Vi recentemente o filme O Conclave. Confesso que o fui ver sem grandes expectativas: “mais um filme para lançar polémica sobre o Vaticano”, pensei. De facto, tem muitos exageros, polémicas, reviravoltas e intrigas hiperbolizadas, e, sobretudo, tem um final hollywoodesco que, na minha opinião, é totalmente desnecessário. Apesar de tudo, não deixa de ser um filme bastante interessante e até surpreendente. Para além de nos dar a perceber um bocadinho melhor como funciona um conclave, mostra algo profundamente humano e espiritual: a luta interior de um homem de fé que duvida.
A personagem central é o Cardeal Thomas Lawrence, o Decano do Colégio de Cardeais, representado magistralmente pelo ator Ralph Fiennes.
O filme começa com a morte do Papa. O Cardeal Lawrence era o Decano do colégio cardinalício, o que significa que o Papa lhe tinha confiado a importante missão de conduzir o processo de eleição do sucessor de Pedro. No filme percebemos que o Cardeal Lawrence tinha pedido que o Papa o libertasse desta missão. A razão? Ele confessa-se um homem em luta com as suas dúvidas. Este não é um homem de certezas formais, cristalizadas e fechadas. Não é um herói seguro de si, impecável, convencido da sua certeza. Debate-se com dúvidas sobre a própria fé, sobre o processo que tem de liderar, sobre o seu lugar na Igreja, sobre si mesmo. Acho que é precisamente a crise em que se encontra que o torna tão credível e tão humano: carrega o peso de não ter a certeza, mas confia e continua.
A dúvida tem má reputação.
Na missa de abertura do Conclave, o Cardeal Lawrence tem uma homilia muito bem preparada que começa de modo inócuo, cinzento, num tom previsível e cauteloso: exatamente o que se esperaria do Cardeal Decano naquele momento solene. A certa altura, o Cardeal Lawrence diz: “mas estas coisas já todos sabeis” e afastando-se das suas notas e diz o que lhe vai no coração:
“A certeza é a grande inimiga da unidade. A certeza é a inimiga mortal da tolerância. Até Cristo teve dúvidas no fim: ‘Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?’ A nossa fé é algo vivo precisamente porque caminha lado a lado com a dúvida. Se existisse apenas certeza, e nenhuma dúvida, não haveria mistério – e, portanto, não haveria necessidade de fé. Rezemos para que Deus nos conceda um Papa que duvide. E que nos conceda um Papa que peque, peça perdão… e continue em frente.”
Fiquei com estas palavras a ecoar. Há frases que nos apanham desprevenidos, que ficam a fazer ressonância no coração, que tocam em algo real e profundo, mas que não sabemos ou não ousamos dizer em voz alta.
A dúvida e a fé
A dúvida tem má reputação. Tratamos a dúvida como se fosse um problema a resolver, um defeito a corrigir ou até mesmo um sinal de fé fraca, pouco resolvida. Como se quem duvidasse não estivesse a ver bem as coisas e precisasse simplesmente de mais teologia, mais oração, mais certezas. Como se a fé fosse uma meta a atingir e a dúvida um desvio dessa meta. Como se fosse um tumor a tratar.
Mas … e se for exatamente o contrário? E se a dúvida não for o oposto da fé, mas condição de possibilidade da sua mesma existência? Lugar para onde pode crescer?
Acredito que a fé que nunca tenha sido posta em causa é frágil sem perceber que é frágil.
Certo, esta homilia é uma obra de ficção. Não é dogmática nem magistério. Mas tem algo a oferecer à nossa reflexão. Acredito que a fé que nunca tenha sido posta em causa é frágil sem perceber que é frágil. Sem que nos apercebamos, podemos estar a viver uma certeza cristalizada que ainda não encontrou a vida. Uma certeza de mármore, muito bonita, mas morta. A dúvida, essa, conhece o peso das coisas, reconhece que a vida é uma peregrinação, que o Amor é uma entrega desafiante, um salto sem ver a rede.
