O sabor de Deus - Ponto SJ

O sabor de Deus

«Atelier de Quaresma – a arte da contemplação» propõe o regresso a uma sabedoria antiga, a sabedoria do silêncio, como antídoto para a divisão que a dispersão cria em nós. Neste primeiro texto é-nos apresentado o 'sabor' de Deus.

Ouça o artigo em audio, pela voz do P. Marco Cunha, sj.

É curioso que, à pergunta “como estás?”, a resposta “estou cansado, com muita coisa para fazer”, seja tão frequente. Talvez estejamos saturados de ouvir que o nosso tempo está marcado pela aceleração e pela grande velocidade com que as coisas acontecem; mas pode, no entanto, haver aqui alguma verdade. Provavelmente até estamos sobrecarregados, “sobre-solicitados”, pelo trabalho e pelas inúmeras possibilidades, praticamente ilimitadas, que a vida nos oferece.

O grande problema pode ser a dispersão da atenção e a fragmentação do nosso tempo, seguidos de uma sensação persistente de falta de tempo. Surge uma inquietação difícil de nomear: fazemos muitas coisas, sabemos muitas coisas, ocupamo-nos de tudo, mas sentimos frequentemente que não temos tempo para nada. Há o risco de vivermos dispersos. Talvez estejamos sobrecarregados de informação e sem disponibilidade para parar e escutar o nosso mundo interior, por causa de uma espécie de fomo existencial (fear of missing out) que nos deixa inquietos.

Acredito que essa inquietação não é um defeito a corrigir, mas um alarme, um sinal de que algo essencial pede atenção. Esse “cansaço” – que parece ter dimensões civilizacionais – expressa-se, entre outras coisas, num desejo de abrandar. Quando o exterior se torna excessivo, o interior começa a reclamar espaço.

Quero apresentar aqui a contemplação (ou meditação cristã) como um caminho possível para responder a essa inquietação. Neste contexto, as palavras “contemplação” ou “meditação” teimam em reaparecer como um apelo silencioso. Não como resposta rápida, mas como convite a parar e descer mais fundo. A contemplação, tal como a quero apresentar aqui, não é mera técnica espiritual, nem simples método de relaxamento, nem estratégia de bem-estar. Não é instrumento para melhorar o desempenho nem meio para “funcionar melhor”.

O grande desafio está em saborear a presença de Deus.

A contemplação cristã é uma arte — a arte de viver a partir do interior, a arte do silêncio, a arte do ritmo lento, a arte de ser.

A tradição espiritual cristã não a apresenta como saber adquirido, mas como caminho em curso. Não se transmite apenas como teoria, mas como experiência. Podemos estudar a teoria, sim, mas aprende-se menos por explicação do que por prática e persistência. Não se domina; habita-se. Por isso, a contemplação pede tempo, fidelidade e humildade.

Santo Inácio de Loiola, logo no início dos Exercícios Espirituais, afirma que “não é o muito saber que satisfaz a alma, mas o saborear internamente” (EE 2).

Aqui está um grande desafio: saborear a presença de Deus. Ficar na presença do Senhor, crescer na intimidade do Amor que se dá por nós, sem nos perdermos em racionalizações especulativas. Aqui temos uma chave fundamental da vida espiritual. Podemos acumular conhecimentos sobre Deus, discursos corretos, ideias bem formuladas — e, ainda assim, permanecer à superfície da relação com Ele. A alma não se alimenta de conceitos, mas de presença. É o sabor – e não o saber – que sustém o coração humano.

Procurar Deus já é encontrá-Lo.

Não me parece ser acaso que muitos se aproximem hoje de práticas de meditação vindas de outras tradições religiosas, como o Zen ou o Mindfulness. Mais do que moda, essa busca revela uma sede real: sede de presença, de profundidade, de interioridade. Sede de uma vida com ritmo mais humano (e mais divino!). De onde vem essa sede, que nasce da nossa interioridade e que acusa o cansaço de viver sempre fora de si, agitado e disperso?

