Exercícios na vida quotidiana: a oração é o centro da vida - Ponto SJ

Exercícios na vida quotidiana: a oração é o centro da vida

Os Exercícios quotidianos tornam-se um verdadeiro dom quando entendidos a partir de dois movimentos: descobrir Deus sem sair da vida, e ao mesmo tempo, criar nas nossas agendas espaço de silêncio diário reservado apenas para estar com Jesus

Terminados os Exercícios Espirituais na Vida Quotidiana (EEVQ), fica o balanço deste caminho tão especial de oito meses de amizade com o Senhor. É difícil resumir o que possam ser estes Exercícios, porque são, acima de tudo, um caminho profundamente pessoal. Ainda assim, parece-me importante testemunhar este percurso, nem que seja através de um breve overview.

Partimos do princípio de que os Exercícios Espirituais, seja qual for a sua duração, não têm como objetivo “rezar mais”, nem “sentir Deus”. Santo Inácio é muito claro quando diz: “Preparar e dispor a alma para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de as tirar, procurar e encontrar a vontade de Deus na disposição da própria vida para a salvação da alma.”

Este caminho, pensado e estruturado ao longo de oito meses (começando em outubro e terminando em maio do ano seguinte), percorre igualmente a primeira, segunda, terceira e quarta semana propostas por Santo Inácio nos Exercícios Espirituais. E, pelo menos para mim, o que mais me fascina é precisamente isto: este caminho de oração diária (45 minutos, mais o exame de consciência) vai-se entrelaçando com o próprio dia a dia. Com o trabalho, a família, os convívios, as conversas com amigos, os fins de semana fora, as férias, as missas, as partilhas dos grupos… Enquanto tudo isto acontece, cresce também uma consciência maior de que Deus está realmente a trabalhar em nós, também porque nos disponibilizamos a isso.

Há apegos. Há medos. Há expectativas. Há feridas. Há desejos. E, no meio de tudo isto, começam a surgir perguntas: O que é que realmente me move? O que é que me prende? O que me torna verdadeiramente livre? É ir descobrindo, pouco a pouco, a misericórdia que Deus tem por cada um de nós. (Primeira semana).

E tudo isto acontece… em live.

Se tivesse de explicar a diferença entre uns Exercícios de dias ou uma semana e os Exercícios na Vida Quotidiana, talvez usasse esta imagem. É como aprender uma língua.

Se tivesse de explicar a diferença entre uns Exercícios de alguns dias ou uma semana e os Exercícios na Vida Quotidiana, talvez usasse esta imagem. É como aprender uma língua. Podemos fazer um curso intensivo de dias ou uma semana e aprender imenso. Mas também podemos ir viver oito meses para um país onde essa língua se fala todos os dias. Aos poucos, quase sem dar por isso, deixamos de a traduzir na cabeça e começamos a pensar nessa língua. Acho que os Exercícios quotidianos têm qualquer coisa disto. Não nos retiram da vida; vão-nos ensinando, pouco a pouco, uma nova maneira de a olhar. Até que, sem darmos por isso, começamos a olhar para o mundo um bocadinho mais com os olhos de Jesus. E talvez seja precisamente isso que mais me encanta. É um tempo para conhecer Jesus de forma profundamente pessoal. Ao longo das semanas contempla-se a vida de Jesus como quem acompanha um amigo. Não é estudar o Evangelho. É entrar nele.

Nascem perguntas muito simples, mas que acabam por transformar a maneira como olhamos para tudo: Como olha Jesus para as pessoas? Em que é que me identifico mais com Ele? O que sinto quando estou com Ele? Quero realmente segui-Lo? (Segunda semana). No fim do dia, rezar tudo isto entre tantas outras responsabilidades vai moldando lentamente o nosso olhar. Como se Jesus nos emprestasse os Seus óculos para aprendermos a ver as pessoas e o mundo da maneira como Ele vê.

Uma das coisas que mais me impressiona em Santo Inácio é precisamente esta capacidade de nos ensinar a olhar para aquilo que acontece dentro de nós. Nem tudo o que sentimos vai na mesma direção. Confesso que, desde que me lembro de fazer Exercícios Espirituais, atravessar a terceira semana sempre foi a parte mais difícil para mim. Nunca me foi fácil rezar a injustiça, o sofrimento e a morte de Jesus.

Ao longo das semanas contempla-se a vida de Jesus como quem acompanha um amigo. Não é estudar o Evangelho. É entrar nele.

