito Santo. Ele é o mais íntimo da nossa intimidade, o mais profundo do nosso ser sem tirar nada da nossa liberdade. Quantas vezes procuramos fora Aquele que está dentro.

Os Padres do Deserto compreenderam isto e passaram uma sabedoria que continua a ser extremamente atual: a nossa maior batalha não é exterior, mas interior. É a batalha contra a dispersão. Vivemos puxados em muitas direções, ocupados, muito informados, totalmente estimulados — e, no entanto, pouco unificados.

Sentar-se na “cela” não é passividade preguiçosa; é coragem espiritual.

A história do peixinho que procura o oceano ilustra bem esta condição humana: um peixinho, um dia, pergunta a um peixe velho e sábio: “onde fica o oceano?”. O peixe sábio diz-lhe: “peixinho, o oceano é isto onde estamos” ao que ele responde: “mas isto é só água”. E foi à procura de outro peixe sábio. Muitas vezes procuramos mestres, respostas, técnicas fora de nós, quando o essencial pede apenas que paremos, façamos silêncio, e abramos os olhos do coração.

Blaise Pascal, séculos depois dos Padres do Deserto, formulou o mesmo diagnóstico com notável lucidez:

Toda a infelicidade da humanidade pode ser atribuída a uma única causa: a incapacidade de permanecer em repouso numa sala.”

A cela é precisamente esse lugar de repouso interior. E ela não se limita a um mosteiro ou convento. A cela pode ser o trabalho, a família, uma doença inesperada, uma reconciliação difícil, um tempo de espera, o carro, o metro. Onde estou verdadeiramente, aí sou chamado a ser e permanecer.

Sentar-se na cela não é passividade preguiçosa; é coragem espiritual. É exigente. Exige mais do que as fugas para fora. Exige ficar. Escutar. Permanecer. Não se deixar distrair com as solicitações exteriores. É aqui que o silêncio começa a ensinar. Não com teorias, mas com verdade e amor.

 

[1] O fruto do silêncio é a oração. O fruto da oração é a fé. O fruto da fé é o amor. O fruto do amor é o serviço. O fruto do serviço é a paz. – Santa Teresa de Calcutá


Neste artigo vimos como os Padres do Deserto nos recordam algo essencial: a contemplação não começa por técnicas, mas por fidelidade ao lugar onde estamos. A cela é a escola interior onde o coração se unifica e aprende, pouco a pouco, a repousar em Deus.

Na próxima semana continuamos a nossa reflexão com um convite à entrega não só do nosso tempo ao Senhor, mas também do corpo e da mente.

Leia os outros artigos deste Atelier de Quaresma:

O sabor de Deus – Ponto SJ

Jesus, o Contemplador – Ponto SJ

As três entregas: corpo, tempo e mente – Ponto SJ

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.