Um coração rasgado, aberto a todos - Ponto SJ

Um coração rasgado, aberto a todos

No meio da instabilidade a nível geopolítico, o que terá para nos dizer um santo do Oriente, incluído no martirológio pelo Papa Francisco? Santo Isaac o Sírio recorda-nos que deveremos ter “um coração que arde em favor de toda a criação”.

Assistimos a uma grande instabilidade a nível geopolítico, com os conflitos a sucederem-se a um ritmo vertiginoso. Paira uma grande desconfiança entre grandes potências, nações e povos. A Ucrânia, a Palestina, a Venezuela, o Irão, constituem apenas alguns exemplos de conflitos que recentemente nos têm abalado. Ciente desta realidade o Papa Francisco referia-se já a uma “terceira guerra mundial aos pedaços”.

O que sucede a nível geopolítico não é senão o eco da divisão que ocorre ao nível do coração de cada um. A própria Igreja, no seu seio, não está imune a conflitos de polarização. Aquele que reivindica o monopólio da razão e da justiça, como estando exclusivamente do seu lado, tende a encerrar-se ainda mais e a desprezar a perspetiva de quem não pensa e não vê do mesmo modo. O Sínodo 2021-2023, “Por uma Igreja Sinodal, Comunhão – Participação – Missão”, o documento final (2024) e a sua implementação (2025-2028) constituem um dos principais legados do Papa Francisco deixados à Igreja e ao mundo. A atitude sinodal tem de ser exercitada também no seio da Igreja: dispormo-nos a sentar a uma mesma mesa, e dialogar, com aqueles que têm uma perspetiva diferente para, conjuntamente, podermos fazer caminho guiados pelo Espírito Santo. No fundo, retomamos sempre a mesma questão filosófica e teológica que tem acompanhado o ser humano ao longo da história do pensamento: a da relação entre o uno e o múltiplo.

Neste contexto algo extremado, em que as polarizações se acentuam, a Igreja é chamada a ser testemunho e fermento de um outro modo de ser e estar, e de um outro tipo de relações – é precisamente neste sentido que as três encíclicas[1] do Papa Francisco procuraram orientar a Igreja. Não obstante as divergências, de facto, aquilo que nos diferencia é muito menor do que aquilo que temos em comum, fundamentado na fraternidade universal que decorre da filiação divina. É neste sentido que consideramos pertinente lembrar exemplos como São Francisco de Assis, mas também Santo Isaac o Sírio (ou Santo Isaac de Nínive), desconhecido da maioria. Estes dois santos colocam a enfase na fraternidade que nos une a todos. Pense-se no Cântico das Criaturas no qual São Francisco expressa claramente que se sente irmanado a toda e qualquer criatura, e com um coração capaz de perdoar incondicionalmente.

“O que é um coração misericordioso? É um coração que arde em favor de toda a criação” Santo Isaac o Sírio

Santo Isaac, o Sírio, viveu no séc. VII, no espaço geográfico que hoje constitui o Qatar, junto ao Golfo Pérsico. Chegou a ser bispo de Mossul (Iraque) da Igreja Assíria do Oriente, mas depois resignou e retirou-se para o sudoeste do atual Irão, como ermita ligado a um mosteiro[2]. No último ano do seu pontificado, o Papa Francisco inscreveu este santo no Martirológio Romano que, deste modo, passou a integrar o elenco dos santos da Igreja Católica[3]. O que teria levado o Papa Francisco a esta decisão?

Embora tenha vivido há vários séculos no médio oriente e como eremita, Santo Isaac é de uma grande atualidade e importância quer a nível ecuménico, quer na comunhão e plêiade dos santos. Apesar de ter vivido longe no tempo e no espaço, e de ser aparentemente excêntrico, de facto, este santo permanece contemporâneo e enraizado no concreto, já que centrado no essencial e constitutivo do ser humano.