Nestes Exercícios quotidianos, o facto de sermos um grupo relativamente grande, cerca de 30 pessoas, fez toda a diferença. A dimensão comunitária sustentou muito o caminho de cada um. Tive sorte com o grupo. Para além de muito diverso, quer nas idades quer nos percursos de vida, era um grupo profundamente comprometido. E surpreenderam-me sobretudo os mais novos. Isso deu-me ânimo para olhar de frente para a terceira semana que aí vinha. É a semana em que se conhece o coração de Jesus.

Foram semanas em que verdadeiramente me “atirei de cabeça” para acompanhar Jesus na Sua entrega e na Sua morte na cruz. Ainda hoje não consigo pôr bem por palavras o que aconteceu, mas foram, sem dúvida, as semanas que mais gostei e aquelas em que mais me senti transformada ao longo destes oito meses.

Depois surge o tema da vocação ou da reforma de vida. Num sentido muito mais amplo do que decidir o matrimónio ou a vida religiosa. Trata-se de descobrir quem sou chamado a ser, como amar melhor, como viver com mais autenticidade, como servir. No fundo, responder à pergunta: “Senhor, o que queres de mim?”. E viver a alegria da Ressurreição, aprendendo a encontrar Deus em todas as coisas (Quarta semana).

Os Exercícios quotidianos tornam-se um verdadeiro dom quando os entendemos a partir destes dois movimentos: descobrir Deus sem sair da vida, continuando a enfrentar trânsito, reuniões, estudos, prazos, cansaço e discussões familiares, e, ao mesmo tempo, criar nas nossas agendas um espaço de silêncio diário reservado apenas para estar com Jesus. É um gesto profundamente contracorrente, “quase impossível” perante o loop de tarefas e compromissos que temos todas as semanas. E, precisamente por isso, é um dom a acolher.

Por último, depois da quarta semana, chega aquilo a que Santo Inácio chama “Contemplação para Alcançar Amor”, uma espécie de conclusão de todo o caminho. Enquanto nas semanas anteriores vamos descobrindo um Deus que cria, perdoa, chama, caminha connosco, sofre e ressuscita, sendo nós quem O contempla, aqui acontece uma inversão. Começamos a olhar para toda a realidade como um dom recebido. Tudo é graça: a inteligência, as pessoas, a amizade, o trabalho, a natureza, o tempo. Nada é simplesmente “meu”.

Tudo foi primeiro recebido. E isto muda a maneira como olhamos para a vida. Até uma reunião difícil com o chefe. Até uma conversa menos boa. Até um dia particularmente cansativo. Não porque essas coisas deixem de custar, mas porque deixamos de as viver sozinhos. E cada vez, com mais consciência disso. A pergunta deixa então de ser: “O que é que Deus quer de mim?” e passa a ser: “Como posso responder a tanto amor recebido?”.

A mensagem central que quero passar é que a oração é, de facto, o centro da vida. E sem fidelidade as relações não se mantêm. O mesmo é com Deus. É isso que mais sinto neste pós-Exercícios. A oração diária deixou de ser apenas um compromisso; tornou-se o lugar onde a vida deixa de me passar ao lado.

Esta “quinta semana” é, no fundo, a semana da vida. Somos enviados. A transformação interior leva-nos a olhar toda a realidade exterior com gratidão, reconhecendo-a como dom de Deus, e desperta em nós respostas livres de amor.

Talvez surja a pergunta: “Oito meses? Eu nunca vou conseguir rezar todos os dias durante oito meses. Vou falhar.” Acredito que esse tenha sido o primeiro pensamento de muitos de nós, das cerca de 30 pessoas que fizemos estes Exercícios. Porque, para além da oração diária, há ainda os encontros mensais de partilha e o acompanhamento espiritual regular. Não parece muita coisa, é muita coisa. Esquecemo-nos, porém, de que Deus Pai conhece melhor do que ninguém a nossa fragilidade. Sabe exatamente o que nos está a pedir. E quando nos chama, não é para Lhe provarmos que conseguimos rezar muito, nem a Ele nem a ninguém.

É um caminho comunitário, sim, mas profundamente pessoal. Deus acompanha-nos e nós aprendemos a acompanhá-Lo. Se for preciso voltar atrás para rezar um Evangelho, voltamos. Se for preciso permanecer mais alguns dias numa leitura, permanecemos. Se um dia foi absolutamente impossível rezar, recomeçamos no dia seguinte. Deus Pai pede-nos apenas uma coisa: “Ama-me como és.”

Como no Evangelho de Lucas (10, 1-12), quando Jesus envia os discípulos dois a dois, também este caminho de oito meses é entre ti e Jesus, estrada fora. Uma lente depois para a vida. Com a tua fragilidade, os teus medos, os teus sonhos. Lado a lado. E é lado a lado, despojados, pobres e com este desejo de ser livre, que vão construindo caminho.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.