Para um cristão, a solidariedade não é voluntária ou opcional. Não se pode ser cristão e não ser solidário. A solidariedade é um princípio basilar da doutrina social da Igreja. Mas não estamos aqui no domínio da ideologia. Trata-se simplesmente de ser discípulo de Jesus, de procurar fazer como Ele fez, de seguir o que Ele ensinou. “Vai e faz tu também o mesmo” (Lc 10, 37), disse Jesus depois de contar a parábola do bom samaritano. “Sempre que fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40), será a matéria avaliada no juízo final.
Vem isto a propósito das imagens chegadas de Ceuta que encheram as televisões e as redes sociais e dos comentários que correm acerca da suposta invasão da Europa em curso. Podemos discutir os complexos interesses em jogo da crise geopolítica que levou a estes eventos. Não posso entrar por essa via por dever de ofício. Bastaria talvez não querermos ficar pela superficialidade de muitos comentários e interrogar-nos sobre quais possam ser os atuais irritantes, como agora se diz, nas relações entre os dois países envolvidos, e mesmo mais além. Porém, o que como cristão tenho de clamar é pelo respeito da comum humanidade e da dignidade de filhos de Deus de quantos se lançaram a esta travessia, que foi em tantos casos mortífera.
O que como cristão tenho de clamar é pelo respeito da comum humanidade e da dignidade de filhos de Deus de quantos se lançaram a esta travessia, que foi em tantos casos mortífera.
De entre os que se lançaram à água rumo ao território de Ceuta talvez alguns o tenham feito de ânimo leve, por aventureirismo ou mero jogo de risco, ainda que pareça também que tenham sido nesta altura instrumentalizados para o fazer. Porém, as razões mais profundas que levam tantos a arriscar a vida em várias regiões do mundo, não só para chegar a Ceuta, são bem conhecidas: pobreza abjeta e miséria angustiante, falta de um futuro de esperança para si e para os próprios filhos, guerras e conflitos de toda a ordem, perseguições de índole política, religiosa, étnica ou outra, ausência de um Estado de Direito e de respeito pelos princípios democráticos, alastramento das consequências das alterações climáticas. “Ninguém põe os seus filhos num barco se a água não for mais segura do que a terra”, foi o título que dei a uma outra reflexão tempos atrás aqui no Ponto SJ.
Sabemos também que muitos destes movimentos migratórios estão associados a redes de tráfico de seres humanos. Não está claro qual o papel que o tráfico desempenhou na presente crise, embora se veja que há um misto de cidadãos marroquinos entre os que chegaram a Ceuta – e morreram no intuito de lá chegar – e de africanos subsaarianos que estariam no território marroquino há um certo tempo.
Nos últimos tempos, fui confrontado com relatos aterradores, em primeira pessoa, de quem foi vítima destas redes demoníacas do tráfico. Isso aconteceu, primeiro, em Tunis (Tunísia), ao escutar relatos de sobreviventes da travessia do deserto do Saara – travessia em que muitos dos amigos e companheiros de jornada sucumbiram. E, depois, em Abuja (Nigéria), ao escutar o testemunho de jovens traficadas para trabalho em condição de escravatura ou para exploração sexual.
Voltando ao que se tem estado a passar em Ceuta, importa salientar qual tem sido a voz da Igreja. Logo nas primeiras horas, a diocese de Cádis e Ceuta expressou profunda preocupação pela “especial vulnerabilidade de tantas pessoas que se veem afetadas por esta realidade” e dispôs-se a colaborar na resposta às suas necessidades. O Departamento de Migrações da Conferência Episcopal Espanhola, por seu lado, apelou a que as respostas a esta situação se façam “no respeito pela legislação em vigor, pela dignidade das pessoas e evitando a manipulação para fins partidários”.
Um comunicado particularmente incisivo foi emitido pelo Presidente da Comissão das Migrações da Conferência Episcopal Italiana e Arcebispo de Palermo. D. Conrado Lorefice considera que os acontecimentos a que assistimos resultam certamente de “uma armadilha dos mercadores da morte e um evento deliberadamente organizado e orquestrado”. Mas não se pode desvalorizar o significado deste evento: “É a demonstração evidente de um desejo de liberdade e de vida que nos chega do Sul do mundo e que não pode ser tratado apenas como um problema de segurança pública”. E pergunta-se: “Quantas pessoas morreram ao tentar atravessar o mar?”. As causas para que alguém se decida a deixar a própria terra são bem identificadas: “o enorme desequilíbrio mundial, a distribuição injusta da riqueza, o enfraquecimento das democracias em todo o planeta (e dos respetivos direitos sociais, civis e económicos), a crise climática”. Como um bispo africano me repete sem cessar: “Si la richesse ne va pas vers la pauvreté, la pauvreté ira vers la richesse”. Como aconteceu sempre. Como aconteceu também no passado com milhões e milhões de europeus que migraram para as Américas e para África em busca de melhores condições de vida.
D. Conrado alerta para o risco da “anestesia da consciência, que torna banal o mal”. E traça um sombrio diagnóstico da crise profunda dos valores e da civilização europeia que subjaz ao modo como a tragédia de Ceuta está a ser considerada pelos média e governos europeus: “Sem respeito, sem participação, sem dor, sem sentido de humanidade, sem explicação das razões profundas”. E ainda: “É aqui que reside o pecado original da Europa atual perante os migrantes: não querer admitir que se trata de um fenómeno mundial e irreversível, que deve ser enfrentado e gerido através da política e não pelos exércitos”.
Termino como comecei. Dizendo que, para um cristão, a solidariedade não é voluntária ou opcional. Não se pode ser cristão e não ser solidário. Trata-se simplesmente de ser discípulo de Jesus, de procurar fazer como Ele fez, de seguir o que Ele ensinou. Ou, nas palavras do Arcebispo Emérito de Tanger, D. Santiago Agrelo O.F.M.:
Essa humanidade em movimento, essas dezenas de milhares de pessoas manipuladas e exploradas, voltam a ser, para o crente, não um tema de análise política, ideológica ou partidária, mas sim um motivo de compaixão; essa multidão só pode ser alvo de misericórdia, tal como o são, para o crente cristão, todos os escravizados do nosso mundo — os escravos do álcool, das drogas, da tecnologia, do luxo, do poder…
Ao crente em Cristo, ao discípulo de Jesus, para se orientar num cenário que se presta a mil interpretações, resta-lhe sempre a luz do Evangelho, o amor do Filho de Deus pelos pobres, a paixão do Filho do Homem pelos escravos, pelas ovelhas sem pastor… pelos explorados, pelos manipulados, pelos oprimidos, pelos famintos…
Ao crente em Cristo resta sempre o mandamento: “Dai-lhes vós de comer”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
