P. Cruz a caminho de ser declarado Venerável - Ponto SJ

P. Cruz a caminho de ser declarado Venerável

Depois de ser declarado Venerável, e perante a existência de um milagre devidamente reconhecido pela Santa Sé, o P. Cruz poderá ser declarado Beato. A Canonização, confirmação de culto público universal, exige um segundo milagre.

Depois de ser declarado Venerável, e perante a existência de um milagre devidamente reconhecido pela Santa Sé, o P. Cruz poderá ser declarado Beato. A Canonização, confirmação de culto público universal, exige um segundo milagre.

Assinala-se hoje, dia 29 de julho, o 167º aniversário de nascimento do Servo de Deus P Francisco Rodrigues da Cruz, jesuíta português que ficou vulgarmente conhecido por P. Cruz e cujo processo de canonização se encontra a decorrer na Santa Sé.

Francisco Rodrigues da Cruz era natural da vila de Alcochete, onde nasceu em 1859. Por se recear pela sua vida, foi batizado de urgência em casa, no mesmo dia do nascimento, tendo-se completado as cerimónias do batismo na Igreja de São João Baptista, no dia 25 de fevereiro de 1860.

A sua vida prosseguiu normalmente. Concluiu os estudos secundários e formou-se em Teologia, na Universidade de Coimbra, em 1880, sendo ordenado sacerdote, em 1882.

Desde 1880 que desejou entrar na Companhia de Jesus vendo várias vezes indeferido o seu pedido devido à falta de saúde. Finalmente, em 1940, o Santo Padre Pio XII, concedeu-lhe licença para fazer os votos religiosos imediatamente, com dispensa de Noviciado e de morar nas casas da Ordem. Pronunciou-os no Seminário da Costa, em Guimarães, a 3 de dezembro de 1940, festa de S. Francisco Xavier de quem era muito devoto.

Faleceu aos 89 anos de idade, a 1 de outubro de 1948, depois de uma longa vida em que exerceu intenso apostolado a favor dos mais frágeis e desamparados, dos pobres, dos presos, dos doentes, tornou-se exemplo vivo e reconhecido de intenso amor a Deus e ao próximo.

Breve história do processo de canonização

O P. Cruz morreu em 1948, mas a fama de santidade que já tinha em vida e o grande número de graças atribuídas à sua intercessão concorreram para a opinião geral de que era urgente iniciar o processo da sua beatificação. Tanto assim que muitas das provas testemunhais relevantes corriam o risco de perder-se, dada a avançada idade.

Em 1951, D. Manuel Gonçalves Cerejeira tornou pública a petição do Vice-Postulador, P. Manuel Baptista e decretou a abertura do Processo Diocesano da Causa do P. Cruz. Em 1964 estava concluído o inquérito feito a 45 testemunhas das dioceses de Lisboa e do Porto. Um ano depois, este processo informativo foi entregue à Santa Sé, juntamente com um acervo dos escritos atribuídos ao P. Cruz.  O Decreto de aprovação dos Escritos do Servo de Deus foi publicado em 1971 e em 1977 a Cópia Pública do Processo Ordinário desta Causa foi entregue à Postulação Geral da Companhia de Jesus.

Depois desta data, o processo sofreu um período de estagnação, não obstante se mantivesse viva a devoção ao P. Cruz. Acresce que as normas promulgadas por João Paulo II, em 1983, previam uma nova metodologia processual, que incluía a investigação de carácter histórico critico, para fundamentar a credibilidade dos factos narrados e a sua veracidade. Foi nesta conjuntura que, em 1999, o então Vice-Postulador da Causa do P. Cruz, P. António Reis, sj, pediu a colaboração do P. Vaz de Carvalho, S.J., o qual deu início à organização sistemática do vasto acervo documental existente. Este Volume Documental foi entregue ao Postulador P. Paolo Molinari, sj em fevereiro de 2004.

O passo seguinte da renovação da Causa exigia a instrução de um Processo Supletivo, nomeadamente a constituição de uma Comissão de Peritos em matéria histórica e arquivística, para análise crítica das fontes e dos factos referentes ao P. Cruz.

