Ouça o artigo em audio, pela voz do P. Marco Cunha, sj.
Antes de avançarmos mais no significado da meditação cristã coloquemo-nos hoje diante da vida de Jesus Cristo. Para podermos compreender a contemplação, não precisamos de procurar técnicas especiais nem percorrer caminhos exóticos que nos sejam estrangeiros. Basta olhar com calma para a vida de Jesus. Antes de tudo, Jesus é um homem profundamente enraizado numa relação silenciosa com o Pai. É um homem de oração íntima com o Pai. Tudo n’Ele brota dessa intimidade. A Sua vida revela um ritmo espiritual claro, feito de escuta, retiro, presença e entrega. É nesse ritmo que a contemplação se aprende.
Ofereço agora uma leitura da vida de Jesus como um movimento em três grandes tempos: origem, caminho e entrega. Estes tempos não são meras etapas biográficas; são também dinâmicas interiores que estruturam a vida espiritual de qualquer discípulo.
Origem
O primeiro tempo é o da origem. No baptismo de Jesus, o céu abre-se e escuta-se uma voz:
“Tu és o meu Filho muito amado.”
Antes de se entregar à Sua missão do anúncio da Boa Notícia, Jesus escuta esta palavra que funda a Sua identidade. Ele não começa por fazer coisas; começa por acolher e reconhecer a Sua identidade. A contemplação começa aqui: deixar que esta voz seja escutada hoje, intimamente, e não como uma ideia teológica mais ou menos abstracta que os padres dizem nas homilias, mas como palavra viva dirigida pessoalmente a cada um, dirigida a ti, dirigida a mim:
“Tu és meu, tu és minha.”
Facilmente medimos o nosso valor pelo desempenho, pela produtividade, pela eficácia e pela visibilidade. Esta palavra dá-nos a pertença – somos filhos muito amados – que é profundamente libertadora. Insisto: a identidade não nasce do que fazemos, mas do amor que nos precede. Contemplar é aprender a permanecer neste lugar primordial onde somos amados antes de sermos úteis, reconhecidos ou bem-sucedidos.
Caminho
O segundo tempo que proponho é o do caminho. Ao longo do Evangelho, vemos Jesus retirar-Se frequentemente para lugares solitários onde fica sozinho em oração: o deserto, a montanha, a noite. Este Seu hábito de Se retirar não é uma fuga nem desprezo pelo mundo. São gestos de fidelidade à relação com o Pai. Jesus sabe parar. Sabe escutar. Reconhece que precisa de parar para se manter sintonizado com Aquele que o ama. E sabe regressar ao mundo.
A Sua vida é marcada por este ritmo vital: entrar no silêncio e regressar à acção; retirar-Se em solidão e voltar à multidão; rezar e depois anunciar o Reino; escutar e depois agir. A contemplação cristã aprende este ritmo essencial, este respirar que tem momentos de inspiração e de expiração, de acolhimento e de entrega. Não se trata de escolher entre contemplação e acção – esta é uma falsa contradição – mas de deixar que a acção nasça do silêncio e a ele regresse.
Quando este ritmo vital se perde, a vida espiritual pode tender a extremos: ou um mero activismo, em que fazemos imensa coisa por Deus ou fuga espiritualizada em que nos isolamos num individualismo indiferente à sorte do mundo. A contemplação educa-nos para esta respiração interior, onde o silêncio não isola, não fecha em si mesmo, mas torna-nos mais presentes a nós mesmos, aos outros e a Deus.
Entrega
O terceiro tempo é o da entrega. Getsémani. A cruz. O silêncio extremo. Aqui a contemplação atinge a sua forma mais exigente. Santo Inácio de Loiola, na terceira semana dos Exercícios Espirituais, dedicada à paixão do Senhor, convida-nos a contemplar “como a divindade se esconde”. E depois, na quarta semana, dedicada à ressurreição, fala da divindade que antes parecia esconder-se:
“Deus manifesta-Se ocultando-Se.”
Há alturas na vida em que a contemplação não é luminosa nem quentinha. É chamada a ser fidelidade nua que não anestesia o drama da vida; atravessa-o. Não explica o sofrimento; permanece nele com Deus. Contemplar, aqui, é aprender a não fugir quando não se vê, quando não se sente, quando tudo parece silêncio e abandono sem sentido.
