O verão, na nossa cultura lusitana, é sinónimo de férias e de um tempo de descanso. Mesmo na vida adulta, o ritmo social continua fortemente influenciado pelo calendário escolar, estando os meses de julho e agosto associados a um período de pausa, descanso e mudança de rotina. É um tempo de descompressão da azáfama dos meses anteriores, que nos prepara para um novo recomeço em setembro.
Também a vida eclesial acompanha este ritmo da sociedade. Nas nossas paróquias sente-se claramente este tempo de verão, com a paragem da catequese, com a diminuição das atividades pastorais durante a semana, com o período de férias do pároco e com algumas atividades mais dedicadas ao lazer.
Contudo, esta mudança torna-se igualmente visível nas nossas assembleias celebrativas e na celebração dos sacramentos. Por um lado, sentimos a ausência das pessoas que, semanalmente, se juntam a nós na celebração dominical da nossa fé; por outro, encontramos novas caras nas celebrações festivas do padroeiro, nos casamentos e batizados e festas de primeira comunhão, como se a vivência da fé estivesse reservada aos tempos de férias e festas. Esta realidade convida-nos a refletir sobre dois aspetos: primeiro, se a fé também tira férias; segundo, se a fé é um luxo exclusivo para determinados momentos.
Não é estranho ver pessoas, famílias e mesmo agentes pastorais que, numa espécie de «tempo para férias» desaparecem da comunidade nos meses de julho e agosto. Isto é, terminadas as atividades pastorais, parece terminar também a vivência do compromisso cristão; e, para muitas famílias, havendo uma pausa na catequese, cessa igualmente a obrigação de assistência à Eucaristia dominical.
Ora, a fé não tira férias, na medida em que Deus ama sem cessar e sem se cansar. A vivência da nossa fé não é um fardo; mas antes uma ida à fonte da água viva, um oásis no meio do deserto das preocupações quotidianas.
Ora, a fé não tira férias, na medida em que Deus ama sem cessar e sem se cansar. A vivência da nossa fé não é um fardo; mas antes uma ida à fonte da água viva, um oásis no meio do deserto das preocupações quotidianas. Somos, por isso, convidados a interrogar-nos: será que a minha fé é de setembro a junho? Será que em julho e agosto suspendo aquilo em que acredito? Se a vocação cristã é orientada para a eternidade, também o nosso compromisso com Cristo não admite interrupções nem tira férias, sendo perpétuo. Podem cessar as atividades pastorais; podemos até ausentar-nos da nossa comunidade habitual; mas não podemos nunca deixar de procurar viver a plenitude do nosso acreditar.
Esta consciência deve levar-nos a procurar formas de permanecer unidos a Cristo e à sua Igreja, convidando outros a essa mesma participação, na nossa responsabilidade de profetas desde o nosso batismo. Em primeiro lugar, dando testemunho: continuando a participar semanalmente na celebração comunitária; quando longe da nossa comunidade habitual, procurando, no lugar onde estamos, uma outra comunidade onde possamos professar a nossa fé; acolhendo, como irmãos, aqueles que, durante estes meses, se juntam à nossa comunidade.
Este tempo de mudança deve, acima de tudo, ser um revalorizar do nosso acreditar. Temos a oportunidade de vivenciar a verdadeira e bela catolicidade da Igreja, no sentimento de fraternidade que se vive ao ir a outra comunidade, noutro ponto do país ou mesmo em outros países, e perceber que se vive a mesma fé. Em vez de nos sentirmos estrangeiros, sentimo-nos em casa, mesmo distantes, sentimo-nos perto, porque celebramos a mesma fé, no mesmo Senhor, no mesmo amor universal, na mesma mensagem que ecoou por toda a terra.
Assim, o tempo de verão não é uma desculpa para interromper a vida espiritual. Pelo contrário, a pausa das atividades laborais e quotidianas pode ser um tempo para repensar a nossa relação com Deus; para um reaproximar, descobrindo novos meios de oração, dedicando mais tempo à relação com Ele; para fazer um retiro ou desintoxicação digital; ou, na simplicidade de quem vive a fé, continuar a louvá-Lo porque Ele é bom e o Seu amor permanece para sempre.
O verão, sinónimo também de festividades populares, de celebrações de casamentos e batizados, é também o momento em que muita gente, que habitualmente não tem a vivência da fé, volta à Igreja. Neste tempo, os agentes pastorais devem procurar ter uma postura de acolhimento, compromisso e testemunho. Acolhimento, no sentido de receber os irmãos que regressam, movidos pelas mais variadas razões, não à maneira do irmão mais velho da parábola do filho pródigo, mas à imagem do pai, que celebra o regresso do filho perdido. Compromisso, com o anúncio do Reino de Deus entre nós, a todos os que surgem, sem cessar, cumprindo a missão de São Paulo. Testemunho, fiel e digno, que é a melhor forma de evangelização, pois o contratestemunho é o que, em primeira linha, leva muita gente a afastar-se da Igreja.
O verão, sinónimo também de festividades populares, de celebrações de casamentos e batizados, é também o momento em que muita gente, que habitualmente não tem a vivência da fé, volta à Igreja.
Neste espírito de acolhimento, mais do que oferecer respostas, devemos, em conversas quotidianas e na simplicidade de quem fala das coisas belas da vida, levar as pessoas a interrogarem-se: «Não é bom vir à Igreja? Porque não vens sempre? Porque só vens aqui, e não vais onde moras?». Assumindo um Deus que se propõe e não impõe, somos levados a dar testemunho disto mesmo; na resposta à proposta que nos é feita de viver o amor em plenitude.
A vivência da fé não pode ser um assunto apenas para as férias ou para os momentos em que “há tempo”. É um compromisso diário, que nos conduz a viver a plenitude do plano de Deus para nós, antecipando já nesta terra a felicidade eterna para a qual fomos criados.
Acreditar exige de nós disponibilidade, desconforta-nos e é estranho ao mundo que nos rodeia. É um compromisso que acompanha toda a vida. Mas acreditar é, antes de tudo, uma resposta ao amor incondicional, eterno e imutável de Deus, um amor que alimenta e sustenta, que orienta e dá rumo à nossa vida. A fé não é um fardo, mas uma resposta livre Àquele que nos amou primeiro.
Deus não tira férias. Não se cansa de amar. Não suspende o Seu Amor e não deixa de nos procurar. E nós?
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
