“Marta, Marta, andas preocupada e agitada com muitas [notificações]” - Ponto SJ

“Marta, Marta, andas preocupada e agitada com muitas [notificações]”

A eficiência, quando absolutizada, desfoca-nos da magnífica humanidade e do Senhor que a criou. “Ninguém pode servir a dois senhores, porque (...) se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).

Atualmente, há quem se identifique com Marta, a amiga de Jesus que O acolhe em casa e se dispersa em muitas atividades para O servir.[1] Numa sociedade acelerada, arrisco imaginar uma Marta contemporânea como uma pessoa muito produtiva que está sempre a fazer render o seu tempo. Semelhante a um beija-flor que pica em todos os sítios. Uma Marta que até se orgulha de conseguir responder a todas as notificações, e-mails e solicitações, que meticulosamente organiza, na otimização de cada minuto do seu dia.

A pressão externa da sociedade internalizou-se nela em forma de positividade: “és livre de fazer o que quiseres, mas já podias ter feito isto, e aquilo e aquele outro”. Se ela parar a sua atividade, “porque sim”, por burnout ou até por depressão, autoculpabiliza-se dizendo: “de certeza que devia estar a fazer alguma coisa útil agora”. Marta tornou-se empresária da sua vida, querendo eliminar toda a improdutividade e negatividade, tudo o que se relaciona com o tédio, a dor, a crítica e a própria morte, como se fosse uma máquina perfeita e sem limites. O filósofo Byung-Chul Han fala-nos de como, nesse processo de otimização, o cidadão se tornou senhor e escravo de si mesmo, autovigiando-se e explorando-se, não podendo atribuir culpas a uma autoridade superior, senão a si mesmo.[2]

Marta tira o telemóvel do bolso como uma arma que mata o sentimento que estava a viver.

Para a Marta contemporânea, a eficiência é o seu maior valor, mas também o seu maior fantasma. Vive assombrada pela ansiedade das infinitas propostas e pela insatisfação das mesmas, sentindo, por exemplo, medo de ficar de fora (FOMO) e o medo de perder uma opção melhor, ao ter de escolher alguma (FOBO). Assim, evita a dor com uma injeção de estímulos constante. Não diz que não a nenhuma solicitação, facilmente se descompromete de uma atividade para ir a outra mais estimulante ou eficiente. Está numa atividade já a pensar como otimizar a próxima, vive na ansiedade da dispersão e num excesso de futuro.

Ao acordar, Marta depara-se com o dilema: cumprimentar primeiro o Senhor no seu coração ou primeiro o “senhor” telemóvel nas redes sociais? A ordem com que o faz, marca o foco do dia, porque “ninguém pode servir a dois senhores”.[3] Mais tarde, depois de alguma atividade, uma voz interior diz-lhe que já deve ter notificações “urgentes” para tratar e Marta tira o telemóvel do bolso como uma arma que mata o sentimento que estava a viver. Abre o Whatsapp ou o e-mail, “ceifa” as notificações azuis e “semeia” novas mensagens para colher mais tarde os seus frutos (um mecanismo tão viciante quanto o farmville). De seguida, abre as redes sociais e entra no mercado das emoções que a anestesiam, estupidificam e paralisam.[4] Aí, compra emoções com os segundos da sua atenção. De facto, o algoritmo seduz com poços sem fim de estímulos viciantes e hiperpersonalizados, através de um psico-programa individual que vai ao encontro dos seus desejos, até mesmo os mais inconscientes, como os sexuais, os de pertença, os de amar e ser amado. Nas redes sociais, Marta vê todos e gosta de ser vista, sabe onde todos estão para não perder nada e partilha a sua privacidade por achar que não tem nada a esconder. Byung-Chul Han fala-nos de uma sociedade que impõe a transparência total, sem respeito pela intimidade, que confunde privacidade com secretismo, onde todos se expõem voluntariamente e todos se vigiam entre si.[5]

O problema é Marta não estar inteira, mas estar dispersa, estar no autopiloto da eficiência.

