Para que trabalhamos? Pensar a dignidade do Trabalho - Ponto SJ

Para que trabalhamos? Pensar a dignidade do Trabalho

Dizer que o trabalho dignifica a pessoa incluirá qualquer forma de trabalho? Terá o trabalho valor em si mesmo, independentemente do que se faz?

O trabalho é uma dimensão da vida que nos toca a todos, um “bem árduo” que ocupa grande parte das nossas vidas e em que nos encontramos imersos diariamente. Porém, passa despercebido o seu papel, a forma como o encaramos, que significados lhe são dados e como nos relacionamos com ele. Raras são as vezes que nos debruçamos sobre esta dimensão com profundidade e verdadeira reflexão. Inspirados no debate social dos nossos dias, debruçamo-nos sobre o tema “dignidade do trabalho”. E várias são as questões que surgem: o que é que confere dignidade ao trabalho? A utilidade? O valor objetivo? O reconhecimento pela sociedade?

Tendo por base a Doutrina Social da Igreja, existem duas dimensões do trabalho: a objetiva e a subjetiva. Assim, o trabalho, como podemos ler no Compêndio da Doutrina Social da Igreja (§270-271) “em sentido objetivo é o conjunto de atividades, recursos, instrumentos e técnicas de que o homem se serve para produzir, para dominar a terra, segundo as palavras do Livro do Génesis. O trabalho em sentido subjetivo é o agir do homem enquanto ser dinâmico, capaz de levar a cabo várias ações que pertencem ao processo do trabalho e que correspondem à sua vocação pessoal: Em sentido subjetivo configura-se, por sua vez, como a sua dimensão estável, porque não depende do que o homem realiza concretamente nem do género de atividade que exerce, mas só e exclusivamente da sua dignidade de ser pessoal. (…) A subjetividade confere ao trabalho a sua peculiar dignidade, que impede de considerá-lo como uma simples mercadoria ou um elemento impessoal da organização produtiva.” A partir deste texto, a pessoa é colocada no centro da questão como “o parâmetro da dignidade do trabalho”, para a qual se deve orientar a organização dos sistemas económicos e sociais, de forma a respeitar esta premissa. Porém, dizer que o trabalho dignifica a pessoa incluirá qualquer forma de trabalho? Terá o trabalho valor em si mesmo? Independentemente do que se faz?

Somos facilmente reduzidos a um número numa cadeia de produção fragmentada, seja numa fábrica ou num escritório.

De acordo com David Graeber, não. Traz-nos, por isso, o autor o conceito de bullshit jobs, que introduz uma ideia desconfortável para descrever várias formas de trabalho do nosso tempo, funções que, embora bem remuneradas, parecem não ter qualquer propósito, sendo desprovidas de significado. Trata-se de trabalhos que criam falsas necessidades e conduzem à alienação de quem os executa, que muitas vezes acaba por admitir que nem precisam de existir ou que poderiam ser facilmente substituídos por diferentes formas de tecnologia. Chega-se, assim, ao ponto de considerar um privilégio de poucos sentirem o trabalho como missão e como contributo real para o bem da comunidade, com o risco de daí emergir ressentimento.

Nesta lógica, o trabalho é visto como uma inevitabilidade, quase como um castigo, uma dor que temos de suportar. Torna-se um meio inescapável para a obtenção de ganhos externos, também tão necessários. Neste contexto, fará sentido falar do sentido do trabalho? O perigo moderno, identificado por Richard Sennett em A Corrosão do Carácter, reside na fragmentação das cadeias de trabalho complexas, que nos impede de reconhecer o fruto do que fazemos. Somos facilmente reduzidos a um número numa cadeia de produção fragmentada, seja numa fábrica ou num escritório. Quanto mais lucrativos, melhor. Desvaloriza-se o julgamento, a reflexão individual e o uso das capacidades próprias de cada um. Sem consideração por quem somos, nem pelo como e pelo porquê do que fazemos. Primeiro o lucro, depois a pessoa. Esta falta de sentido ataca diretamente a dimensão subjetiva do trabalho.

Por outro lado, inspirados nos textos de William Hasselberger, são-nos propostos como elementos dignificantes do trabalho a agência, isto é – a capacidade de decidir e agir -, a compreensão do que se faz e de para que se faz – o sentido da tarefa – , bem como a possibilidade de aplicar e desenvolver as próprias capacidades. Por fim, é reconhecido o valor do próprio trabalho. Aqui, a recompensa não se centra tanto em ganhos externos, como bens materiais ou reconhecimento social, mas antes numa recompensa interna, que provém de fazer bem algo que é, em si mesmo, bom. Assim, de acordo com as palavras de Wendell Berry, o trabalho pode tornar-se um modo de “cumprir a nossa vocação”, tendo como medida o amor; pelo que fazemos, pelo lugar onde o fazemos, pela forma como o fazemos e por aqueles para quem o fazemos.

A espiritualidade inaciana desafia-nos também a procurar o Magis nesta dimensão do trabalho. Procurar o que Deus quer para mim, desejar o que nos conduz para o fim a que fomos criados. Somos cocriadores e o trabalho é um contributo para a construção da obra de Deus no mundo. Daqui surge o grande desafio de ser consequente destes princípios. E isto exige-nos coragem. Será que o meu trabalho atual é um “serviço ao próximo” ou apenas um “meio de exploração”? Isto pode implicar repensar as relações entre as pessoas e as estruturas das nossas organizações, de modo a recuperar o horizonte e o propósito do nosso trabalho, de criar espaços de cuidado da dignidade de quem trabalha connosco ou para nós. Trata-se de resgatar a preeminência do sujeito sobre o objeto.

Chegados aqui, concluímos com o excerto da Carta Laborem Exercens de João Paulo II (§6), que nos diz que  “(…) embora seja verdade que o homem está destinado e é chamado ao trabalho, contudo, antes de mais nada o trabalho é « para o homem » e não o homem « para o trabalho». E por esta conclusão se chega a reconhecer justamente a preeminência do significado subjectivo do trabalho sobre o seu significado objectivo.” Num mundo que tenta reduzir o trabalhador a “capital humano” ou a uma estatística de produtividade, a nossa missão como comunidade é afirmar que o parâmetro de todo e qualquer trabalho permanece sempre o mesmo: a dignidade inalienável da pessoa que o realiza. E que somos chamados a agir nas nossas atividades como cocriadores e fiduciários da obra e criação de Deus.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.