A fé não pode ser a mera adesão intelectual a um conjunto de proposições santas e boas. É confiança em Alguém. É relação. E as relações não se sustentam em certezas lógicas ou em proposições científicas: sustentam-se em fidelidade, em escolha renovada, em presença mesmo quando não se entende. Será que podemos levar Deus suficientemente a sério, existencialmente a sério, com consequências reais na nossa vida, sem nos deixarmos perturbar por Ele? Será que não é exatamente a dúvida que nos faz assentar na verdade que é o Amor?
Jesus, na agonia da cruz, grita o abandono: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste“. Sei que há várias leituras para este grito e que termina com a confiança total de quem sabe em quem põe a sua fé: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” Mas Jesus não finge estar bem. Não recorre a uma fórmula piedosa para suavizar o momento. Diz o que sente: “onde estás?” Talvez este seja o grito mais humano de toda a Escritura, e é dito pelo Filho de Deus. Se até Ele atravessou este silêncio, que direito tenho eu de ter medo do que sinto?
São Paulo, na Carta aos Romanos, vai ao mesmo lugar: a fé orienta-se para o que ainda não se vê
Esta é uma experiência que vemos atravessar a escritura: São Paulo, na Carta aos Romanos, vai ao mesmo lugar. A fé, diz ele, orienta-se para o que ainda não se vê: “Foi na esperança que fomos salvos. Ora, uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar.” Onde há certeza absoluta, não há espaço para a esperança. A fé vive do que ainda não chegou. A dúvida não contradiz isto: faz parte disto.
Também nas vidas dos santos: quantos passam por “noites escuras” de dúvida e de dor para poderem emergir do outro lado da crise homens e mulheres mais livres, mais abandonados ao amor do Senhor. Santo Inácio precisou de chegar ao limite: convencido de que nunca seria tão santo como achava que devia ser, chegou a desejar a própria morte. Foi neste abismo de desilusão e dúvida que percebeu que Deus não lhe pedia que fosse um herói, mas que se abandonasse ao Seu Amor, sem certezas, só confiança.
Entre liberdade e segurança
Há um texto que me tem acompanhado: o famoso capítulo O Grande Inquisidor de «Os Irmãos Karamazov». Dostoiévski coloca Ivan a contar ao irmão Aliocha uma parábola do regresso de Cristo: Ele é reconhecido, preso, e visitado na cela pelo Grande Inquisidor – um velho cardeal de noventa anos que lhe diz, sem rodeios: não precisamos de Ti. Resolvemos o problema que Tu deixaste por resolver.
Qual problema? A liberdade.
Cristo ofereceu liberdade aos homens. Mas a liberdade e dúvida vão de mãos dadas. A liberdade não existe sem a dúvida. Esta traz consigo o sofrimento da responsabilidade da decisão. E os seres humanos, diz o Inquisidor, não querem isso. Querem pão, querem segurança, querem alguém que decida por eles. A Igreja, na visão implacável e sombria de Ivan, acabou por dar-lhes exatamente isso: certeza organizada, milagre, mistério administrado “à la carte”, autoridade que resolve o que fazer e não fazer.
É uma caricatura, claro. Mas é uma caricatura que incomoda porque contém verdade.
Às vezes preferimos a segurança da certeza ao risco da liberdade. É mais fácil cumprir e sentir-me satisfeito por ter cumprido do que aceitar a dúvida. No fundo, preferimos um Deus previsível a um Deus que surpreende. A dúvida é incómoda precisamente porque nos devolve a responsabilidade de procurar, de escolher e de permanecer livres.
Cristo não veio libertar-nos da dúvida. Veio libertar-nos para uma fé que é Amor – e o Amor não vive de certezas científicas. Vive de confiança, de entrega e, atrevo-me a dizer, de aposta.
O dogma diz-me em que direção caminhar. A dúvida garante que nunca confundo o mapa com o destino.
E os dogmas?
Esta é a tensão que muitas vezes sentimos e poucas vezes formulamos abertamente: se a dúvida é boa, para que serve o dogma? Se a certeza fecha assim tanto, não será o Credo uma prisão, uma gaiola dogmática?
Não.
