No nosso último artigo, debruçamo-nos sobre os enganos que podem surgir na dimensão social do seguimento de Cristo. Como temos visto ao longo dos anos, é muito fácil ter Cristo na boca, mas o mais importante é viver com Cristo como referência interior, cujo Estilo se reflete nas nossas escolhas, da mais pequena à maior, da irrisória decisão doméstica à opção política. A base desta forma de vida é o diálogo vivo com o próprio Cristo, que, pela fé, acreditamos comunicar-Se através dos irmãos.
Mas a comunicação nem sempre é evidente e a nossa análise gerou alguma discussão. Atentos a estas diferenças de opinião e à fecundidade do debate, queremos olhar para o que vem antes dos diferendos e confrontos, reais ou virtuais: a nossa forma de comunicar em cenários menos óbvios. Propomo-nos percorrer o roteiro para um bom diálogo, na esperança de que esta tomada de consciência – também nossa – possa aproveitar aos debates e conversas futuros dos nossos leitores, antes que o temperamento e a emoção levem a melhor.
Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais (EE), afirma que “o amor consiste em comunicação das duas partes, a saber, em dar e comunicar o amante ao amado o que tem ou do que tem ou pode; e, vice-versa, o amado ao amante […].” (EE 231,1) (nota 1). Esta definição aparece no final deste caminho, na Contemplação para Alcançar Amor, um exercício de síntese em que o exercitante é convidado a tomar consciência da presença de Deus em toda a sua vida, como quem desperta para uma nova realidade, e a responder-lhe com toda a sua vida. Este exercício funda-se numa íntima comunicação entre o Criador e a criatura, um diálogo que permite alargar o horizonte da pequena visão humana à visão universal de Deus sobre cada um.
Para um cristão, o diálogo é importante não apenas como exercício humano, entre pessoas, mas sobretudo como operação de fé. Saber conversar permite-nos aceder a esta nova visão, fundada na relação viva com Deus.
Para um cristão, o diálogo é importante não apenas como exercício humano, entre pessoas, mas sobretudo como operação de fé. Saber conversar permite-nos aceder a esta nova visão, fundada na relação viva com Deus. Assim, damos carne à célebre máxima de S. Ireneu de Lyon: “A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus”. A comunicação, fundada na justa relação com Deus (Criador) e com os irmãos (criaturas), é um exercício de contínua sintonização com esta visão, atualizando-a em cada momento e em cada relação.
Contudo, vemos que, tanto ao vivo como em plataformas digitais, o diálogo assume formas desumanizantes, que excluem o outro do diálogo em favor de pré-conceitos, da vontade de “ter razão”, de narrativas tendenciosas… A maioria destas, ao que nos parecem, resultam duma redução do outro, da sua dignidade única e irrepetível, a uma parte: a sua opinião política, a sua visão acerca da cultura, as suas opções morais… O outro torna-se parte, o corpo é apenas mão, a relação fica amputada na sua fecundidade. Fica-nos a questão: como manter a justa comunicação quando somos acossados por estas tendências, quando os ânimos se inflamam? Como manter a comunicação entre nós como cumprimento da visio Dei?
Em 1546, a pedido do Papa, Inácio de Loyola enviou dois jesuítas ao Concílio de Trento. O cenário era de crise, apenas trinta anos passavam desde que Lutero publicou as Teses de Wittenberg, a Igreja estava em convulsão. Ante este cenário, Inácio enviou dois dos seus como legados de concórdia, dando-lhes um conjunto de instruções acerca do modo de conversar neste cenário tenso [nota 2]. Cremos que as suas recomendações (com as devidas adaptações para uma linguagem mais contemporânea) nos podem aproveitar nesta nossa busca:
I. A conversa prepara-se, sobretudo quando tratamos de assuntos difíceis. “[Pois] quanto mais formos prevenidos e de alguma forma preparados, tanto mais iremos tranquilos no Senhor nosso”
II. Ouvir com atenção é essencial para entrar em relação! Ouvir com amor e consideração “ajudando-me no ouvir, calmo para sentir e conhecer os juízos, afetos e vontades dos que falam, para melhor responder ou calar.”
III. Todos temos uma opinião, à qual temos apego. Por isso, é importante procurar um ponto de partida neutro (por vezes mais distante da minha inclinação), reconhecendo as razões do outro e dando-lhe crédito no que merecem.
IV. É preciso ter especial atenção às fontes que se usam/citam no diálogo. Um autor ou fonte usado sem critério pode ser uma forma subtil de matar o diálogo, desviando-o para a minha opinião
V. Quando tiver necessidade de argumentar, expor o argumento com calma e tranquilidade. Mesmo quando achamos que temos razão, é essencial que haja espaço para pôr-se/ser posto em causa.
