Portugal é um dos países europeus onde mais se desconfia dos outros. Surpreendido? Segundo os resultados do European Values Study, cerca de oito em cada dez portugueses consideram que é preciso ter muito cuidado ao lidar com pessoas desconhecidas. À primeira vista, este dado pode parecer apenas um traço cultural ou uma característica do nosso temperamento coletivo. Mas talvez revele algo mais profundo sobre a forma como a nossa sociedade está organizada.
Ao longo das últimas décadas, os investigadores Richard Wilkinson e Kate Pickett mostraram que a desigualdade produz efeitos muito para além das diferenças de rendimento. Nas sociedades mais desiguais, diminui a confiança entre cidadãos, aumenta a ansiedade social e enfraquece-se o sentido de pertença a uma comunidade comum. Quando a distância entre grupos sociais cresce, torna-se mais difícil reconhecer no outro alguém semelhante a nós. O outro deixa de ser um vizinho e passa a ser um estranho (ou mesmo um concorrente).
A desconfiança torna-se uma resposta quase natural quando sentimos que não partilhamos o “mesmo mundo”.
Portugal continua a ser um dos países mais desiguais da Europa Ocidental, apesar dos progressos alcançados na redução da pobreza. As desigualdades manifestam-se no acesso à habitação, na qualidade das escolas, nas oportunidades de mobilidade social e até na esperança média de vida. Estas diferenças não afetam apenas quem tem menos recursos, como inicialmente se pode pensar, mas moldam também a forma como todos olhamos para a sociedade e para os outros. A desconfiança torna-se uma resposta quase natural, quando sentimos que não partilhamos o “mesmo mundo” (que pisamos a mesma terra).
Se a desigualdade tende a aumentar a distância entre as pessoas, a tradição cristã aponta na direção contrária. A fraternidade, tão presente no pensamento do Papa Francisco através da ideia de “amizade social”, convida-nos a reconhecer cada pessoa como irmã e não como concorrente. O Papa Francisco falava frequentemente de “amizade social”, uma forma de viver que reconhece cada pessoa como irmã e não como concorrente. Na exortação Dilexi Te, o Papa Leão XIV recorda que o amor não é apenas um sentimento privado, mas uma força capaz de transformar as relações humanas e a própria vida social. Talvez o (maior) desafio não seja apenas reduzir as desigualdades económicas, mas também reconstruir os laços de confiança que permitem viver em comum. Porque uma sociedade mais justa não é apenas uma sociedade com menos diferenças, é sim uma sociedade onde os seus membros voltam a acreditar que o outro não é uma ameaça, mas uma possibilidade de encontro.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