Em 2009, D. José da Cruz Policarpo promulgou o decreto de abertura deste processo e nomeou os membros do Tribunal e da primeira Comissão Histórica, composta pelo P. José Álvares Vaz de Carvalho (Instituto Histórico da Companhia de Jesus em Roma) e pelo P. Carlos Maria Correia de Magalhães e Vasconcelos (Arquivista da Província Portuguesa da Companhia de Jesus). No quadro desta investigação, foram ouvidos nove testemunhos no Tribunal de Lisboa. Para garantir a continuação dos trabalhos foi necessário nomear, em 2012, uma segunda Comissão Histórica, composta por D. António Montes Moreira (Bispo emérito de Bragança), pelo P. Carlos Maria Correia de Magalhães e Vasconcelos (Arquivista Província Portuguesa C.J.) e pela Irmã Diana Barbosa (Doroteia).

Já com o novo Vice-Postulador da Causa do P. Cruz, P. Dário Pedroso, sj coube à terceira Comissão Histórica, nomeada em 2018 por D. Manuel Clemente e composta por P. António Júlio Trigueiros, S.J., Paulo de Oliveira Fontes e Sérgio Ribeiro Pinto, a tarefa de conclusão do trabalho histórico e da autenticação dos documentos analisados, estabelecendo definitivamente a veracidade dos factos com valor para a Causa.

Os atos processuais deste inquérito supletivo foram enviados para Roma, para a Congregação das Causas dos Santos e para a Postulação Geral, após solene encerramento que decorreu em 2020, na igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora. A cerimónia foi presidida pelo então cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, na presença do então Núncio Apostólico, D. Ivo Scapolo, dos Senhores Bispos Auxiliares de Lisboa, D. Daniel da Paiva Henriques e D. Américo Aguiar, o Bispo de Setúbal, D. Manuel Ornelas, bem como os Membros do Tribunal, os membros da Comissão Histórica, o Vice-Postulador da Causa, P. Dário Pedroso, sj, o Chanceler da Cúria Patriarcal, o então Provincial da Companhia de Jesus, P. Miguel Almeida, formadores e alunos do Seminário Maior de Cristo Rei, familiares do P. Cruz  Servo e muito povo.

Nesta cerimónia de encerramento, D. Manuel Clemente reforçou a importância que o exemplo do P. Cruz teve não só na Igreja e na sociedade do seu tempo, mas também de hoje. Com efeito, a vida do Servo de Deus foi um eloquente exemplo de evangelização, conhecido como sendo o maior amigo dos pobres, dos doentes, dos presos e de todos os mais abandonados da sociedade. Graças à força deste exemplo, o P. Cruz continua a ser uma figura “inspiradora” que se mantém a tal ponto atual que o cardeal não hesitou em defender: “Estou certo de que a canonização e, para já, a maior divulgação da sua vida exemplar nos vão impelir no rumo certo e inadiável.”

Neste momento, aguarda-se a finalização dos trabalhos sobre a Positio (texto sobre a sua vida, virtudes e santidade), na Postulação Geral em Roma, e que as Virtudes Heroicas do P. Cruz sejam aprovadas para que o Servo de Deus possa ser declarado Venerável.

Depois de ser declarado Venerável, e perante a existência de um milagre devidamente reconhecido pela Santa Sé, o P. Cruz poderá ser declarado Beato. A Canonização, confirmação de culto público universal, exige um segundo milagre.

De referir que D. Manuel Clemente, em 2023, instruiu o novo processo sobre duas presumíveis curas miraculosas atribuídas ao P. Cruz, nomeando Paula Brum Prezado Santos Damião Pinheiro, médica pericial, para ajudar à indagação da verdade dos factos junto das testemunhas e dos colegas. A morte, em 2025, desta médica constituiu uma perda inestimável para o andamento do processo a decorrer no Patriarcado de Lisboa.

 

Conheça melhor a vida do P. Cruz através do documentário

Fotografias: Ricardo Perna

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.