Estadistas e virtudes - Ponto SJ

Estadistas e virtudes

Dirão que não há democracia sem luta política. Eu digo que a democracia precisa de paz para ser plena, eficaz e duradoura. A paz não significa falta de confronto, de crítica, da troca de ideias que nos faz crescer como pessoas.

Sempre tive um enorme respeito por aqueles a quem a História chama “grandes estadistas”, homens e mulheres que ao longo do tempo e à frente dos seus países, conseguiram ultrapassar inúmeras dificuldades, resolver conflitos e superar antagonismos. Homens e mulheres cujas vidas nos continuam a cativar e cujos escritos nos continuam a incentivar na procura do bem comum. Foi assim em tempos de independências e de guerras, duas delas denominadas como guerras mundiais.

Fazendo um exercício de memória, aquilo que concluo é que, no passado, as grandes decisões destes homens e mulheres que exerceram o poder em momentos dolorosos e decisivos da História, foram o resultado de uma atenção verdadeira às pessoas reais e aos problemas concretos, colocando de lado as lutas partidárias ou as questiúnculas de bastidores.

Mas para que tal aconteça, estou convicta de que são necessárias, entre muitas outras qualidades, duas virtudes, não tão anunciadas. A primeira, conhecida por quem tem fé e que deve estruturar o nosso coração e a nossa mente: a humildade. Mas uma humildade que não se enaltece, antes transparece.

O tempo em que vivemos não permite grandes vitórias, como já todos percebemos. Onde está a vitória de conseguir acabar com a guerra em meia dúzia de dias, por exemplo? Ou de conseguir tirar médicos e enfermeiros de uma cartola, como se tal fosse possível? Estamos no tempo das pequenas vitórias, que se conquistam de forma determinada e persistente. Estamos no tempo de nos congratularmos com o que conseguimos, sob pena de “atirarmos a toalha ao chão” porque nada é exatamente como queremos. Estamos no tempo de colocar no centro das nossas vidas o bem comum. E comum significa de todos, mas em primeiro lugar, dos últimos.

A outra virtude, também ela comum no léxico da fé, é a virtude da esperança. Tal como a humildade, não é exclusiva de nenhuma religião, de nenhuma condição social, económica ou política. Sem esperança, somos gente destinada a sobreviver aos dias, sem horizontes de futuro, de mais e de melhor. Sem esperança os doentes dificilmente recuperam de uma enfermidade, os migrantes não atravessam oceanos, as mães não esperam pelos filhos. Sem esperança, somos como os ratinhos que vivem presos em rodas que não param de girar, apesar de terem comida e água ao seu dispor. Sem esperança, seremos abatidos sem dó, nem piedade, seja em campos de batalha, seja no aparente conforto do nosso bem-estar.

Sem esperança, somos gente destinada a sobreviver aos dias, sem horizontes de futuro, de mais e de melhor. Sem esperança os doentes dificilmente recuperam de uma enfermidade, os migrantes não atravessam oceanos, as mães não esperam pelos filhos.

Os grandes estadistas foram gente que conseguiu antever soluções e caminhos novos, gente corajosa que não se deixou abater pelas dificuldades; em muitos deles encontramos traços comuns de personalidade, tantas vezes humildes na sua forma de estar, tantas vezes capazes de insuflar a esperança a gente sem nada.

Volto à nossa realidade, aquela que conhecemos no aqui e no agora… “Temos e somos aquilo que merecemos”, dizem os velhos do Restelo de sempre. Não me conformo com esta atitude. Os portugueses merecem mais e melhor. Merecem políticos que não vivem de acusações, de lutas partidárias e intrigas palacianas. Merecem políticos que sabem ganhar e perder eleições, numa democracia que outros conquistaram. Merecem políticos que se dão totalmente pelo bem comum, que assumem falhas e riscos, mas que têm esperança no nosso povo, no nosso país, no nosso futuro. Merecem estadistas que deixem impressa na nossa História a sua passagem pelo governo da nação. Os portugueses merecem que as palavras falem verdade e que as decisões sejam claras e compreensíveis. Sob pena de nos esgotarmos uns aos outros. Uns porque já perdemos a esperança, outros porque só gritamos; uns porque desistimos, outros porque nos tornamos indiferentes a todos os que não estão na nossa maior proximidade. E gente esgotada é gente perdida, sem ideais, sem sonhos nem projetos.

Após trabalhos intensos e que merecem a nossa reflexão e atenção, entramos em tempo de férias do Parlamento, o que não significa férias do governo, nem dos partidos. Que seja um tempo de reflexão e não um tempo de carregar baterias para a luta política.

Dirão que não há democracia sem luta política. Eu digo que a democracia precisa de paz para ser plena, eficaz e duradoura. E neste campo específico, a paz não significa falta de confronto, de crítica, da troca de ideias que nos faz crescer enquanto pessoas. Mas a luta política não deve, não pode ser um campo de batalha, onde todas as armas são legítimas, porque o interesse em destruir o adversário assim o impõe.

Julgo expressar o anseio de muitos, quando digo que queremos gente capaz de fazer política, como verdadeiros estadistas, mulheres e homens que escutamos, admiramos e respeitamos. Novecentos anos de história é tempo suficiente para sermos capazes de distinguir o trigo do joio.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.