Vivemos tempos de incompletude e orfandade. Dependemos, cada vez mais, da absolutização da parcialidade. Sentimo-nos empurrados. Não podemos optar pela tensão tribal, mas decerto também desconfiamos de um concordismo cego. No fundo, é-nos difícil coexistir à luz daquela formulação teológica segundo a qual Jesus vive «sem confusão nem separação». Nós, pelo contrário, não estamos apenas separados. Estamos também encolhidos. Não estamos apenas misturados. Sabemo-nos também anulados. No fim de cada dia, o rescaldo do nosso trabalho assemelha-se a um cemitério de arenas de suspeita, desconfiança e rancor. Facilmente nos esquecemos de que a acusação é o refúgio mais cómodo para a nossa impotência. Por fim, confundimos tentativas de reparação com cedência ou neutralidade. «Estás comigo ou contra mim? Estás certo ou errado? Devo apoiar-te ou atacar-te?»
Curioso é, porém, que também a oração tenha sido, desde sempre, entendida como «um trato de amizade»: uma conversa em que um amigo fala a outro amigo. De tal modo que a qualidade das nossas conversas revela a qualidade da nossa oração, e a qualidade da nossa oração revela a qualidade das nossas conversas. Por isso, não será de estranhar que também a oração tenha sido afetada por este modo desamparado de existir. Temos dificuldade em habitar um espaço sem opinião. Temos dificuldade em suportar a tensão. Temos dificuldade em recusar um concordismo fácil como fuga da disparidade. Talvez esta seja uma das grandes contradições do nosso tempo: exigimos diálogo, liberdade, escuta e silêncio, mas dificilmente nos predispomos a isso. Ou melhor, predispomo-nos, mas sem que isso nos faça arredar pé ou nos ponha em causa.
Desenganemo-nos, portanto, se acharmos que este tempo de paragem é um tempo em que cada um escuta apenas o próprio eco ou uma forma de rendição pessoal. A este respeito, a Bíblia é particularmente poderosa ao convocar, a certa altura, a imagem de uma luta noturna entre Jacob e uma figura divina. Jacob roubara o seu irmão. Tinha sido abençoado pelo pai, mas como fruto de um logro. Fugira. Agora, porém, regressa com a intenção de pôr termo à luta fratricida com Esaú. Mas, antes que esse encontro aconteça, no meio da noite e até ao romper da aurora, um anjo ou o próprio Deus trava combate com ele.
Depois de ter enganado o irmão e de ter vivido escondido, é no rescaldo dessa luta que Jacob diz o seu nome pela primeira vez. Numa história de enganos, admite, por fim, a sua verdadeira identidade. Ele, que até então costumava escapar ileso, recebe uma ferida como preço da bênção de Deus. Da luta com Deus, Jacob saiu a coxear. Da oração, saímos com o corpo cheio de marcas. E talvez habilitados a dizer, como Jacob dirá pouco depois a Esaú: «Vi o teu rosto como se vê o rosto de Deus» (Gn 33,10). O dom não prescinde do dano nem do trauma.
Temos dificuldade em habitar um espaço sem opinião. Temos dificuldade em suportar a tensão. Temos dificuldade em recusar um concordismo fácil como fuga da disparidade. Talvez esta seja uma das grandes contradições do nosso tempo: exigimos diálogo, liberdade, escuta e silêncio, mas dificilmente nos predispomos a isso. Ou melhor, predispomo-nos, mas sem que isso nos faça arredar pé ou nos ponha em causa.
Sobre este episódio, escreveu Santo Agostinho: «Jacob luta, vence e quer ser abençoado por aquele que é vencido.» Quereremos nós o mesmo? Se nada na nossa vida se deixa dizer a partir de um único ponto de vista — e o mistério de Cristo também não —, sendo a fluidez e a complementaridade entre os Evangelhos disso exemplo, por que razão nos custa tanto ceder espaço ao Deus que não ocupa todo o espaço e aceitar, assim, ser corrigidos e completados, tal como os quatro Evangelhos se corrigem e se completam entre si? Se a Páscoa é sinónimo de travessia, quando aceitaremos que só atravessaremos algo se consentirmos em ser atravessados? Se o mundo, com os seus muitos mundos, não é, para Jesus, apenas um instrumento, quando o assumiremos como espaço de ressonância e de presença? Não teremos nós esvaziado de densidade tudo o que celebramos, apressados em satisfazer as nossas necessidades de aceitação ou em fazer de Deus um suborno? Que presença pode ter o Cristianismo na tensão entre não ter medo de perder o lugar e fazer-se carne sem anular, sobrevoar ou nivelar ritmos e lugares? Se «adorar a Deus em verdade significa reconhecê-lo pelo que Ele é e reconhecermo-nos a nós mesmos pelo que somos», reconheço-me hoje reconhecido? Se Deus só pode criar escondendo-se, a que precisarei de dar espaço?
Inácio de Loyola recomendava «que todo o bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo do que a condená-la». Não procuremos, pois, neste momento de pausa, uma resposta. Tantas vezes regressamos anualmente a estes encontros em busca de um pronto-a-vestir, para nos sentirmos úteis e funcionais. Em vez disso, invistamos em cultivar uma disposição. Recorrendo à linguagem da física: se o tempo desacelera com a gravidade, concedamos aos lugares que compomos entre nós essa capacidade de atração e de curvatura do espaço-tempo, que origina locomoção. Reparem: um astronauta em órbita só parece flutuar porque está continuamente a cair.
