O cavalo de Tróia e o nome de Deus - Ponto SJ

O cavalo de Tróia e o nome de Deus

Talvez o cavalo de Tróia seja mais do que uma imagem de astúcia militar. É uma imagem da perversão do dom. Um presente pode tornar-se arma. Uma palavra pode tornar-se propaganda. Uma religião pode tornar-se instrumento de poder.

Olhando aos termos

Há filmes que contam uma história antiga (Historische). E há filmes que fazem uma história antiga começar a contar-nos a nós (Geschichte). The Odyssey, de Christopher Nolan, pertence a esta segunda categoria. A história é conhecida: Ulisses parte para a guerra de Tróia e demora anos para regressar a casa. O que C. Nolan faz, porém, não é simplesmente transportar Homero para o cinema. É reler a Odisseia à luz de algumas das perguntas do nosso tempo. Numa entrevista à NPR, o próprio realizador identifica dois conceitos como centrais na sua leitura: nostos, o regresso a casa, e xenia, a obrigação de hospitalidade para com o estrangeiro. No filme, xenia recebe uma formulação mais imediatamente compreensível: “Zeus’ law”. Encontramos o outro como gostaríamos de ser tratados.

A escolha não é inocente. Xenos significa precisamente o estrangeiro, o estranho, aquele que vem de fora. E a palavra está na origem de “xenofobia”: o medo do estrangeiro. O filme coloca, assim, lado a lado duas possibilidades humanas: acolher aquele que chega ou transformar a sua diferença numa ameaça. Como observa Rachel Harrison, da SOAS, a hospitalidade é, em C. Nolan, uma espécie de código moral que torna possível a própria vida em comum. É aqui que a Odisseia começa a fazer eco ao nosso tempo. Mas há uma segunda linha, talvez ainda mais perturbadora, que passa pelo cavalo de Troia.

O segundo mandamento da lei de Deus

No filme, o cavalo não é apenas o engenhoso estratagema pelo qual Ulisses vence uma guerra. É apresentado como uma violação do próprio fundamento moral que o filme procura recuperar. O cavalo é oferecido como presente, como oferenda sagrada, e precisamente por isso é recebido. Dentro dele, porém, esconde-se a violência. Um dom transforma-se em arma. Ulisses acaba por reconhecer a gravidade daquilo que fez: “We violated all that’s ever sacred between people.” O problema não foi simplesmente ter enganado o inimigo. Foi ter usado aquilo que era sagrado (o comum, a confiança, a oferta, a hospitalidade) como instrumento da própria violência. Steven D. Greydanus, no U.S. Catholic, chama a atenção precisamente para esta inversão: uma oferta sagrada é transformada numa arma e, por isso, o cavalo torna-se a expressão máxima da violação da “lei de Zeus”.

É aqui que me parece possível ouvir, de maneira inesperada, o eco do segundo mandamento: “Não invocarás o nome de Deus em vão.” O mandamento não é apenas uma proibição de dizer o nome de Deus de forma irreverente. No seu sentido mais profundo, lembra-nos que o nome de Deus não pode ser usado para legitimar aquilo que contradiz Deus. O nome sagrado não pode tornar-se um instrumento dos nossos interesses, da nossa violência ou da nossa vontade de poder.

É possível, portanto, pronunciar o nome de Deus e, ao mesmo tempo, usá-lo em vão. Neste sentido, o cavalo oferece uma imagem narrativa daquilo contra o qual o segundo mandamento adverte teologicamente: a transformação do sagrado em instrumento dos nossos próprios fins. Talvez seja isso que torna o cavalo de Tróia uma imagem tão poderosa.  Aquilo que deveria significar oferta torna-se instrumento de destruição. Aquilo que deveria abrir uma relação de confiança torna-se uma armadilha. O sagrado é instrumentalizado para servir a violência. O filme de C. Nolan parece perguntar: o que acontece quando aquilo que deveria proteger a relação entre nós é usado para a destruir?

