Entre populismo e elitismo: um caminho de proximidade - Ponto SJ

Entre populismo e elitismo: um caminho de proximidade

Recusar uma política do “grito” não significa desvalorizar os conflitos que atravessam a sociedade. Significa reconhecer que esses conflitos precisam de ser enquadrados de forma a não destruir os laços que tornam possível a vida em comum.

Num recente encontro com membros do Partido Popular Europeu, que se inspira politicamente em personalidades como Adenauer, De Gasperi e Schuman, unanimemente considerados os pais fundadores da Europa contemporânea, o Papa Leão XIV propôs uma ideia simples, mas exigente: a política encontra o seu lugar quando permanece próxima das pessoas. Não como estratégia de comunicação, nem como técnica de mobilização, mas como presença real, de escuta e participação. Numa altura em que o debate público oscila frequentemente entre o ruído, o grito e a distância, esta é uma proposta que merece ser levada a sério.

A tentação de simplificar a política não é nova. Em diferentes momentos, assume diferentes formas, mas tende a organizar-se em torno de dois desvios recorrentes. Por um lado, uma política que procura no povo apenas uma validação emocional imediata, recorrendo ao confronto, ao medo ou à simplificação para gerar adesão. Por outro, uma política que se afasta progressivamente da vida concreta das pessoas, encerrando-se em lógicas tecnocráticas ou em circuitos de decisão cada vez mais longos e distantes.

O Papa nomeia estes dois riscos de forma clara: populismo e elitismo. E fá-lo não para estabelecer equivalências fáceis, mas para lembrar que ambos fragilizam a democracia quando reduzem o papel dos cidadãos, seja transformando-os em massa a mobilizar, seja tratando-os como destinatários passivos de decisões tomadas à distância.

Entre estes dois polos, abre-se um caminho exigente. Um caminho que não se constrói nem pelo apelo imediato, nem pela gestão distante, mas pela capacidade de reconhecer o povo como sujeito da vida política. Isto implica mais do que proximidade simbólica: implica participação real, corresponsabilidade e uma escuta que não seja meramente instrumental.

A política não é apenas um exercício de poder, mas uma forma de serviço

Num contexto europeu marcado por desigualdades persistentes, tensões sociais e crescente desconfiança institucional, esta perspetiva ganha particular relevância. A qualidade da democracia não depende apenas da solidez das instituições, mas também da forma como estas se relacionam com as pessoas que servem. Quando essa relação se fragiliza, abre-se espaço para respostas simplificadoras e para soluções que, pura e simplesmente ignoram a complexidade da vida social atual.

A tradição da Doutrina Social da Igreja tem insistido, ao longo do tempo, na centralidade da pessoa humana e no primado do bem comum. Estes princípios ajudam a compreender que a política não é apenas um exercício de poder, mas uma forma de serviço, aliás a «forma mais elevada de caridade» como notado na ocasião pelo Papa Leão XIV, utilizando a expressão anteriormente empregue por Pio XI no já longínquo ano de 1927.

Um serviço que exige proximidade, mas também responsabilidade; escuta, mas também capacidade de decisão; participação, mas também compromisso com a justiça social.

Neste sentido, a recusa de uma política do “grito”, feita de reação imediata e confronto permanente, não significa desvalorizar os conflitos que atravessam a sociedade. Significa, antes, reconhecer que esses conflitos precisam de ser enquadrados de forma a não destruir os laços que tornam possível a vida em comum.

Num tempo em que a linguagem política se torna frequentemente mais agressiva e mais pobre, a insistência na sobriedade, na verdade e na responsabilidade não é sinal de fraqueza, mas antes de maturidade democrática. O mesmo se aplica à relação com o povo: não se trata de falar em seu nome, nem de o instrumentalizar, mas de o reconhecer como protagonista central de um projeto comum.

Talvez o maior desafio que este discurso nos coloca seja precisamente o de repensar a política não a partir das suas formas mais visíveis – as campanhas, os debates, os resultados eleitorais – mas a partir da sua qualidade mais profunda. A forma como escutamos, como decidimos, como participamos e como cuidamos do espaço comum.

Entre um populismo que simplifica e um elitismo que distancia, existe um caminho mais exigente. Um caminho que não procura atalhos, mas que aposta numa construção paciente e consequente de uma democracia mais próxima, mais responsável e mais humana.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.