Eis o testemunho que dá de Santo Isaac um noviço monge do Monte Athos: “Eu descobri algo de verdadeiro, heroico e espiritual nele; algo que transcende o espaço e o tempo. Eu sinto que aqui, pela primeira vez, há uma voz que ressoa na parte mais profunda do meu ser, até então fechada e desconhecida de mim. Embora muito longe de mim, no espaço e no tempo, ele veio exatamente à casa da minha alma (…) Nenhuma outra pessoa me mostrou de forma fraterna e amiga que dentro de mim, na minha natureza humana, existe uma tal porta, uma porta que abre para um espaço aberto e ilimitado. Nenhuma outra pessoa me disse esta incrível e inefável verdade, que todo este mundo interior pertence à pessoa humana.”[4]

Ainda sobre a grande pertinência e atualidade de Santo Isaac o Sírio, transcrevemos uma importante passagem de um dos seus escritos: “O que é um coração misericordioso? É um coração que arde em favor de toda a criação: pelos homens, os pássaros, os animais, os demónios e por todas as coisas criadas. Recordando-se deles, os olhos dum homem misericordioso derramam lágrimas abundantes. Graças à misericórdia poderosa e veemente que agarra o seu coração e graças à sua grande compaixão o seu coração humilha-se e não pode suportar ouvir ou ver a menor chaga ou sofrimento na criação. Eis porque ele oferece sem cessar orações e lágrimas, mesmo pelos animais privados de razão, pelos inimigos da verdade e por todos aqueles que o prejudicam a fim de que sejam protegidos e recebam misericórdia. Do mesmo modo, ele reza pelas próprias serpentes devido à compaixão que arde ininterruptamente no seu coração à imagem de Deus”[5].

A única coisa que está ao nosso alcance é esperar, amar e rezar para que todos se salvem.

O coração universal de Santo Isaac também se reflete na perspetiva que tem acerca do inferno. Ele nunca diz que o inferno está vazio. Aliás nunca o poderia afirmar, porque seria heresia! Ele diz sim, que tem esperança de que o inferno possa estar vazio. Esta perspetiva recorda-nos Hans Urs von Balthasar (1905-1988), um dos maiores teólogos do séc. XX, que escreveu no final da sua vida a obra intitulada: Esperar por todos. O título é muito sugestivo: a única coisa que está ao nosso alcance é esperar, amar e rezar para que todos se salvem.

Inácio de Loiola é também muito sensível ao primado da interioridade como o denotam os Exercícios Espirituais: “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma mas o sentir e gostar das coisas internamente” (EE 2); ou, então, a tríplice graça do “conhecimento interno” que norteiam os Exercícios Espirituais (EE 63. 104. 233). Na Autobiografia de Inácio de Loiola, a “escola dos afetos” (escola da interioridade) tem precedência sobre a “escola das obras de misericórdia” e a “escola do intelecto”.

Celebrámos o ano passado os 1700 do Concílio Ecuménico de Niceia (325-2025), no qual se revêm as diferentes confissões cristãs (diferentes Igrejas e comunidades eclesiais). A propósito do diálogo ecuménico, concluo com uma citação do Papa Francisco que identifica no ecumenismo diferentes âmbitos complementares: “O diálogo teológico é indispensável no nosso caminho em direção à unidade, pois a unidade que buscamos é uma unidade de fé. No entanto o diálogo da verdade nunca deve ser separado do diálogo da caridade e do diálogo da vida. Os Santos dão testemunho nas respetivas Igrejas que a unidade na fé já é possível neste caminho percorrido pelos cristãos em direção à comunhão plena.” [6]

Santo Isaac o Sírio atesta uma experiência de amor tão intensa que poderíamos dizer mesmo ecuménica, “desarmada e desarmante”, ao ponto de superar preconceitos, discriminações e conflitos, abrindo deste modo a uma comunhão que não conhece fronteiras e se dispõe a acolher a todos.

[1] Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum –, Fratelli Tutti – Sobre a fraternidade e a amizade social – e Dilexit Nos – Sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus.
[2] Vatican News, “St Isaac the Syrian: Desert hermit whose voice resonates across centuries” (28 January 2024)
[3] Vatican News, “Pope: Christians in Middle East bear witness in lands martyred by war” (09/11/2024).
[4] Vatican News: “St Isaac the Syrian: Desert hermit whose voice resonates across centuries” (28 January 2024); Vatican News,“Inclusion of Isaac the Syrian in Roman Martyrology ‘a wonderful step forward’” (28/11/2024)
[5] Hilarion Alfeyev, L’univers spirituel de Isaac le Syrien, Éditions du Cerf, Paris 2019, pp. 50-51.
[6] Vatican News, “Pope: Christians in Middle East bear witness in lands martyred by war” (09/11/2024).

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.