Os Domingos, filme de Alauda Ruiz de Azúa, apresenta uma família basca, laica, que recebe a notícia que Ainara, de 17 anos, está a pensar entrar para um convento de clausura. A questão central do filme não é tanto a decisão da vida religiosa em si, mas a forma como essa escolha pode alterar toda a dinâmica familiar. Ruiz de Azúa parece perguntar até que ponto conseguimos aceitar escolhas que não compreendemos e se só toleramos aquilo que continua próximo da imagem que idealizámos para os outros. Existirá uma diferença entre compreender alguém e aceitar que as suas escolhas possam contrariar tudo aquilo em que acreditamos?
Ainara partilha com a tia, Maité, que está num processo de discernimento vocacional e esta responde imediatamente: «eu não sou crente, mas respeito». No entanto, o que vemos ao longo do filme é que quase todas as suas acções contradizem essa premissa inicial, como se estivesse constantemente a tentar convencer-se de que consegue de facto respeitar. O seu respeito, contudo, revelar-se-á afinal mais uma ideia sobre si própria do que uma prática real.
A personagem que repetidamente se apresenta como mais aberta e respeitadora é, afinal, a menos capaz de aceitar que os outros possam escolher outra forma de vida.
Desde cedo vemos em Maité uma resistência interior constante: perante o irmão e as suas escolhas, perante um casamento que se revela fragilizado, perante uma estrutura familiar menos unida e, por fim, perante a possibilidade da vida religiosa da sobrinha. Maité tolera a diferença apenas enquanto ela permanece dentro do que considera aceitável. A escolha de Ainara surge, assim, como incompreensível. Para a tia, a sobrinha deveria viver mais «no mundo», conhecer rapazes, ir para a faculdade, já que, não consegue imaginar felicidade numa vida de clausura.
O momento mais revelador dessa incompreensão surge quando Maité e o irmão vão falar com as irmãs do convento ao deixarem Ainara para uma semana de discernimento. Maité chega a mentir à irmã Isabel – talvez esperando que a mentira provoque um choque moral – porque acredita que encontrará um olhar julgador e moralista. No entanto, aquilo que encontra é precisamente o contrário: compreensão e abertura. A personagem que repetidamente se apresenta como mais aberta e respeitadora é, afinal, a menos capaz de aceitar que os outros possam escolher outra forma de vida.
Aquilo que começa como preocupação transforma-se progressivamente em controlo, negando a autonomia de Ainara.
O filme sugere que a reacção de Maité não nasce apenas da questão religiosa, mas de uma geografia emocional interior ainda em construção e profundamente instável: a relação difícil com o irmão e com a mãe, o questionamento do casamento com Pablo e o lento desmoronar da ideia de estabilidade que sustentava a sua própria vida. Ainara surge, assim, como uma fissura nessa construção – uma presença que desestabiliza tudo aquilo que Maité julgava sólido na sua forma de estar no mundo.
Maité transforma-se, pois, na expressão perfeita de como a incompreensão pode facilmente tornar-se um espaço de incompatibilidade e incomunicabilidade entre as visões morais – laica e religiosa – que as personagens representam. Há escolhas que parecem ofensivas apenas porque nos excluem delas. O que começa como preocupação transforma-se progressivamente em controlo, negando a autonomia de Ainara. Existe uma violência subtil em decidir que sabemos melhor a vida do outro. E talvez a verdadeira liberdade esteja em aceitar as escolhas do outro, mesmo quando nos suscitam uma total incompreensão.
* A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
