Há pessoas cuja vida é, por si mesma, uma transparência de Deus. Para mim, o Padre João foi uma delas.
Conheci o Padre João Felgueiras em Díli, onde vivi com o meu marido e os nossos filhos, então com dezoito meses e quatro anos de idade, entre 2012 e 2015. Nessa altura, trabalhava como assessora no Ministério da Educação de Timor-Leste.
Recordo a sua figura frágil, mas habitada por uma serenidade e uma fortaleza que nasciam de uma vida profundamente unida a Deus. Vestia sempre a habitual batina branca e, nos bolsos levava pequenas pagelas que oferecia a quem encontrava, sobretudo às crianças e aos jovens, depois de lhes dar a bênção. Era uma das suas formas de semear o Evangelho.
Sempre que lhe dizia que vinha a Lisboa, fazia-me o mesmo pedido: que, se pudesse, lhe procurasse pagelas, em especial, com a imagem do Santíssimo Sacramento, tantas vezes difíceis de encontrar nas lojas religiosas da Baixa. Era uma alegria regressar a Díli e poder entregar-lhas, sabendo que cada uma daquelas pequenas imagens seria, nas suas mãos, uma semente confiada ao Espírito Santo.
Durante os anos em que vivi em Timor, procurei o Padre João com alguma regularidade para conversar e lhe pedir conselho. Tinha o raro dom de reconduzir tudo à luz de Deus. A sua sabedoria era firme e serena, profundamente enraizada na oração e numa vida inteiramente oferecida ao Senhor. Muitas vezes, bastava permanecer algum tempo em silêncio junto dele para regressar a casa com o coração pacificado. Era um daqueles homens cuja simples presença nos fazia sentir que Jesus continua a caminhar connosco.
Guardo com especial carinho as conversas que tínhamos no Centro Juvenil Padre António Vieira, em Díli. Sentávamo-nos num banco, à sombra, junto às árvores. Falávamos da catequese; da Escola Amigos de Jesus, que então ainda habitava apenas o seu coração e a sua esperança; e do primeiro grupo CVX que começava a nascer, reunindo portugueses e timorenses, impulsionado pela visita do P. Alberto Brito, sj.
Foi numa dessas conversas que me explicou por que insistia tanto nas pagelas. Disse-me: “Mostrem as imagens da hóstia consagrada às crianças, mesmo aos bebés, quando ainda não falam. Rezem em voz alta. Tudo isso fica gravado na memória mais profunda. Alimenta a alma.” Nunca esqueci estas palavras. Hoje reconheço nelas toda a sua maneira de evangelizar: semear pacientemente, sem ansiedade pelos frutos, confiando que Deus faria crescer a semente.
Hoje reconheço nelas toda a sua maneira de evangelizar: semear pacientemente, sem ansiedade pelos frutos, confiando que Deus faria crescer a semente.
Recordo também uma noite em que o Padre João e o Padre Martins jantaram em nossa casa. Trouxeram-nos o livro “Nossas Memórias de Vida em Timor” autografado por ambos, que testemunhava os anos difíceis da ocupação indonésia. Durante horas, partilharam connosco memórias desse tempo de perseguição, medo e sofrimento.
Impressionou-me a forma como falavam daqueles anos. Não havia qualquer sombra de heroísmo. Apenas a humildade de quem sabia que tudo recebera de Deus. O medo existia, reconheciam-no sem rodeios.
Nessa noite, entre tantas memórias, ficaram também as histórias do ensino da língua portuguesa, que era proibido durante a ocupação indonésia, ajudando a preservar a língua como lugar de identidade e de resistência; do apoio discreto à resistência timorense; e da correspondência e circulação de mensagens, tantas vezes feitas em segredo e com grande risco. Talvez por isso o respeito que os timorenses lhe tinham não nascesse apenas da sua bondade de Bom Pastor, mas também desse lado heroico, que o povo reconhecia e guardava na memória.
