Há alguns anos, comprar online era quase uma extravagância. Hoje é o gesto mais banal do mundo: um impulso, dois cliques, e o objecto desejado começa a atravessar continentes para chegar à nossa porta. Não pensamos muito no assunto, basta-nos a sensação breve de ter encontrado “um bom negócio”.
Mas, de vez em quando, vale a pena parar e perguntar: o que é que realmente está a acontecer quando compramos assim? E, sobretudo, que tipo de relação com o mundo é que isto nos está a ensinar?
Plataformas como a Temu ou o AliExpress cresceram porque prometem facilidades imediatas. E nós, cansados e sempre a correr, habituamo-nos a aceitar essa promessa sem grande resistência. No entanto, basta um olhar mais atento para perceber que “o barato” tem um preço alto, ambiental, social e espiritual só que, quase sempre, é pago longe dos nossos olhos.
1. O planeta transformado em embalagem
A maior parte dos artigos chega em envios individuais, (afinal só compramos uma coisinha, que nos vai finalmente mudar), vindos de muito longe. Cada um deixa uma pegada (jurássica) muito significativa: emissões, plástico, resíduos. O contraste é evidente, na realidade, um paradoxo: quanto mais descartável é o objecto, mais duradouro o impacto que gera. Se queremos consumir responsavelmente, precisamos de reconhecer esta realidade.
O número de encomendas (apenas) aumentou de 1,4 mil milhões em 2022 para 4,6 mil milhões em 2024.
Ao comprarmos um cabo USB de 20 gramas (imaginemos), ele chega dentro de um saco plástico, envolto em plástico-bolha, transportado numa embalagem de cartão e enviado sozinho numa viagem de mais de 10 mil quilómetros. O material usado para proteger o produto pode facilmente pesar mais do que o próprio produto.
2. O preço escondido dos preços baixos
Nada é tão barato sem que alguém pague a diferença. Muitos destes produtos resultam de trabalho duro, mal remunerado, em condições frágeis e muitas vezes através de trabalho infantil (imagine-se a si com 10 anos a trabalhar). Não se trata de culpar quem compra, mas de admitir que há aqui um desequilíbrio moral. Se algo nos chega quase sem custo, é porque o custo ficou do outro lado do mundo.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho e a UNICEF, cerca de 138 milhões de crianças encontram-se actualmente em situação de trabalho infantil no mundo. Ao mesmo tempo, investigações recentes em fábricas fornecedoras da fast fashion identificaram jornadas superiores a 75 horas semanais. Não sabemos quem fez cada produto que recebemos em casa, mas sabemos que a corrida global ao preço mais baixo continua a exercer uma enorme pressão sobre quem produz.
3. Quando o barato sai caro e empobrece
Estes preços irrealistas fragilizam o comércio local e empobrecem comunidades. E, paradoxalmente, não beneficiam o consumidor: um objecto que dura duas semanas é, no fim, mais caro. Ficamos com mais resíduos, mais frustração e menos relação com quem produz.
Mas o impacto não se mede apenas em euros. Cada compra é também um voto no modelo económico que queremos sustentar. Quando o consumo se desloca para grandes plataformas globais, o comércio local perde espaço, desaparecem empregos e menos riqueza permanece na comunidade.
Há ainda um empobrecimento mais subtil. Durante séculos, comprar foi também uma relação humana. Hoje, muitas vezes, conhecemos apenas uma aplicação ou um número de encomenda. Ganhámos conveniência, mas perdemos proximidade. E quando a compra deixa de ser uma relação para se tornar apenas uma transação, esquecemos facilmente as pessoas que estão por detrás de cada objecto.
4. A lógica que modela o desejo
As plataformas são feitas para estimular o impulso. Descontos que expiram, jogos diários, notificações constantes, tudo para nos manter a comprar. Isto afecta o modo como desejamos, tirando-nos liberdade interior e confundindo necessidade com impulso. A Temu não vende apenas produtos, vende também a sensação de satisfação imediata. O prazer não está apenas no objecto adquirido, mas no próprio acto de comprar.
O filósofo Byung-Chul Han alerta para uma sociedade cada vez mais marcada pela gratificação imediata, onde desaparecem os espaços de espera, demora e contemplação. Tudo deve ser instantâneo: a comunicação, o entretenimento e até os nossos desejos. Quando deixamos de saber esperar, tornamo-nos mais vulneráveis ao consumo impulsivo. E a liberdade, que começa na capacidade de escolher conscientemente, acaba por ceder lugar à simples reação ao próximo estímulo.
5. Escolher com mais liberdade
Não é preciso deixar de comprar online, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Basta escolher melhor: privilegiar o que é local, optar por durabilidade, dar espaço à segunda mão, apoiar marcas transparentes e esperar um pouco antes de comprar. Pequenos gestos, mas decisivos.
A verdadeira questão não está apenas na Temu ou no AliExpress. Está no ritmo interior com que vivemos e na facilidade com que tratamos o mundo como descartável. O convite é simples: olhar melhor, escolher com mais liberdade. É aí que começa a mudança que podemos, de facto, fazer.
Post scriptum – Se chegou até aqui, recomendo-lhe a leitura do número 204 da Laudato Si:
204. A situação actual do mundo «gera um sentido de precariedade e insegurança, que, por sua vez, favorece formas de egoísmo colectivo». Quando as pessoas se tornam auto-referenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto, parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; neste horizonte, não existe sequer um verdadeiro bem comum. Se este é o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas serão respeitadas apenas na medida em que não contradigam as necessidades próprias. Por isso, não pensemos só na possibilidade de terríveis fenómenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
