No nosso último artigo apresentamos seis recomendações de Santo Inácio para o modo de comunicar, que nasceram de uma sua instrução dada aos companheiros jesuítas enviados como “legados de concórdia” para debates durante a reforma protestante. O ambiente era tenso, com posições marcadas e defendidas de modo acérrimo, por vezes com a razão e não raramente com as vísceras. Escolhemos apresentá-las porque encontramos nestes nossos dias alguns modos de comunicação violenta generalizada, que geram um “à vontade” de mãos nos bolsos para com o insulto fácil, a misoginia corriqueira e a insensibilidade relacional.
Bem podemos olhar para Deus e compreender que é da sua natureza comunicar e comunicar-se, porque Deus é amor e o amor gera comunicação. E comunicar não é apenas falar ou conversar. Vemos como a comunicação de Deus é eloquente e, no entanto, não lhe ouvimos uma voz literal. Comunicar diz respeito à partilha que torna comum algo que, à partida, poderia ser apenas individual. É deste modo que compreendemos melhor como comunicar e comungar são, na origem, a mesma palavra: communicare.
Para os católicos, para quem a palavra comungar tem um peso sacramental, isto não pode passar despercebido. É por isso que o Papa Bento XVI afirma que “a mística do Sacramento tem um carácter social, porque, na comunhão sacramental, eu fico unido ao Senhor como todos os demais comungantes. (…) Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou tornarão Seus.” Assim, “a comunhão tira-me para fora de mim mesmo projetando-me para Ele” (Deus Caritas Est, 14).
Há uma comunicação que é comunhão criativa, que é o modo de Deus agir. Uma comunicação onde nós entramos por graça do amor que antes nos é dado. Porque Deus é amor, comunica-se dando-se. Dando-se na comunidade que há entre Pai e Filho e Espírito Santo, e dando-se à humanidade, fazendo-a saborear e tomar parte dessa comunhão de amor. Deus não é solitário, mas solidário: o seu projeto é a comunhão de tudo em Si, aí reside a redenção. “Deus é amor misericordioso e o seu projeto de amor, que se estende e realiza na história, é primeiramente o seu descer e vir estar entre nós para nos libertar da escravidão, dos medos, do pecado e do poder da morte.” (Leão XIV, Dilexi Te, 16).
Enquanto cristãos, há uma parte que nos compete e a que nos move o nosso amor a Deus: viver a construir esta comunhão, porque Deus se comunica em nós e através de nós, “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai” (Mt 5, 16). O nosso papel é, na nossa humildade, sermos assumidos neste amor de Deus para amarmos como Ele. Assim poderemos comunicar o que realmente interessa, porque quem nos olha pode ver a Deus. À imagem de Deus, este modo de estar no mundo é imagem do amor que não deixa que a pessoa continue em si mesma. Comunicar-se como Deus se comunica é um movimento de saída, extrovertido (virado para fora), que podemos traduzir como serviço.
Pelo serviço unimo-nos mais intensamente ao Senhor que já nos serve a nós e ao mundo.
O serviço, compreendido com a chave inaciana dos Exercícios Espirituais (EE), não é o ato de fazer coisas para alguém ou por alguém, mas uma colaboração ativa com Deus na sua obra de redenção. É uma atitude de quem, cheio da vida e do amor de Deus, transborda essa vida e esse amor. O serviço nasce do desejo vibrante de seguir e imitar Jesus, que convida quem d’Ele se aproxima a ir e trabalhar com Ele, para conquistar todos para Si e para a glória do Seu Pai (EE 95). Segui-lo e imitá-lo é para seu “maior serviço e louvor” (EE 98).
Este serviço é o seguimento dado aos dons de Deus recebidos. Assim, já no final dos Exercícios Espirituais, Santo Inácio convida a pedir a Deus “o conhecimento interno de tanto bem recebido, para que eu inteiramente reconhecendo, possa em tudo amar e servir a sua divina majestade” (EE 233). “Todos os bens e os dons descem de cima” (EE 237) e são confiados ao Homem que, em comunhão com Deus, serve como Ele serve: amando, comunicando esses bens e esses dons.
Neste nosso serviço, Deus não nos deixa sós. Também Ele “trabalha e labora por mim em todas as coisas criadas sobre a face da terra” (EE 236). Portanto, pelo serviço não apenas damos de graça o que de graça recebemos (Mt 10, 8), mas unimo-nos mais intensamente ao Senhor que já nos serve a nós e ao mundo, continuamente.
Essa maior união cria maior semelhança e, se este modo de serviço nos torna mais semelhantes a Deus, torna-nos também mais verdadeiramente nós próprios, porque é à Sua imagem e semelhança que fomos criados. Quer isto dizer que escolher o fechamento e a trincheira nunca há de preservar a nossa identidade verdadeira, porque essa só se encontra na comunicação e comunhão, entre Homens e com Deus.
Estar ao serviço de Deus e servir como Ele serve significa, então, aprender de Deus a comunhão que Ele mesmo é e, movidos pelo seu amor e desejo de O servir, imitar a sua abertura que permite a cada um acolher-se no seu coração e ser transformado.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