Talvez o cavalo de Tróia seja, por isso, mais do que uma imagem de astúcia militar. É uma imagem da perversão do dom. Um presente pode tornar-se arma. Uma palavra pode tornar-se propaganda. Uma religião pode tornar-se instrumento de poder. O nome de Deus pode ser pronunciado e, precisamente por isso, ser tomado em vão.

Quando o mito nos interroga

A pergunta não fica na Grécia antiga. Vivemos num tempo em que o estrangeiro volta facilmente a ser apresentado como ameaça. Em que as fronteiras são carregadas de medo. Em que a palavra “segurança” pode justificar hipervigilância, muros, expulsões e guerras. E vivemos também num tempo em que palavras religiosas continuam a ser mobilizadas para interpretar conflitos políticos e militares. Do Irão aos Estados Unidos, diferentes atores continuam a enquadrar conflitos através de linguagens religiosas, morais ou civilizacionais. A palavra “deus” é usada em todos os espectros do conflito como palavra legitimadora. Por outro lado, não basta dizer que Deus está do lado da paz. É preciso buscar, com honesta valentia, no coração das religiões, demonstrações claras de que é possível ver um abuso neste uso da linguagem religiosa. O Papa Leão XIV fê-lo de modo inequívoco, no Domingo de Ramos de 2026: “Irmãos, irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: «Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue» (Is 1, 15).”

Ora, não desejo com esta afirmação atribuir a C. Nolan uma intenção política ou teológica que ele próprio não reivindica. O interessante é precisamente outro: uma história com quase três mil anos consegue devolver-nos uma pergunta que continua desconfortavelmente atual. Que fazemos com aquilo que é sagrado? Que fazemos com o nome de Deus? E que acontece quando o usamos para legitimar aquilo que já decidimos fazer?

Conclusões

A força da leitura de C. Nolan está em não deixar Ulisses simplesmente no lugar do herói. O homem que inventou o cavalo acaba por ter de reconhecer aquilo em que se tornou. A astúcia, que durante séculos pôde ser celebrada como a sua grande virtude, aparece também como ferida. A guerra não deixa apenas cadáveres pelo caminho: transforma aqueles que a fazem.

É por isso que o filme pode ser lido como uma espécie de caixa de ressonância do nosso tempo. Não porque Homero tivesse previsto as nossas guerras, nem porque C. Nolan tenha feito uma alegoria política do presente, mas porque a Odisseia continua a colocar diante de nós algumas perguntas elementares: como tratamos o estrangeiro? O que fazemos quando o outro deixa de ser pessoa e passa a ser obstáculo? Que preço pagamos quando a inteligência se coloca ao serviço da violência? E, sobretudo, que acontece quando invocamos o sagrado para destruir aquilo que só o sagrado pode custodiar?

Talvez o cavalo de Tróia seja, por isso, mais do que uma imagem de astúcia militar. É uma imagem da perversão do dom. Um presente pode tornar-se arma. Uma palavra pode tornar-se propaganda. Uma religião pode tornar-se instrumento de poder. O nome de Deus pode ser pronunciado e, precisamente por isso, ser tomado em vão.

C. Nolan volta a contar uma viagem antiga. Mas talvez a viagem que nos interessa agora seja outra: a viagem de uma humanidade que precisa de reaprender a reconhecer o estrangeiro como alguém, o dom como dom e o nome de Deus como algo que não pode ser colocado ao serviço das nossas guerras. Ulisses queria voltar para casa. Talvez a nossa tarefa seja descobrir também para onde precisamos de voltar.

 


Fontes principais utilizadas no artigo: Steven D. Greydanus, “Nolan’s The Odyssey links ancient codes to Christian precepts”, U.S. Catholic, 24 julho 2026; Rachel V. Harrison, “What Christopher Nolan’s The Odyssey teaches us about welcoming strangers”, SOAS, 6 agosto 2026; entrevista de Christopher Nolan à NPR, 16 julho 2026.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.