A contemplação cristã responde a essa sede de modo próprio. Não afasta da vida, mas ensina a habitá-la de outro modo. Não propõe fuga do mundo, mas reconciliação interior com ele. Não convida à evasão, mas ao enraizamento.

Uma história: um dia Jael, neto do rabino Baruc, brincava às escondidas com um amigo. Escondeu-se e esperou que o amigo o encontrasse. Como este demorava muito, acabou por desistir e abandonar o esconderijo; percebeu então que o amigo nunca o tinha ido procurar. A chorar, foi ter com o avô Baruc, que, profundamente comovido, disse: “Assim diz o Senhor: Eu escondo-me, e ninguém vem à minha procura.”

Pode a sede de mais, a sede de interioridade, ser uma sede de Deus? Do Deus que Se esconde para que o possamos encontrar? Esta pequena narrativa toca algo essencial da experiência espiritual. Deus é apresentado como alguém que espera ser procurado. O Seu escondimento não é ausência, mas convite. Não é um jogo cínico, mas pedagogia do amor. Deus não se impõe; propõe-Se. O Amor não se impõe, acolhe-se. Deus não se manifesta de modo inequívoco: isso tiraria a nossa liberdade de o aceitar.

Procurar Deus já é encontrá-Lo. Buscá-lo na nossa vida já é relação com Ele.

Creio que o problema não é a mera falta de tempo, mas a dispersão.

A tradição cristã ousa afirmar que Deus manifesta-Se escondendo-Se. Salva perdendo-Se. Vive morrendo. Ama sendo abandonado. A contemplação oferece uma porta para essa gramática do amor – uma gramática que não se impõe pela evidência, mas se oferece à liberdade.

Por isso, contemplar não é acumular pensamentos elevados nem alcançar estados especiais. É dispor-se interiormente para acolher. É aceitar parar. É consentir no silêncio. É permitir que Deus seja Deus em nós, sem o reduzir às nossas imagens, expectativas ou utilidade.

A contemplação começa de forma simples: sentar-se, aquietar-se, escutar. O objetivo não é “sentir coisas”, mas estar com o Senhor. Colocar-me diante do Mistério e reconhecer-me habitado por Ele. Colocar-me diante da Palavra e reconhecê-La dentro de mim. É estar diante da própria vida reconhecendo-a como lugar habitado pelo Espírito Santo. É estar disponível para reconhecê-La.

A contemplação começa aqui: não no acúmulo de ideias sobre Deus, mas no sabor interior da relação com Ele. Contemplar não é pensar mais; é escutar mais fundo. É entrar numa aventura de silêncio. E toda a aventura comporta risco: o risco de nos expormos, de deixar as defesas cair, de consentirmos em não controlar tudo.

Muitos de nós, que até queremos ter uma vida de oração e de intimidade com Deus, parece que não o conseguimos fazer. “Não tenho tempo”, dizemos. “Não tenho tempo para a oração” é a desculpa para a nossa dificuldade em rezar, em parar, em colocar-se à escuta da intimidade. Creio que o problema não é a mera falta de tempo, mas a dispersão associada à dificuldade de simplesmente estar.

Proponho o regresso a uma sabedoria antiga e profundamente cristã, a sabedoria do silêncio, ou a arte da Contemplação como antídoto para que a dispersão não cause divisão em nós. Contemplação, não como técnica reservada a alguns mestres, mas como um caminho simples, acessível a todos e que brota da sede que nos habita.

Esta arte discreta, paciente e exigente, devolve o ser humano ao centro do seu próprio coração.


Este é o primeiro texto de uma série de cinco em que pretendo fazer uma introdução à prática da contemplação ou meditação cristã. No próximo texto vou propor que olhemos para Jesus, o único mestre, para com Ele podermos mergulhar numa via de maior intimidade.

Leia os outros artigos deste Atelier de Quaresma:

Jesus, o Contemplador – Ponto SJ

Os Padres do Deserto: a ‘cela’ como escola interior – Ponto SJ

As três entregas: corpo, tempo e mente – Ponto SJ

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.