Não é loucura. É política. - Ponto SJ

Não é loucura. É política.

A tese da loucura é uma armadilha. De cada vez que um político nos parece insano, é toda uma estrutura que o permite. Não é doença. É política.

“Está tudo doido”. A cada nova notícia sobre uma medida que parecia improvável, a cada declaração descabelada, a cada política que parece deitar por terra todos os conceitos de decência e justiça social, a primeira reação de muitos é a de diagnosticar o mundo com um caso sério de loucura. É difícil resistir à tentação de o fazer. Um diagnóstico é como uma etiqueta. Cola-se por cima das coisas, nomeando-as e, com isso, dá-nos uma certa sensação de ordem. Os genocidas passam a loucos, os fascistas são pirómanos sociais, os racistas são descompensados, os demagogos são malucos. Todos doentes.

Nesta patologização da política, Donald Trump é o exemplo máximo. Em fevereiro de 2017, um grupo de 35 psiquiatras e psicólogos enviou uma carta ao The New York Times, notando que “a grave instabilidade emocional demonstrada nos discursos e nas ações do senhor Trump o torna incapaz de servir com segurança como Presidente”. Passaram-se quase dez anos. Donald Trump foi reeleito Presidente dos Estados Unidos e Nancy Pelosi, antiga líder da Câmara dos Representantes, apareceu novamente em abril de 2026 a apelar a que seja desencadeado um processo de afastamento de Trump com base na sua alegada incapacidade mental.

A exposição contínua ao escândalo anestesia-nos.

Seria fácil catalogar Trump como louco, narcisista, megalómano, impulsivo. Ele é todas estas coisas. Mas quem é que está doente? Quem é que está doente quando um homem com estas características é eleito duas vezes para o cargo político mais poderoso do mundo? Quem é que está doente quando todos os dias se descobrem novos crimes na sua administração e eles passam impunes? Quem é que está doente quando uma polícia de imigração varre as ruas com violência e perseguições, atemorizando os que trabalham? Quem é que está doente quando os mais ricos são premiados com baixas de impostos pagas à custa da redução das políticas sociais? Quem é que está doente quando o poder militar é posto ao serviço de uma pirataria imperialista, passando por cima de todas as convenções e direitos humanos, sem que nada trave o saque e a ingerência sobre povos que deviam ser soberanos? Quem é que está doente?

“O mundo está doente”, responderão prontamente alguns. Mas a loucura é o desvio da norma. Se o desvario se torna regra, se a mentira passa impune, se a crueldade é aceite, se a injustiça não tem castigo, essa será a norma vigente e loucos serão todos aqueles que não se vergarem a esse estado de coisas. A linha entre o normal e o anormal é mais uma questão estatística do que gostamos de admitir. Não é por acaso que a exposição contínua ao escândalo nos anestesia ao ponto de anular não só a indignação, mas sobretudo o ímpeto para corrigir o que nos parece errado. “São todos iguais”, repetem-nos os políticos que são ainda mais iguais aos que que criticam e que, com isso, não nos querem fazer exigir políticos diferentes, mas apenas aceitar que outros possam vir fazer o mesmo em total impunidade.

A tese da loucura é uma armadilha. De cada vez que um político nos parece insano, é toda uma estrutura que o permite. Não é doença. É política. Um homem só, seja ele um herói ou um louco, não consegue fazer mexer o mundo. Por muito que nos tentem vender histórias grandiosas de homens providenciais, não há uma única que tivesse acontecido sem o contexto certo, sem o poder, que é conferido ora pelo apoio das elites de cada época ora pela maioria do povo.

A tese da loucura serve para nos fazer render à impotência e ao medo. Quanto mais a racionalidade parece afastada da política, mais desamparados nos sentimos. Desaparecem as garantias e fica a sensação de que tudo é incerto e frágil, de que podemos ser o próximo alvo, de que nada nos protegerá. Para a maioria das pessoas, a reação mais lógica será suportar a desigualdade e a injustiça, alienando-se o mais possível do confronto político, até porque toda a ação parece votada ao fracasso.

Haverá sempre alternativas às políticas de destruição e morte.

“Não há alternativa”, hão de nos repetir. E isso não acontece por acaso. Esse é um efeito programado por aqueles que perceberam que as instituições democráticas, as regras do Direito e as convenções são empecilhos à acumulação do seu poder e das suas riquezas, que conseguirão reduzir a pó se convencerem a maioria de que o mundo é agora um território de loucos e a política um jogo de força.

A melhor forma de os derrotar é começar por perceber que não são loucos. São tão desbragadamente ambiciosos e sedentos de poder que podem facilmente deixar o mundo à beira da destruição. Mas não são loucos. E em breve começarão mesmo a tratar como loucos aqueles que se lhes opuserem, desacreditando-os como sonhadores agarrados a utopias, propondo internamentos para os que insistirem nos factos, na ciência, na humanidade e na decência.

A melhor forma de os derrotar é entender que haverá sempre alternativas às políticas de destruição e morte. E que somos muitos, muitos mais do que aqueles que estão dispostos a sacrificar o próprio planeta no altar da sua ambição. A nossa força vem de sermos muitos. Quando o percebermos, deixaremos de reagir aos desvarios de alguns encolhendo os ombros com um “está tudo doido”. E é aí que as coisas podem começar a mudar.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.