O Padre João falava, por vezes, do amor profundo que tinha por Timor e pelos timorenses. Dizia que, mesmo depois de tantos anos de vida partilhada, ainda não conhecia bem a alma do povo de Timor. Sempre me tocou esta afirmação. Era o espanto humilde de quem não deixa de aprender, de contemplar e de amar sempre mais.
Entre as memórias que guardamos com maior carinho, enquanto família, está a de dezembro de 2014, quando celebrávamos dez anos de casamento. Fomos pedir ao Padre João que presidisse a uma pequena celebração de renovação dos votos, na presença dos nossos filhos e de alguns amigos. Mas ele compreendeu de outra maneira. Levantou-se, pegou no missal e pediu apenas que o levássemos de carro até à igreja.
Não tivemos coragem de o contrariar.
Entretanto, já caíra a noite. Na igreja estávamos apenas nós, o Padre João e Deus.
Ali, na simplicidade daquele momento inesperado, renovámos os nossos votos. Não houve preparação, convidados nem fotografias. Apenas a verdade daquele instante diante do Senhor, guiados por aquele sacerdote que tantas vezes nos ajudara a reconhecer Deus escondido no quotidiano e no essencial.
Quando saímos, andámos durante algum tempo de carro pelas ruas de Díli antes de regressar a casa. Tínhamos o rosto coberto de lágrimas. Não eram lágrimas de tristeza, mas daquela alegria serena que, por vezes, Deus concede como confirmação da Sua presença. Foi um desses raros momentos em que percebemos, sem necessidade de palavras, que a graça tinha passado por nós.
Hoje dou graças a Deus pelo dom de o termos conhecido. Há encontros que mudam uma vida, porque nos ajudam a reconhecer a ação de Deus na nossa própria história. O Padre João foi um desses encontros.
A última vez que vi o Padre João foi em 2022, quando regressei a Díli, em trabalho, e o visitei com uma querida amiga. Estava mais frágil e quase não ouvia. Mas permanecia lúcido e pareceu reconhecer-me.
Quis oferecer-nos a pagela do seu centésimo aniversário. Tentámos ajudá-lo a levantar-se. Não deixou. Muito devagar, sozinho, caminhou até à estante para a ir buscar.
Com mais de 100 anos, permanecia intacta a alegria de dar. Dar uma pagela. Dar uma bênção. Dar-se.
A sua longevidade parecia ainda mais extraordinária em Timor, um país onde a esperança média de vida continua a ser baixa e onde tantas vidas são marcadas pela pobreza e insuficiente acesso a cuidados de saúde.
Hoje dou graças a Deus pelo dom de o termos conhecido. Há encontros que mudam uma vida, porque nos ajudam a reconhecer a ação de Deus na nossa própria história. O Padre João foi um desses encontros.
Em Timor, muitos o consideravam santo. Tínhamos por ele uma reverência feita de respeito e afeto — como quem reconhece, numa vida simples e próxima, uma santidade que se deixa tocar no quotidiano. A sua autoridade vinha da sua fé luminosa, da sua fidelidade e coerência de vida. Via-se isso também nas ruas de Díli e, de modo especial, no fim da missa de Balide. Eram muitas as pessoas que se aproximavam dele, que o rodeavam com naturalidade e reverência, pedindo-lhe a bênção. Havia naquele simples gesto algo de muito profundo: uma confiança simples, filial, como se reconhecessem nele não apenas o sacerdote ancião e amigo, mas alguém cuja vida lhes era doada.
Continuará certamente a viver na memória do povo timorense. Mas viverá também na memória da nossa família, que recebeu a graça de crescer com a sua amizade e do seu testemunho de santidade.
E gosto de imaginar que aquele sacerdote jesuíta, de batina branca, que durante tantos anos distribuiu pequenas imagens do Santíssimo para que ninguém se esquecesse de Jesus, contempla agora, face a face, Aquele que amou, serviu e seguiu durante cento e cinco anos.
E acredito que continua a fazer, junto de Deus, o que fez durante toda a vida: conduzir-nos, discretamente, para Cristo, ajudando-nos a procurar e encontrar Deus em todas as coisas.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
