O que aconteceu por estes dias em Ceuta não é apenas um problema local e uma crise política entre dois estados, é uma crise de toda a humanidade.
Quando ouvimos as pessoas explicarem o que as moveu a entrarem em Ceuta, território espanhol, para além de tal motivação ter origem em notícias vinculadas, ainda que falsas, de que Espanha tinha aberto as fronteiras ou de que quem entrasse por mar não poderia ser deportado, ouvimos e vemos que esta situação é uma fuga a uma situação de pobreza.
Viemos porque não temos trabalho! Viemos porque queremos ter uma vida melhor! – disseram alguns migrantes entrevistados. Coisas que não têm no seu país.
Isto remete-nos para uma crise mais global e que tem que ver com o fosso cada vez maior entre os países ricos e os países pobres. Não estão asseguradas as condições, nos países de origem, para que as pessoas não tenham de migrar.
Isto remete-nos para uma crise mais global e que tem que ver com o fosso cada vez maior entre os países ricos e os países pobres. Não estão asseguradas as condições, nos países de origem, para que as pessoas não tenham de migrar.
A tecnologia exponenciou, ou melhor, mostrou, ainda mais este fosso. Hoje, através das redes sociais, as pessoas estão mais informadas e conhecem o potencial de outros países. E alguns desses países estão mesmo muito perto. De Ceuta avista-se Espanha, a Europa, e tudo o que ela pode oferecer: trabalho, melhor futuro, possibilidade de aprender e de enriquecer. Possibilidade de ter uma vida melhor.
Foi por isto que 60 mil arriscaram atravessar para Ceuta. Ainda que por detrás desta travessia possam estar questões políticas e desentendimentos entre governos, a verdade é que ninguém arrisca a sua vida se não estiver a viver mal.
Claro que isto não pode justificar uma entrada maciça num estado soberano. Os estados, todos, têm direito a proteger a sua soberania.
O problema é mais global e requer uma atenção sobre os países donde provêm os migrantes e sobre o que os leva a deixar os seus países, arriscando a ilegalidade e até a própria vida.
Não resolvemos o problema construindo muros, mas construindo pontes que têm em atenção os países mais pobres, denunciando as injustiças e aplicando políticas que promovam o desenvolvimento destes países e não a sua “exploração”.
É necessário cuidar do desenvolvimento destes países. É necessário ajudar a que estes países criem riqueza e que as suas populações não tenham de migrar.
O problema não está só nos países onde impera a corrupção, o problema também está em quem promove as desigualdades e a corrupção, sejam estados ou empresas. Há estados e empresas que têm como principal finalidade enriquecer e, para isso, procuram a fonte destas riquezas, ainda que tenham de corromper estados e pessoas.
O que nos mostram os acontecimentos de Ceuta é muito mais do que uma luta de um estado soberano pela sua autonomia e pelas suas leis, é a crise da desigualdade e do desespero de populações que estão reféns de uma lógica egoísta e exploratória dos seus recursos e vidas. E que facilmente podem ser usadas e instrumentalizadas pelos seus governos.
A humanidade não resolve o problema somente fechando fronteiras, mas cuidando da origem da crise.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
