A vida impõe-se. Tal como os dias se sucedem às noites e as noites aos dias. Os frutos às flores e os campos ardidos aos bosques frondosos. As tempestades aos tempos de bonança e as acalmias às tempestades. A vida impõe-se. A pele perde a elasticidade, os olhos, a visão. As subidas destemidas às altas montanhas são recordações ténues, em joelhos cobertos por mantas, em dias quentes.
Durante algum tempo, julgamos o contrário, que somos donos das nossas vidas, senhores dos nossos destinos. Até caímos, mas recuperamos depressa, uns mais do que os outros. Passado algum tempo, vamos tendo uma percepção suave de que talvez não seja sempre assim. Mas prosseguimos, firmes nas convicções, determinados nas opções. Passado mais algum tempo, à medida que acompanhamos o inverno dos nossos, torna-se cada vez mais nítido o relevo dos caminhos, a berma das estradas, os desvios onde temos de parar para matar a sede e descansar o corpo.
«Estou pronto para partir», dizia-me o meu pai, de 92 anos, viúvo recente do amor da sua vida. Apesar de reconhecer a Graça de Deus, perante a sua afirmação serena, consegui calar o que queria responder, «mas eu não estou meu Pai, eu não estou pronta para o perder».
A vida impõe-se, sem grandes tréguas, sem passinhos de lã, nem palavras doces. Tal como o vento que não se trava ou as guerras que não se explicam. Esta certeza que não se compadece de um simples, «mas eu não estou pronta», enche-me o peito, mexe-me no coração, obriga-me a parar, agita a minha Fé.
A mesma Fé que nos pede confiança e esperança. Abandono e certeza. A Fé que nos dá a certeza de que Jesus está e Deus virá, na Sua Glória, no fim dos tempos. A fé que nos recorda «felizes os que acreditam sem terem visto». E somos nós, estes felizes, os que hoje nos ajoelhamos ao toque das campainhas, os que rezamos a oração que Jesus ensinou, os que reconhecemos a Sua presença, beijamos a cruz e nos alegramos na manhã da Ressurreição. Somos felizes por entre as tristezas, crentes apesar das dúvidas, alegres apesar das lágrimas. Consigo escrever estas palavras sem pausas, como se fossem água a jorrar de qualquer fonte. Como se os dedos a tocar o teclado fossem as mãos de um pianista que não precisa de pauta.
Mas quando a vida se impõe e se torna evidente a perda do outro, a perda da força, a perda do tempo que falta, crescem rebentos de ervas daninhas que quase sussurram medos, inquietações, dúvidas. As dúvidas de Fé nunca me abalaram ao ponto de questionar quem sou. Apenas me agitam, porque me obrigam a pensar, a sofrer e a amar. Amar Jesus nos outros. Nos meus. Amar até naqueles de quem não conheço o nome, nem a história, nem a vida.
Estamos a viver um tempo em que a velhice e a morte dos nossos nos obriga a pensar, a sofrer e a amar. Não temos casas preparadas para acolher três gerações. Trabalhamos demasiadas horas. Residências, lares, cuidadores têm custos inatingíveis para uma imensa maioria. E dos que podem pagar, muitos não se sentem tranquilos, quando se despedem, em visitas mais ou menos breves. Dizem-me que fora das grandes cidades, tudo é mais fácil, com maior qualidade. Acredito que sim. Mas o que fazer quando a nossa vida é agora e aqui?!
O Papa Francisco abriu esta ferida do nosso tempo e obrigou-nos a olhar para os mais velhos, para o fim da vida, para a sua dignidade. O Papa Leão XIV mantém este foco atento, esta urgência que a humanidade pede e a Fé espera.
Precisamos de estar prontos para responder, antes que as perguntas nos inquietem, nos vacilem no amor que sentimos. As respostas exigem pensamento, reflexão, escolhas e decisões. Que se faça, que aconteça. Entre as famílias, com os amigos, dentro das instituições, particular ou oficialmente. Porque nos toca a todos. Só não sabemos a hora. Cuidar do fim da vida não pode ser um negócio, uma coluna de deve e haver, um peso que se carrega, na esperança de que acabe depressa. Nascer e morrer são duas pontas do mesmo fio e ambas se merecem no cuidado, na alegria e na esperança. E para quem tem Fé, tudo se pode e deve entender de forma mais clara.
Não há nada mais triste do que andar por um mercado de flores, uns dias depois das horas em que se sentiam os cheiros destas e daquelas, em que as cores nos prendiam o olhar. Uns dias depois, andamos por entre pétalas pisadas, restos de águas paradas, caules partidos, restos caídos da beleza de outros dias. A vida impõe-se. Até para as flores.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
