Ouça o artigo em audio, pela voz do P. Marco Cunha, sj.
Depois de termos olhado para o caminho da contemplação através da vida de Jesus e da sabedoria dos Padres do Deserto, a pergunta torna-se incontornável:
– “E eu? Será que na minha vida posso ser contemplativo na ação? Contemplativo na vida real? E como começar?”
Será possível que esta antiga tradição espiritual se possa traduzir numa prática concreta para a vida real, marcada pelo trabalho, a família, as muitas responsabilidades e solicitações, os cansaços, correrias e dispersões e tantas outras coisas vida de cada dia?
A questão não é teórica. É existencial. Encontro muitas vezes pessoas que exprimem um desejo real de silêncio e intimidade que não sabem como seguir. Este é um desejo profundo de intimidade com o Espírito, uma sede que ainda não encontrou a água que a satisfaça, mas, ainda assim, olhando para a prática da meditação cristã, suspiram e dizem:“ahhhh, isto é muito bonito, mas não é para mim”, “a minha cabeça não pára quando tento ficar em silêncio”. Ou então simplesmente: “não sei rezar”.
Convém dizê-lo com clareza: estas resistências não são sinal de incapacidade espiritual nem são impedimento para a meditação. São sinal de humanidade. A contemplação não começa quando estamos prontos; começa quando aceitamos começar: imperfeitos como somos, cansados como estamos, distraídos, agitados e até cheios de pensamentos que não nos querem largar.
A tradição do deserto responde a estas inquietações com uma sabedoria de simplicidade desarmante:
“Vai, senta-te na tua cela e a tua cela te ensinará tudo.”
Esta simplicidade não é ingenuidade; é sabedoria amadurecida pelo tempo e pelo amor. Traduzindo-a para a nossa vida podemos entendê-la como três entregas fundamentais que abrem o caminho da meditação cristã: a entrega do tempo, a entrega do corpo e a entrega da mente. Atenção: não são passos mágicos nem receitas infalíveis. São disposições interiores que educam o coração.
A primeira entrega é a do tempo. A intimidade precisa de tempo. Oferece-se tempo como se oferece presença a alguém que se ama. Quinze ou vinte minutos diários em silêncio podem parecer insignificantes, mas são profundamente estruturantes. O tempo não é para ser espremido nem rentabilizado; é para ser habitado. A contemplação ensina-nos a sair da lógica da eficiência e leva-nos para lógica do amor e este transforma o coração.
Quantas vezes dizemos: “não tenho tempo para rezar”. Mas, mais do que falta de tempo uma hierarquia interior confusa ou, sobretudo, a dispersão e a ansiedade impedem a entrega do tempo. Um jovem jesuíta português disse, uma vez, a Pedro Arrupe que a vida pastoral era tão exigente que não sobrava tempo para a oração. Arrupe respondeu com uma simplicidade desarmante:
“Temos sempre tempo para aquilo que consideramos mais importante.”
Entregar o tempo é uma decisão espiritual profunda. É dizer: este tempo não é para resolver problemas, nem para compreender Deus, nem para me melhorar. É para estar com o meu Senhor. Sem objetivos. Sem agenda. Sem utilidade. Sem outra meta que não seja estar com o Amado. Não há nada para conquistar. Como um amigo está com o seu amigo.
Prevejo a crítica:
– “E quem está sobrecarregado pela vida? como faz uma mãe de filhos pequenos a parar uma hora em silêncio? Não pode contemplar!”
Claro que pode. A atitude contemplativa não está reservada a horários ideais. Não poderá essa mãe contemplar o Espírito enquanto lava o seu filho? Ou lhe muda as fraldas? Enquanto o embala ou enquanto olha para ele a dormir? Claro que esta mãe não pode parar uma hora por dia, mas pode entregar o seu tempo ao seu Senhor. Todos o podemos fazer.
A segunda é a entrega do corpo. Muitas vezes, nós ocidentais, pensamos a oração como um exercício reflexivo, quase exclusivamente mental. Falamos, refletimos, analisamos e pensamos nas coisas de Deus — e esquecemos que somos corpo. No entanto, o corpo não só não é um obstáculo à contemplação, mas sua condição de possibilidade: a oração é relação e não há relação sem corpo. A contemplação é sempre relação com Alguém. Não rezamos apesar do corpo, mas em corpo. O corpo não é um adorno ou uma coisa que tenho: eu também sou corpo. Corpo, Alma e Espírito.
