A “geração sanduíche”, termo cunhado pela psicologia da família, refere-se à geração de pais que cuidam simultaneamente dos filhos (tipicamente, pré-adolescentes e adolescentes) e dos seus próprios pais, mais envelhecidos e menos autónomos. Assim, esta geração fica “ensanduichada” entre duas outras que pedem a sua dedicação.
A etapa de duplo papel, até há pouco tempo apontada como uma fase intermédia do ciclo de vida familiar, tem vindo a ser alvo de um olhar mais atento por parte da psicologia pelo risco que a sua evolução representa. A exigência das tarefas de cuidado que se somam caracterizam a fase sanduíche pelo seu potencial para o desenvolvimento de sofrimento psíquico.
Atualmente, com o contexto social vigente, este período tende a prolongar-se. Três dos principais motivos para esta extensão são: o aumento da esperança média de vida, que redunda em envelhecimentos mais prolongados e com uma carga de cuidados igualmente mais longa, o atraso na saída de casa e na independência dos jovens relativamente aos pais (financeira e logisticamente), e o facto de o primeiro filho surgir numa altura mais tardia, pelos 30 anos, que torna mais provável a sobreposição das fases mais agudas e duradouras de necessidade de cuidado de ambos os extremos geracionais (ie. coincidem épocas com crianças mais pequenas e pais mais idosos).
Viver “ensanduichado” durante anos de forma resiliente e produtiva pode tornar-se desafiante. O cansaço e falta de tempo aliados à vontade de cuidar da melhor forma são autores de listas de tarefas intermináveis e, muitas vezes, com um tom imperativo. “Tenho de ir buscar a Maria à natação”, “Tenho de ir à farmácia levantar uma receita”, “Tenho de encomendar decorações para os anos do Vasco cá em casa”. Facilmente isto resulta em dispersão mental e espiritual, semelhante à que Jesus aponta a Marta, no Evangelho segundo S. Lucas. As mãos até podem estar na tarefa que tem de se fazer. Mas onde andam a cabeça e o coração?
Considero que um período prolongado, como se tem visto cada vez mais ser a geração sanduíche, de constante desafio ao centro do “eu” da pessoa cuidadora possa estar associado ao desenvolvimento de psicopatologia nesta fase.
Considero que um período prolongado, como se tem visto cada vez mais ser a geração sanduíche, de constante desafio ao centro do “eu” da pessoa cuidadora possa estar associado ao desenvolvimento de psicopatologia nesta fase. De facto, a exigência de ver o “eu” fragmentado de forma persistente, levada ao extremo, pode resultar numa sensação de despersonalização (sintoma associado a burnout, ansiedade e depressão).
Para um católico, a unidade do “eu” assentará muito sobre a relação com Deus. O Centro. Neste sentido, o discernimento e a ideia inaciana do “tanto quanto” (no Princípio e Fundamento dos Exercícios Espirituais), poderão ser particularmente úteis. A quantidade de coisas para fazer, e de tarefas importantes e boas que podem ser realizadas são o pano de fundo ideal para empregar estas ferramentas. É necessário interrogar os “Tenho de”. Porquê? Esta pergunta não vem de ceticismo, mas da vontade de me alinhar com o meu Senhor e, por conseguinte, comigo. Alguém ir buscar a Maria à natação, levantar remédios da farmácia, e garantir que o Vasco tem uma festa bonita são tudo coisas boas e oportunidades de amar. Mas qual será a que mais me permite amar? Será que tentar fazer malabarismos com as três é compatível com fazê-lo centrado, com amor?
Adicionalmente, este exercício do discernimento poderá ser libertador do julgo da culpabilização ou da sensação de descontrolo sobre as tarefas, aumentando a perceção que tenho sobre a minha competência e controlo sobre aquilo que tenho em mãos. As coisas que escolho fazer, faço bem. As que não escolho fazer deixam de parecer estar a escapar, ou não ficarem feitas por culpa minha; estão a ser selecionadas e postas de lado de forma intencional. Estão a sair do caminho para que possa fazer o que é necessário da melhor forma. Estas são duas chaves que contribuem para robustecer a saúde mental.
Fazer parte da geração sanduíche é ser chamado a ser santo no quotidiano. É um dos grandes desafios da vocação para a família, e uma grande oportunidade de servir. É também uma fase que pode trazer muito sofrimento, e uma vontade de agarrar muitas cruzes com apenas dois braços cansados. Proponho que talvez a “santidade sanduíche” não venha da perfeição de cumprir de forma irrepreensível todas as potenciais tarefas, mas da capacidade de “escolher a melhor parte”, e de oferecer tudo o que é possível em cada coisa que se elege fazer. Agir de forma centrada é altamente protetor para a saúde mental, para a relação com Deus, e para o cuidado de outros (especialmente quando se tratam de pessoas vulneráveis). Esta geração pode ser bem acompanhada pelas palavras do P. Duarte Rosado sj quando canta “não queiras a perfeição/escolhe antes a bondade” (Fragilidade).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
