Verão Ponto SJ: “Escolhe a melhor parte” - Ponto SJ

Verão Ponto SJ: “Escolhe a melhor parte”

Escolher a melhor parte é o que Cristo nos convida a fazer este verão. Não há que escolher entre Marta e Maria, mas sim aprender a ser Marta com coração de Maria.

Escolher a melhor parte é o que Cristo nos convida a fazer este verão. Não há que escolher entre Marta e Maria, mas sim aprender a ser Marta com coração de Maria.

Nestas semanas de verão, o Ponto SJ propõe a habitual rubrica semanal, Férias com Deus, desta vez inspirada na história de Marta e Maria, um texto evangélico sobejamente conhecido, que merece ser relido sem pressa, deixando que cada palavra encontre eco na nossa vida.

Ao longo das próximas 5 semanas, todas as terças-feiras, nas redes sociais do Ponto SJ, poderá encontrar uma reflexão sobre esta passagem do Evangelho segundo São Lucas. Iremos percorrer este excerto seguindo o itinerário espiritual proposto pelos campos de férias inacianos a todos os participantes e cujo tema é: «Escolhe a melhor parte».

Ao longo das próximas 5 semanas, todas as terças-feiras, nas redes sociais do Ponto SJ, poderá encontrar uma reflexão sobre esta passagem do Evangelho segundo São Lucas.

Segundo a narração bíblica, Jesus entra numa aldeia e é acolhido por uma mulher, chamada Marta, que vivia com Maria, sua irmã. Podemos imaginar que partilharam mesa e que, no final da refeição, Marta encarrega-se de arrumar a cozinha enquanto Maria fica com Jesus, sentada aos seus pés, escutando-o. É então que Marta, que tinha muito que fazer, dá nota do seu descontentamento a Jesus. Sentindo a sua dispersão, Jesus chama-a pelo nome e desafia a focar-se no essencial.

Antes de avançarmos, recordemos o texto que inspira este caminho, tal como surge no Evangelho segundo São Lucas (10, 38-42).

38 Prosseguiram, então, a viagem, e Ele entrou numa certa povoação. Acolheu-o uma mulher, chamada Marta. 39 Esta tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés do
Senhor, escutava a sua palavra. 40 Marta, porém, andava de um lado para o outro com muito serviço. Entretanto, parou e disse: «Senhor, não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». 41 O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas preocupada e agitada com muitas coisas, 42 quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.

Este episódio é exclusivo de São Lucas e tem temas tipicamente lucanos, como a escuta da palavra, o discipulado feminino e a hospitalidade. A expressão “sentar-se aos pés” tem uma forte carga rabínica, pois esta é a posição do discípulo, o que tendo em conta o género de Maria, é culturalmente surpreendente. Através deste episódio, São Lucas está a afirmar que a escuta da Palavra é constitutiva do discipulado, e que este está aberto a homens e a mulheres. Ao longo da tradição cristã, sobretudo a partir de Santo Agostinho e de São Gregório Magno, este episódio foi muitas vezes interpretado como um contraste entre duas formas de viver a fé: Marta representaria a ação e Maria a contemplação. Com o tempo, esta leitura deu origem a uma oposição simplificadora, em que Marta aparece como símbolo da dispersão e Maria como modelo de perfeição espiritual.

A exegese moderna tende a contrariar esta oposição, chamando a nossa atenção para Jesus e a dificuldade por ele identificada: não é tanto a ação o alvo das palavras de Jesus, mas sim a ansiedade dispersiva. Jesus não condena o serviço, mas aponta o centro, a ‘única coisa necessária’: a relação com Ele, fundamento de toda a ação.

O foco não está na falsa oposição entre ação e oração, mas na passagem da dispersão à unificação interior. Devemos ter prudência ao longo das férias na abordagem deste Evangelho, evitando uma leitura fácil que nos leva a apontar o dedo a Marta, aquela que estava “errada” no fazer. Devemos, isso sim, reconhecê-la como alguém que está dispersa na ação. Evitemos a falsa diatribe entre Marta e Maria. Apostemos naquilo a que Cristo nos chama: sermos Martas com coração de Maria. Ou ter coração de Maria nas mãos de Marta. É aqui que reside a mais-valia desta passagem. É esta a conversão por viver e a que somos chamados. Atuar com o coração centrado em Jesus Cristo, prontos e disponíveis para a sua santíssima vontade.

São Lucas apresenta-nos, com esta simples história quatro chaves teológicas centrais: o primado da escuta, que nos recorda que mais do que fazer muitas coisas por Ele, há que estar com Ele; a unidade entre oração e ação, numa hierarquia de fundamento, com a ação a alimentar a oração mas tendo a oração como princípio despoletador; hospitalidade exterior e interior, acolhendo Jesus na casa e no coração; a inquietação como categoria espiritual, pois é sinal de dissonância e dispersão interiores. A inquietação pode mover-nos a procurar a cura junto de Jesus, numa conversão de vida que nos permite acertar passo com o Espírito Santo, pelo que não é de desprezar ou simplesmente suprimir.

Em suma, este texto não contrapõe ação e oração. Mostra-nos antes uma ordem interior: a escuta precede, purifica e orienta a ação. Podemos dizê-lo do seguinte modo: não há que escolher entre Marta e Maria, mas sim aprender a ser Marta com coração de Maria.

Ao longo deste percurso, deixemo-nos interpelar pela pergunta que atravessa esta passagem: o que ocupa hoje o centro do nosso coração?

Boas férias!

 

*este texto é inspirado no guião dos campos de férias inacianos 2026

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.