O dogma não nasce para eliminar a pergunta nem para suprimir a dúvida. O dogma protege o mistério e nada mata o mistério tão definitivamente como a certeza absoluta. O dogma diz-nos que há algo que não pode ser reduzido à mera razão, não pode ser mais simplificado nem domesticado. O Credo não é uma resposta que fecha: é um mapa que orienta. E um mapa pressupõe caminho, movimento, território para descobrir.
A dúvida e o dogma podem dialogar porque partem do mesmo reconhecimento: Deus é maior do que aquilo que consigo pensar sobre Ele. O dogma diz-me em que direção caminhar. A dúvida garante que nunca confundo o mapa com o destino.
O problema não está em ter crenças firmes. O problema está em transformar crenças em muros. Transformar certezas em armas de arremesso. A fé adulta, a fé que coloca a sua certeza no amor e não em artigos racionais, segura o Credo numa mão e, a tremer, a dúvida na outra, e caminha assim, sem largar nenhuma das duas.
A dúvida abre ao outro
A certeza fecha. Quem tem todas as respostas certas já não precisa de ouvir ninguém. A dúvida, pelo contrário, torna-nos permeáveis, vulneráveis, capazes de reconhecer que não somos donos da verdade, que o outro pode trazer algo que eu ainda não vi e que a sua experiência de Deus, mesmo que diferente da minha, é legitima.
Deus é maior do que nós. Maior do que todas as tradições, todas as leituras que possamos fazer da realidade, todas as formas de rezar. Ele é maior do que a Igreja Católica. E afirmo-o porque é isto o que a fé professa: um deus que coubesse inteiramente nos nossos conceitos não seria Deus: seria um ídolo bem construído. Deus é sempre mais.
Há comunidades que se destroem pela certeza. Cada um tão convencido da sua leitura, da sua tradição, da sua forma de adorar, que não consegue estar na mesma sala com quem pensa diferente, com quem reza diferente. A certeza separa. A dúvida, paradoxalmente, une: porque quem duvida sabe que não tem o monopólio da verdade.
A dúvida é o respiro da fé. O sinal de que esta ainda está viva.
E há mais. A dúvida é também o que me mantém honesto diante de Deus. Quem se apresenta diante d’Ele com todas as certezas em ordem não precisa de rezar – precisa apenas de confirmar aquilo que já sabe. A oração verdadeira começa onde as certezas acabam. Começa com não sei, com não entendo, com um verdadeiro Senhor, onde estás? E é aí que o encontro se dá: entre a fragilidade de um filho que se abre ao seu Pai.
A dúvida é o respiro da fé. O sinal de que esta ainda está viva.
O Cardeal Lawrence pede, no final do seu discurso, que Deus conceda à Igreja um Papa que duvide. Que peque, que peça perdão, e que continue em frente.
Este não é um pedido dos fracos, mas dos fortes. É um pedido de humanidade, de humildade, de verdade. E talvez seja o pedido mais corajoso de todo o filme.
Faço-o meu. E estendo-o:
Senhor,
guarda-me das certezas que me fecham.
Das certezas que me impedem de ouvir,
que me fazem parar de procurar,
que me convencem de que já cheguei, de que já sei,
de que sou bom, de que sou melhor do que os outros.
Dá-me a graça de aceitar a dúvida como Teu dom.
A dúvida que me mantenha em movimento.
Que me faça sempre voltar a Ti.
Que me deixe dizer: não sei, mas confio.
Que me torne vulnerável o suficiente
para que a Tua força caiba em mim.
E que essa vulnerabilidade me transforme.
Que onde a certeza cede, nasça a abertura.
Que a dúvida me faça lugar de amor, de beleza e de bondade.
Que aprender a não saber me ensine a arriscar amar.
E que esse risco seja a minha aposta em Ti.
Livra-me da segurança que adormece
e dá-me a liberdade que desperta.
Que a minha fé não seja uma parede, mas uma porta.
Que permaneça viva, inquieta, aberta.
Livra-me das certezas frias e dá-me a graça de confiar sempre em Ti.
Amém.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