VI. Quanto mais difícil ou sensível é o assunto, mais importante é falar com tempo, sem pressas ou afãs de terminar logo a conversa. Mais do que olhar à “própria comodidade”, é essencial dar o tempo necessário para que se construa a confiança necessária à boa comunicação
Lidos rapidamente, temos um conjunto de preceitos que parecem um compêndio razoável de bom-senso. Mas uma leitura mais detalhada denota uma grande delicadeza no trato, cuidando particularmente da forma como se diz ou veicula a opinião: preparar o encontro, buscar o outro nas suas especificidades, ter cuidado e parcimónia na forma de argumentar… Podemos ver como Inácio nos convida a estar diante do sacramento do Outro. Bebendo do seu treino diplomático na corte de Arévalo, o santo aproveita este património para nos lançar num caminho de atenção que não é senão um caminho de Caridade. O diálogo serve porque é a forma do Amor. O centro da minha atenção está no Outro com quem dialogo, naquilo que ele mesmo me diz e mostra – que é muito mais que sua opinião sobre determinado assunto! – e que é o meio ambiente onde este Amor floresce.
Diante desta proposta, há duas opções: aderir o melhor que posso ou bater em retirada. Esta forma de diálogo é mais exigente, mais laboriosa e, francamente, mais custosa! Por isso, é lícito assumir que não quero, que não estou para me maçar, que não tenho energia para tanto: é um risco que cabe a cada um correr ou não. Este risco, que é o risco da comunhão, consiste em afirmar existencialmente que “Tu importas, com tudo o que trazes”, mesmo quando isso é fonte de incómodo para mim e me exige uma reconfiguração. Recusar este desconforto, em detrimento da “própria comodidade”, – isto é, optar pela própria opinião a priori, sem se expor realmente à diferença que o outro traz- introduz-nos numa entropia inelutável, num mundo feito à própria medida, talhado segundo os próprios preconceitos e vieses. E não podemos esperar que, semeando esses ventos, não venhamos a colher tempestades nas nossas relações.
Recusar este desconforto, em detrimento da “própria comodidade”, – isto é, optar pela própria opinião a priori, sem se expor realmente à diferença que o outro traz- introduz-nos numa entropia inelutável, num mundo feito à própria medida, talhado segundo os próprios preconceitos e vieses.
Comunicar verdadeiramente é difícil, não nos enganemos! Estamos permanentemente ligados, em trocas contínuas de informação e opinião – às vezes confundimos uma e outra. Mais ainda, estendemos estas interações do mundo real ao mundo virtual, em que as entoações se diluem e, inevitavelmente, a comunicação é mais veloz e, tantas vezes, mais impessoal. Por isso, é preciso estar atento: mesmo de boa intenção, podem nascer as parcialidades, as argumentações empoladas por uma emoção, por uma experiência circunscrita que me confirma na “minha verdade” – mas isto não é diálogo.
Diante deste Deus, que Se comunica Ele mesmo a cada um de nós (EE 234), é-nos oferecida a possibilidade de tomar parte nesta vida dialógica: em primeiro, com o Criador e, por extensão, com cada um dos irmãos, Suas criaturas. Entrando em diálogo, abrindo em nós o espaço para outro – como Deus Infinito abriu em Si o espaço para cada um, na Sua Cruz – reconhecemos a sua dignidade de filho amada e, por isso, digno da nossa atenção e consideração (nota 3). A nossa forma de dialogar é a nossa forma de imitar a Cristo, no Seu acolhimento radical – que não foi sem custo!
As seis recomendações de S. Inácio são um convite a um exame sério da nossa forma de comunicar, do interesse e tempo que dedicamos a conhecer o outro, da forma como usamos a nossa argumentação para nos defendermos ou para ter razão. Claro que podemos cingir-nos aos pontos neutros, mas tenhamos a coragem de nos expormos nos nossos pontos mais cegos, nesses assuntos em que mais facilmente perdemos as estribeiras, em que somos mais senhores da verdade que o próprio Deus! Este confronto é via de crescimento, colocando esta dimensão da nossa vida diante de Deus em diálogo real e efetivo. Só assim a vida do Homem, de cada homem e mulher concretos e em relação, poderá cumprir cada dia a visão de Deus.
Referências:
1.Ignatius de Loyola, Exercícios espirituais, trad. Mário Garcia, SJ (Editorial A.O., 2016).
2. Halík, Tomáš. Touch the wounds: on suffering, trust, and transformation. English language. Traduzido por Gerald Turner. University of Notre Dame Press, 2023.
3. Ignatius de Loyola. Exercícios espirituais. Traduzido por Mário Garcia, SJ. Editorial A.O., 2016.
Ignatius de Loyola. Obras. 1a. BAC. Maior 104. Biblioteca de Autores Cristianos, 2013.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
