As crianças fazem perguntas. De supetão. Insistentes. Voltam uma e outra vez à mesma questão. Obrigam-nos a repetir. Talvez esperando encontrar as contradições, muito provavelmente porque é na repetição que tentarão encontrar um sentido. As perguntas são diretas. Muitas vezes, incómodas. São as perguntas de quem chegou ao mundo há pouco tempo e está a tentar entendê-lo. É como se alguém tivesse acordado, de repente, de um coma profundo e tentasse perceber onde estava e o que se tinha passado. É assim que elas perguntam. “Por que é que a polícia bate nas pessoas?”.
Estamos num táxi. Saímos do Rossio. O meu filho viu os manifestantes. Tinha visto na televisão a carga policial. Perguntou-me, uma e outra vez, se nos iam bater por estarmos ali. A irmã também. Repeti, uma e outra vez, que não, que não nos iam bater. Dentro do táxi, outra vez a pergunta. O taxista, um senhor mais velho de cabelo branco e boné na cabeça, não me dá tempo para responder. “A polícia não bate em quem se porta bem. A polícia é boa”. Fico em silêncio. “Eles bateram em quem não estava a fazer mal”, contrapõe o meu filho, muito seguro do que viu com os próprios olhos. Com a segurança de quem andou entre os manifestantes, de quem falou com as pessoas, de quem viu famílias, de quem reconheceu amigos entre os que protestavam. “Não vão bater mais”, insisto eu, convencida de que a forma como as ruas se encheram em resposta à primeira carga policial teria sido suficiente para que se percebesse a desproporção da violência, convencida de que ter manifestantes a fazer conchinha no chão era uma forma deliciosamente irónica e simpática de mostrar que são pacíficos, convencida de que a quantidade de crianças e bebés que estavam nos protestos era um sinal evidente de que eles não são a expressão de uma qualquer franja radicalizada, pronta para começar a partir montras e queimar carros.
No dia seguinte, acordo com as imagens. Bastonadas. Cabeças rachadas. Cães atiçados sobre gente caída no chão. Narizes partidos. Polícias que correm, numa caçada pelas ruas fora a quem foge. Um agente a tirar das mãos de alguém o telefone que regista a violência, mesmo sabendo que a lei o impede de o fazer. Uma mulher de meia-idade com o braço preso dentro do punho fechado de um policial de armadura completa e ar agressivo. Atinge-me uma náusea. O estômago embrulha-se. E a primeira coisa que me vem à cabeça é que eu menti aos meus filhos. Sinto-me responsável por os ter enganado. É talvez isso que mais me dói.
Há uma sensação de tristeza profunda em relação a um país que desistiu de si. Um país que se acomoda à pobreza. Um país que acha que não há alternativa, que temos de aguentar e esperar. Um país que manda os seus filhos emigrar e deixa os seus pais morrer numa miséria escondida.
Sou acometida de um desalento profundo, quando penso que o país em que os meus filhos nasceram está cheio de gente que deita mofo pela boca, que espuma raiva contra quem pede direitos, que quer esmagar a liberdade em nome de uma ordem que é injusta e ilegal, que já se esqueceu de que houve um tempo em que a defesa da democracia infringia a lei. Gente que acha que o respeitinho é muito bonito, mas bebe demais antes de pegar no carro ou pede ao empreiteiro para fazer a obra sem fatura para não pagar o IVA. Gente capaz de apontar a dedo os defeitos dos outros, esquecendo-se dos seus próprios pecados.
Há uma sensação de tristeza profunda em relação a um país que desistiu de si. Um país que se acomoda à pobreza. Um país que acha que não há alternativa, que temos de aguentar e esperar. Um país que manda os seus filhos emigrar e deixa os seus pais morrer numa miséria escondida. Um país que definha, curvado para servir os turistas ricos, ao mesmo tempo que despreza os que protestam porque se matam a trabalhar e o salário não chega, os que vêm para cá viver em condições impossíveis para fazer os trabalhos que eles recusam, os que só querem poder sonhar.
Mas é quando me parece que talvez seja a hora de desistir também deste país que me lembro dos que lutam, que percebo como resistem, como se ajudam uns aos outros, como se organizam, como sonham. E isso enche-me de esperança. Uma esperança que é uma chama pequenina, que resiste aos que a querem apagar. “Nós somos muitos, nós somos mais”, digo muitas vezes aos meus filhos, perante os desmandos dos poderosos do mundo, para que nunca se sintam esmagados pelas impossibilidades nem iludidos sobre a possibilidade de fazer alguma coisa sozinhos. E é a essa ideia que me agarro.
É fácil perceber o truque: a violência da polícia foi ordenada para nos pôr a discutir leis e formas de protesto. Como um mágico que nos distrai com a capa e a cartola, em jogos de caixas e espelhos, fingindo serrar a bela assistente. Enquanto olhamos para o outro lado, enquanto nos distraímos, ninguém discute soluções para a crise que nos endivida, que adia famílias e vidas. É muito mais fácil discutir os piercings e as cores de cabelo de quem protesta ou as bastonadas e os cães da polícia do que perceber que a crise que nos sufoca é o lucro de uns poucos, do que debater formas de a combater, do que imaginar saídas.
É hora de respirar fundo. Como antes de um mergulho. Encher o peito de coragem. As ruas ainda estão cheias. Os sonhos não se matam à bastonada. O amor à liberdade, a solidariedade e a esperança são mais fortes do que o ódio, o medo e o mofo. Ainda estamos aqui.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
