O problema de Yesteryear - Ponto SJ

O problema de Yesteryear

O problema de fundo, para mim, é que Natalie não acredita na vida que apregoa. É-nos descrita como uma mulher ressabiada, que parece odiar o quotidiano que mostra online e que o assume simplesmente porque foi ali que se encontrou e ficou.

Quando um livro é amplamente anunciado nas redes sociais e se torna um New York Times Bestseller mesmo antes de ser lançado, com os direitos de cinema já vendidos para a Anne Hathaway, vou querer lê-lo mal chegue às livrarias. Não porque preciso de estar sempre em cima dos livros mais falados do mercado, mas porque um livro que ainda não foi lido por leitores e mesmo assim é intitulado o melhor livro do ano levanta muitas questões.

O livro em específico é o Yesteryear de Caro Claire Burke (Porto Editora, 2026), e narra a vida de uma influencer “tradicional” que mostra a sua vida perfeita num rancho nos Estados Unidos. Tudo começa idilicamente, mas quando Natalie acorda em 1850 e tem de viver a vida que apregoava online é confrontada com vários problemas. A premissa em si tinha tudo para um livro perfeito, o tema das tradwives que – aparentemente –, estão a crescer em número nos Estados Unidos, a vida de influencers e as redes sociais que pedem uma fabricação constante; a questão política que poderia levantar, o drama necessário para vender exemplares e uma personagem que à primeira vista podia não ter nada que ver com o leitor mas que depois – assumi eu, erradamente – acabaria por despertar alguma empatia por ela, ainda que ténue.

Se li o livro até ao fim? Sim. Se o li porque tinha de saber o que acontecia e não porque considerei um bom livro, bem editado, e bem conseguido; apesar de reconhecer que a autora tem, de facto, uma boa voz e que essa voz torna o livro numa leitura viciante? Também. Além de todas as falhas de edição, que não interessam a ninguém, e das incongruências não só históricas, mas banais da vida comum – e concedo que nem todas as ficções históricas têm de ser factuais, o autor tem liberdade para mudar o que achar melhor – são poucos os livros em que a personagem é, na sua totalidade, zero credível. Zero credível porque não aparenta ter uma paisagem interior que nós possamos ir compreendendo; resume-se a uma só nota, o ressentimento, e isso torna-a irreal. Não houve nada naquela mulher que me fizesse pensar que até percebia o porquê de certas decisões, que me levasse a sentir empatia pelo que vivia; que me pusesse nos sapatos dela e tivesse a certeza que não faria melhor.

O que este livro faz é perpetuar a ideia de que uma tradwife é uma pessoa unidimensional que foi obrigada a este estilo de vida pelo marido, ainda mais tonto e fechado, e não como uma pessoa que poderá ter escolhido de livre vontade uma vida numa quinta onde o pão é produzido pelas suas mãos.

O problema de fundo, para mim, é que Natalie não acredita na vida que apregoa. É-nos descrita como uma mulher ressabiada, que parece odiar o quotidiano que mostra online e que o assume simplesmente porque foi ali que se encontrou e ficou. Ora, se a ideia é construir uma crítica dura e construtiva a este estilo de vida, a personagem teria de acreditar, de facto, que aquela é a melhor vida que poderia ter escolhido. Só assim o choque com 1850 teria peso, porque haveria algo a ser desmontado. Quando a protagonista desdenha tudo desde a primeira página, a crítica fica feita antes de o livro começar, e eu, como leitora, não consigo levá-la a sério quando nem a própria personagem acredita no que defende. Há um ponto em que a caricatura deixa de ser crítica e passa a ser só caricatura. Com as personagens empurradas para o extremo, sobra pouco de humano, e fica difícil importarmo-nos com o que lhes acontece.

O que este livro faz é perpetuar a ideia de que uma tradwife é uma pessoa unidimensional que foi obrigada a este estilo de vida pelo marido, ainda mais tonto e fechado, e não como uma pessoa que poderá ter escolhido de livre vontade uma vida numa quinta onde o pão é produzido pelas suas mãos. O que é mais gritante é o óbvio ódio que Caro Claire Burke parece ter com a mulher que tecnicamente inspirou esta narrativa – Hannah Neeleman, conhecida como Ballerina Farm – e, para lidar com isso, transforma-o numa mulher odiosa, burra e sem qualquer arco de redenção. Burke não demonstra uma ponta de empatia com uma mulher que decidiu diferente dela.

O livro parece ser, então, uma fantasia de vingança de uma mulher neoliberal contra as tradwives do movimento MAGA (Make America Great Again), a nível individual, sem qualquer comentário sobre os sistemas sociais ou o patriarcado que nos trouxeram até aqui. Não podemos chamar de sátira quando tudo o que o livro oferece é uma montra directa para o sofrimento de uma mulher que “nós” odiamos – ou deveríamos odiar –, simplesmente porque escolheu outra vida. Isto não é servir o feminismo que Caro Claire Burke diz servir. Isto é misógino e uma exploração oca de tendências que, até agora, não demonstram o melhor da humanidade.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.