Por fim, acolhamos estas palavras de Etty Hillesum como se fossem dirigidas a nós mesmos: «Ainda estamos muito longe do fim. Eu também olharei por mim. Tenho tantas forças. Podes ficar com elas. Novas crescerão em mim.»
viagem no deserto
abre-nos, Deus, a porta
através das águas
para a grande viagem no deserto:
o combate com a morte no campo da vida,
a travessia dos limites, a nebulosa dos olhos
não se ensurdeça o nosso coração
porque a luta noturna com o teu Nome
nos deixou no corpo marcas
dá-nos a graça de atravessar o riacho da vida
mesmo coxeando;
que caminhemos com a ligeireza
e a elegância do animal
que busca o esplendor do verdadeiro
nas coisas provisórias
e que desse combate com as imagens
nos aproximemos do horizonte da tua casa
donde vejamos as sementes do amor cobrindo a eira,
Deus que ligas o céu e a terra no teu Filho Jesus
e no Espírito
(José Augusto Mourão)
Regras para reaprender a conversar, segundo Santo Inácio de Loiola
1. Entrar na conversa preparado interiormente
“Quanto mais formos prevenidos e de alguma forma preparados, tanto mais iremos tranquilos no Senhor nosso.”
Preparar-se significa perguntar: Com que disposição vou para esta conversa? Quero realmente compreender e procurar o bem, ou quero vencer, convencer, defender-me, mostrar que tenho razão?
2. Falar pouco e com caridade
“Seria escasso no falar, com amor e consideração.”
Não é preciso dizer imediatamente tudo o que pensamos. Inácio recomenda uma certa sobriedade da palavra: falar menos, pensar mais e deixar espaço ao outro. Mas acrescenta duas qualidades decisivas: amor e consideração. Não basta que aquilo que digo seja verdadeiro; importa também como, quando e com que intenção o digo.
3. Escutar para compreender, não para responder
“Seria escasso no falar, ajudando-me no ouvir, calmo para sentir e conhecer os juízos, afectos e vontades dos que falam, para melhor responder ou calar.”
Inácio não diz apenas: ouve o que o outro diz. Propõe procurar conhecer os seus juízos, afectos e vontades. Ou seja: O que pensa? O que sente? O que deseja? De onde vem aquilo que está a dizer? Só depois vem a decisão: “responder ou calar”. Escutar não é esperar pela nossa vez de falar. É procurar compreender o mundo interior do outro.
4. Procurar as razões dos dois lados
“Dar razões de ambas as partes, para não se mostrar movido por juízo próprio.”
Quando estamos convencidos de alguma coisa, tendemos a procurar apenas argumentos que confirmem aquilo que já pensamos. Inácio propõe o exercício contrário: sermos capazes de formular seriamente as razões da outra parte. Isto não significa pensar que todas as posições são igualmente verdadeiras. Significa recusar a caricatura do adversário. Só discordamos verdadeiramente de alguém depois de termos compreendido aquilo de que discordamos.
5. Não transformar a discussão numa luta de autoridades
“Não citaria como autor a nenhuma pessoa, principalmente se for grande […] dando-me com todos e não me inclinando por ninguém.”
Inácio aconselha a não substituir as razões pela autoridade. Uma referência intelectual pode ser relevante, mas o perigo está em utilizá-la como instrumento para encerrar a conversa ou intimidar o interlocutor.
6. Discordar com tranquilidade e humildade
“Se as coisas de que se fala forem tão justas que não se possa ou deva calar, dando ali o seu parecer com a maior tranquilidade e humildade possível.”
Inácio não propõe uma falsa concórdia. Há ocasiões em que não se deve calar. A caridade não significa ausência de convicções. Mas justamente quando é necessário dizer com clareza: “Não concordo”, aparecem duas exigências: tranquilidade e humildade.
7. Deixar aberta a possibilidade de estar enganado
“Concluindo desta forma: «Salvo outro melhor parecer».”
Inácio pode ter uma convicção forte e, ao mesmo tempo, conservar uma porta aberta: talvez haja uma razão que ainda não vi; talvez o outro saiba alguma coisa que eu não sei; talvez eu precise de corrigir o meu juízo. “Salvo outro melhor parecer” não significa relativismo nem insegurança. Significa liberdade diante da própria opinião.
8. Adaptar-se ao outro, em vez de exigir que o outro se adapte a mim
“Ajuda muito não olhar para o meu tempo ou falta dele, com pressa, isto é, não olhar à minha comodidade, mas eu mesmo adaptar-me à comodidade e condição da pessoa com a qual quero tratar.”
Uma verdadeira conversa exige disponibilidade. Às vezes queremos que o outro fale depressa, compreenda depressa, responda depressa e chegue depressa à conclusão a que nós já chegámos. Inácio propõe o contrário: considerar “a condição da pessoa”.
Há pessoas que precisam de tempo. Outras precisam primeiro de ser ouvidas. Algumas precisam de perguntas; outras, de silêncio. Conversar bem é abandonar por algum tempo a nossa própria comodidade para encontrar o outro onde ele está.
9. Sair da conversa sem deixar o outro ferido
“Procurando não deixar ninguém descontente.”
Isto não significa que ninguém possa ficar contrariado com aquilo que dizemos. Há verdades que desagradam e desacordos que permanecem. O ponto é outro: não acrescentar à divergência uma ferida desnecessária. Podemos terminar uma conversa continuando a discordar e, ainda assim, conservar o respeito, a benevolência e a possibilidade de voltar a conversar amanhã.
PS- Este texto resulta de uma intervenção do P. João Basto nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais da Igreja
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.