“Vai, senta-te na tua cela”. Este apoftegma começa literalmente pelo corpo: senta-te. Sentar-se com dignidade e suavidade. Pés firmes no chão, mãos repousadas, ombros soltos e relaxados. Esta postura simples diz algo ao coração: agora não corro, não produzo, não desempenho. Agora sou. Permaneço.
A respiração torna-se assim oração elementar: inspirar acolhendo o dom; expirar como quem se entrega. Este gesto simples e constante ajuda-nos a descer do nível do fazer para o nível do ser. Franz Jalics, sj, insistia muito na atitude de permanecer na percepção, simplesmente consciente do corpo e da respiração, sem pensar sobre o corpo, mas ficar na presença do Espírito. Sem mais. Tal como uma mãe que contempla o seu filho recém-nascido — não precisa de dizer nada, corrigir nada, melhorar nada; basta estar presente.
A atenção ao corpo e à respiração amarra-nos ao presente, ao aqui e agora, habitados pelo Espírito Santo. Para Ele só existe presente.
Quando o corpo abranda, é frequente que se revelem inquietações e pensamentos, emoções e memórias. É normal que apareçam resistências. Isto não é fracasso espiritual; é verdade espiritual. A contemplação não começa quando tudo está pacificado. Começa quando deixamos de fugir à vida que nos habita e permanecemos presentes a quem somos. Sem julgar e sem moralizar.
Se isto parecer demasiado estranho, temos, na nossa tradição latina, um tipo de oração onde o orante se coloca em oração, em silêncio e imóvel. Uma oração em que as palavras acabam por sobrar: a Adoração do Santíssimo – esta pode ser uma forma extraordinária de contemplação.
A terceira entrega é a da mente, talvez a mais delicada de todas. Não se trata de ficar com a mente em branco nem de simplesmente eliminar os pensamentos. A mente pensa; é a sua natureza. O problema não são os pensamentos nem as distrações, mas a irritação diante delas. Muitas vezes queremos uma contemplação perfeita, uma performance espiritual irrepreensível e como esta não é possível, ficamos frustrados. A contemplação formalmente perfeita não existe: o que existe é a uma relação de amor, um mergulho no Espírito, onde entramos integralmente, com tudo o que somos, imperfeições e perfeições; coragens e cobardias; vitórias e derrotas.
Entregar a mente é aprender a não lutar com os pensamentos. Quando surgem é preciso dar-lhes permissão para existirem, reconhecer a sua presença, e regressar, com a suavidade possível, à simplicidade do silêncio. Às vezes caímos em verdadeiros carroceis de pensamentos em que cada pensamento puxa pelo seguinte. Não há nenhum problema. O importante é regressar suavemente ao silêncio e à respiração. Aqui ajuda muito uma palavra breve, uma jaculatória, como faziam os Padres e as Madres do Deserto que repetiam:
“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem compaixão de mim.”
Com o passar do tempo, à medida que esta oração se torna parte integrante do orante, à medida que a respiração e jaculatória se vão unificando até serem a mesma coisa, a frase vai-se encurtando e simplificando até ficar apenas o nome: “Jesus”. Esta repetição não é mecânica nem mágica; é mergulho no Espírito. Aquilo que repetimos cria um ambiente interior. As palavras que habitam a nossa mente moldam o nosso coração.
A meditação cristã não procura uma mente vazia, mas um coração disponível. Não exige concentração perfeita, mas confiança perseverante. Não pede heroísmo espiritual, mas humildade e paciência. A imperfeição entregue vale muito mais do que a perfeição controlada.
Estas três entregas — corpo, tempo e mente — não produzem resultados imediatos nem experiências extraordinárias. Produzem algo discreto, pequenino e aparentemente insignificante: unidade e paz interior. Pouco a pouco, o coração torna-se menos reativo, mais pacificado e mais atento à realidade que habita.
Começar a contemplar não é complicado, mas é exigente. Exige presença, fidelidade, confiança e paciência. Sentar-se. Dar tempo. Regressar sempre à simplicidade da respiração e da Presença. É assim, lentamente e sem espetáculo, que a cela começa a ensinar.
Na próxima semana regressaremos a alguns destes temas sublinhando a centralidade do silêncio na nossa vida.
Leia os outros artigos deste Atelier de Quaresma:
Jesus, o Contemplador – Ponto SJ
Os Padres do Deserto: a ‘cela’ como escola interior – Ponto SJ
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