Santa Teresa de Jesus podia dizer, com surpreendente simplicidade, que a Deus se encontra “até no meio dos tachos”. No trabalho e no descanso, no Inverno e na Primavera, nos dias luminosos e nos mais escuros. O escondimento de Deus não é ausência; é presença humilde, quotidiana, discreta. Deus não se retira da vida real; esconde-Se nela, mergulha no ordinário para que todos aqueles que O procuram O encontrem.
Meditação, oração e contemplação
Este ritmo de Jesus ajuda-nos também a compreender melhor três palavras que usamos frequentemente como sinónimos: meditação, oração e contemplação. Simplificando muito indico o que aqui entendo por cada palavra. A palavra meditação indica sobretudo a reflexão (que pode ser ou não ser orante). Podemos, por exemplo, ler uma passagem da Sagrada Escritura e procuramos tirar consequências para a nossa vida. Com a palavra oração estou a indicar a relação viva com Deus: esta é diálogo e escuta. A contemplação é permanência amorosa e silenciosa. Se na meditação colocamo-nos diante do Mistério, na contemplação mergulhamos nele, ficamos imersos no Mistério. (Noto ainda que aqui é usada a expressão “meditação cristã” e “contemplação” como praticamente sinónimos)
Na vida concreta, estes movimentos misturam-se e entrelaçam-se. Podemos ter momentos, até da mesma oração, que sejam mais contemplativos e outros mais meditativos, mas o que importa sublinhar é que o caminho de intimidade com o Pai não termina na reflexão sobre Deus. Vai mais fundo e abre-se a um silêncio habitado por Ele.
São Gregório de Nissa descreve este movimento de forma belíssima na «Vida de Moisés». Ele divide a nossa vida espiritual em três grandes momentos em paralelo com outros três grandes momentos na vida de Moisés que se seguem à saída do Egipto que simboliza a escravidão dos sentidos: o tempo de caminho no deserto, a subida ao monte Sinai e o cimo do monte Sinai.
No início da vida espiritual precisamos de grandes sinais que nos conduzam. Nesta fase da vida – que pode durar toda a vida – são muito importantes as manifestações públicas da fé, tal como o povo que atravessa o deserto precisou de grandes sinais que o conduzisse (colunas de fogo, a travessia do Mar Vermelho, o Maná que cai do céu, a serpente de bronze…). A um certo momento o caminho conduziu Moisés ao monte Sinai. A subida ao monte corresponde a uma fase mais meditativa da oração. Neste momento da vida espiritual, sentimos a necessidade de pensar sobre Deus e de saber coisas sobre Ele. Refletimos e fazemos esforço por compreender as coisas: estudamos teologia, lemos artigos e livros, vamos a conferências… Chegado ao cimo do monte, Moisés encontra-se dentro de uma nuvem. Diz São Gregório de Nissa que aqui Moisés já não pode dizer coisas sobre o que Deus é, mas apenas o que não é. E aqui chegamos ao momento contemplativo: entrar na “nuvem do não saber” e aceitar que não compreendemos tudo e consentimos que Deus esteja para lá das nossas categorias. As palavras já não servem. São insuficientes.
Quanto mais se mergulha intimamente no conhecimento de Deus, mais se percebe que sua natureza não é compreensível. Não pode ser compreendido. Precisa de ser acolhido.
Jesus é o grande contemplador porque vive sempre diante do Pai e não coloca entraves à ação do Espírito Santo. A vida d’Ele parte sempre da oração e regressa sempre à oração. Ao segui-Lo, aprendemos que o silêncio não afasta da ação, mas dá-lhe substância, dá-lhe uma raiz profunda no Mistério e na Origem. A contemplação não nos retira da vida; devolve-nos à Vida com um coração mais unificado, mais livre e mais disponível para amar e ser amado.
No próximo artigo vamos refletir sobre os Padres do Deserto e a sua determinante influência neste caminho da contemplação. Daremos mais um passo para mergulharmos na “meditação cristã” e na sua importância para a nossa vida.
Leia os outros artigos deste Atelier de Quaresma:
Os Padres do Deserto: a ‘cela’ como escola interior – Ponto SJ
As três entregas: corpo, tempo e mente – Ponto SJ
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