Não me interpretem mal, o problema não é ser Marta, o mundo precisa de Martas! O problema é Marta não estar inteira, mas estar dispersa, estar no autopiloto da eficiência. Perdeu o sentido crítico e o autocontrolo. Cedeu lenta e progressivamente a sua verdadeira liberdade – a que serve para fazer o bem – em troca da libertinagem, da possibilidade de fazer o que apetece, mas escolhendo apenas entre as hipóteses já definidas pelo algoritmo, que prevê e manipula o comportamento.[6] Além disso, a perda de liberdade é reforçada com as ferramentas de Inteligência Artificial, apesar destas potenciarem bastante a eficiência. Esta injeção de todo o tipo de estímulos impede que Marta pare, coloque o telemóvel de parte, erga a cabeça e repare no rosto do Outro. Os minutos contados impedem que tenha momentos gratuitos de silêncio sentada aos pés de Jesus.

Um problema, quando se absolutiza a eficiência, é a pessoa instrumentalizar tudo, todos e até a si próprio. Os outros são vistos como meio para um fim útil, e são descartados quando as suas imperfeições incomodam demasiado. Nesses casos, os outros são “atropelados” e “ultrapassados”, para tornar o sistema mais rápido, eficiente e uniforme. O trabalho dos outros, em vez de os dignificar, é desconsiderado e rejeitado, humilhando-os. Numa pessoa absolutamente eficiente, a cabeça perde-se nas suas otimizações, o coração torna-se incapaz de presença e empatia, e as mãos servem sem centro, até ao próprio esgotamento.

Ter as mãos de Marta, sim, mas um coração como o de Maria, sua irmã, que reconhece o valor incondicional do Outro, enquanto pessoa e não enquanto função.

Urge, por isso, em vez de fazer muitas coisas da maneira certa (eficiência), fazer, sim, as coisas certas (eficácia), isto é, fazer o que for preciso, mas centrado no essencial. Ser contemplativo na ação, na vida-missão. Para isso, é preciso “primeiro estar, depois fazer”.[7] Ter as mãos de Marta, sim, mas um coração como o de Maria, sua irmã, que reconhece o valor incondicional do Outro, enquanto pessoa e não enquanto função. Para colocar o outro no centro, ajuda fazer uma “higiene da atenção”,[8] um jejum de tecnologias, estar disponíveis para o tédio, para construir a memória do que vai acontecendo, para reconhecer o invisível e profundo da vida. Não ter de ocupar todos os minutos, mas dar tempo à transição entre atividades e ver o tempo dilatado como tempo fértil. Tempo para a relação presencial, inteira e generosa. Tempo para estar à mesa de casa ou até “à mesa” da Eucaristia. Tempo para dar calma e paz aos outros, não os acelerar ainda mais. Tempo para ir à Fonte buscar essa paz e rezar, sabendo que ao unirmo-nos a Cristo, unimo-nos também aos outros.

Além disso, o Papa Leão XIV recorda “que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites. (…) É precisamente na nossa limitação que encontram espaço a compaixão, a sincera preocupação perante as necessidades dos outros, a generosidade que surpreende mesmo no meio da escuridão e do fracasso, a experiência espiritual e a adoração de Deus.”[9]

Para terminar, advertiria a Marta que “não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente.”[10] E  “(…) a humanidade – magnífica e ferida – não deve ser substituída nem superada: pode acolher [a eficiência e] os progressos da técnica para aliviar os sofrimentos e abrir novas possibilidades, desde que não renuncie ao que lhe permite ser ela mesma, ou seja, à capacidade de relação e amor.”[11]

 

[1] Cf. Lc 10, 38-42.
[2] Ver mais em: Byung-Chul Han, Psicopolítica: Neoliberalismo y nuevas técnicas de poder, trad. Alfredo Bergés (Barcelona: Herder, 2014), p. 12ss.
[3] Cf. Mt 6, 24.
[4] Ver mais sobre “capitalismo das emoções” em: Han, Psicopolítica, 65ss.
[5] Ver mais em: Byung-Chul Han, A Sociedade de Transparência (Lisboa: Relógio D’Água, 2014), p. 24ss.
[6] Ver mais em: Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power (New York: PublicAffairs, 2019).
[7] Inspirado nos guiões de espiritualidade para os campos inacianos de 2026.
[8] Leão XIV, Magnifica Humanitas: Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial (15 de maio de 2026), §146.
[9] Leão XIV, Magnifica Humanitas, §118-119.
[10] Exercícios Espirituais 2, 4.
[11]Leão XIV, Magnifica Humanitas, §126.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.