Quando um funeral é um mar de gratidão - Ponto SJ

Quando um funeral é um mar de gratidão

Fui testemunha de um mar de gratidão inimaginável na despedida do P. João Felgueiras, conta o P. Manuel Morujão, jesuíta que foi a Timor representar a Província Portuguesa da Companhia de Jesus.

Tendo completado 105 anos de vida a 9 de junho passado, sendo 56 anos entregues como missionário em Timor Leste, chegou a hora do P. João Felgueiras completar a longa maratona da vida no recente dia 3 de julho, em Díli.

Tendo-me pedido o Provincial, P. António Valério, para o representar no funeral deste longevo missionário, pus-me a caminho para entrar, pela 5.ª vez, na ilha do Sol Nascente, rumo ao oriente donde tudo nos vem: a luz e a fé (Fernando Pessoa).

Sucederam-se alguns dias de velório, na igreja de Balide, em que o seu corpo foi acompanhado em oração, dia e noite, até ao dia das exéquias, 8 de julho. Aí fui encontrar uma multidão, por duas vezes. Numa delas, foram-me apresentados dois Ministros (da Justiça e da Comunicação) do Governo timorense. Na vez seguinte, concelebrei com quatro franciscanos e o jesuíta P. Venâncio, que sempre esteve ao meu dispor para facilitar viagens e entradas.

A missa exequial foi na Catedral de Díli, presidida pelo Arcebispo de Díli, Cardeal D. Virgílio do Carmo, juntamente com os bispos das outras duas dioceses de Timor: D. Norberto de Maliana e D. Leandro de Baucau. Concelebraram 104 sacerdotes. Um templo de grandes dimensões transbordava de gente. A participação era intensa, de modo que não conseguia distinguir o coro das vozes bem timbradas da assembleia. Também coube ao representante do Provincial dos Jesuítas de Portugal dizer umas palavras, no final da missa, tentando conter tanta emoção.

Constituiu uma experiência de intensa consolação (com forte causa precedente) participar no a-Deus ao P. Felgueiras. As manifestações de afeto por um missionário que há mais de meio século chegou de Portugal excediam todas as minhas possíveis expetativas. Demonstravam tanto bem feito pelo missionário, como indicavam também a fina sensibilidade do coração dos timorenses. Vi crianças, jovens e adultos a chorar, flores, dedicatórias e mãos erguidas em oração comovida. Fui testemunha de um mar de gratidão inimaginável na despedida do P. João Felgueiras.

Para além do povo, as autoridades da Nação não ficaram atrás na prática da virtude da gratidão. Sem contar com outras condecorações e distinções recebidas em vida, o P. João Felgueiras foi declarado “Herói Nacional” e condecorado novamente pelo Presidente da República José Ramos Horta, distinção que premeia a bondade do coração, na conclusão da eucaristia na catedral. Tive ocasião de falar com ele e contar que quando sofreu o atentado que o deixou às portas da morte, o P. Felgueiras me acordou às tantas da noite com um telefonema, pedindo que rezasse muito pelo Sr. Presidente, pois tinha chegado do hospital onde lhe administrara a Santa Unção.

O funeral foi em Hera, a uns 10 km de Díli, onde os jesuítas construíram uma imponente casa de retiros: Centro de Espiritualidade Inaciana Paz e Reconciliação, que vai ser inaugurado a 31 deste mês, na festa de Santo Inácio. Aí inauguraram um cemitério, tendo lugar uma sessão solene de despedida: oração, discursos, salva de tiros do exército, lançamento e flores e terra pelas personalidades presentes. Impressionante foi também presenciar como o povo, ao ver passar o carro funerário, acenava e chorava e, quando tinha de parar, aproximavam-se para tocar no carro da pessoa sagrada que seguia a caminho do paraíso.

Estava escrevendo estas linhas no aeroporto de Bali, quando se aproximaram de mim dois jovens, porque como eu desejavam carregar o telemóvel. Foi ocasião de nos darmos a conhecer. A Leonélia Freitas e o Aldiano Couto iam a caminho de Roma, num projeto cultural de divulgação do folclore de Timor. Ambos estudaram na Escola Amigos de Jesus, fundada pelo P. Felgueiras por quem tinham um carinho especial. De estranhos que éramos, o P. Felgueiras uniu-nos como se fôssemos amigos. Diversos outros jovens ex-alunos da Escola Amigos de Jesus se vieram juntar, não a mim, mas ao amigo do fundador da sua Escola, pedindo a bênção e uma foto com o amigo do Amigo.

Nos poucos dias que me foi possível pisar o chão de Timor, tive ocasião para encontrar vários jesuítas, alguns dos quais já andaram em Portugal; com sacerdotes e religiosas conhecidos de ouras visitas; com a Rosalina Dias (Mana Lina), que foi uma dedicadíssima acompanhante, amiga e servidora do Padre João nos seus largos anos de limitação de saúde e forças.

O mar de gratidão de que sou testemunha foi uma belíssima resposta à santa persistência do P. João Felgueiras, permanecendo ao lado do povo, sobretudo nos tempos da invasão de Timor em 1976, que ficou ocupada até 1999. Do seu coração transbordava bondade, que a sua discrição e simplicidade não conseguiram ocultar. Vale sempre toda a pena ser bom. E quem sabe agradecer a bondade recebida bom é também.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.