Lula da Silva perdeu três eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998) antes de se tornar o único presidente brasileiro a ganhar quatro corridas ao Palácio do Planalto, tornando-se também no mais velho presidente a ocupar o cargo. E não só. Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva é também o primeiro presidente daquele país a conseguir virar um resultado na segunda volta – tinha perdido o primeiro turno para Flávio Bolsonaro com 45,15%, contra os 47,03% garantidos pelo filho de Jair. A derrota era dada como certa pelos seus opositores – e também por parte do mundo.
Mas eis que o Brasil surpreendeu com o “Exército de Lula”, um movimento organizado pelo deputado André Janones que, a partir de um grupo de WhatsApp, garantiu uma campanha digital que incluiu ações concretas como republicação de vídeos ou criação de hashtags contrárias a Flávio Bolsonaro, adesão a ‘trends’, procuras direcionadas no Google e o estímulo de manifestações na rua. (Confesso que a mim me lembrou muito o “Exército de Dumbledore” criado pelos protagonistas de Harry Potter para continuarem a aprender Defesa contra as Artes Negras, e isso animou-me ligeiramente).
Lula acabaria por, graças a este exército, ganhar a Flávio no terreno que desde a eleição do seu pai tem sido da direita – as redes sociais – e fê-lo sem se dedicar a elas. No entanto, rodeou-se de quem o sabe fazer por ele. Aos 81 anos, completados dois dias depois de ser eleito, a 27 de outubro, o presidente em exercício tem pela sua frente um mandato duríssimo, possivelmente o mais duro da sua vida presidenciável. Com um país profundamente dividido e a polarização a atingir proporções avassaladoras, não apenas no Brasil, mas um pouco por todo o mundo, a vitória de Lula pode ter feito soltado um suspiro em parte da população, mas ainda é cedo para respirar fundo.
Com um país profundamente dividido e a polarização a atingir proporções avassaladoras, não apenas no Brasil, mas um pouco por todo o mundo, a vitória de Lula pode ter feito soltado um suspiro em parte da população, mas ainda é cedo para respirar fundo.
Olá, mundo de olho
E não apenas no Brasil – porque o que está atualmente em causa é precisamente isto: as eleições, hoje em dia, não importam apenas ao país onde acontecem. Interessam a todos aqueles com quem esse território tem interesses políticos e económicos, relações culturais e ambições de futuro comum. Foi essa a razão pela qual a imprensa mundial encheu, na segunda-feira, as suas páginas com fotografias do antigo líder sindical da metalurgia que garantiu tantos feitos históricos numas eleições que nos pregou a todos aos ecrãs.
Porque nestas eleições há uma série de análises que é urgente fazer: numa altura em que a Europa está a encher as ruas com protestos contra as crises da habitação, da educação e do aumento do custo de vida, no geral; quando os EUA se preparam para eleições intercalares com questões económicas e sociais prementes para resolver, aquilo que o Brasil nos mostra, muito para além daquilo que são as nossas crenças e preferências políticas, é que as pessoas nos continuam a surpreender.
Há alguns anos que defendo que devíamos, todos, abandonar a ideia simplista de que o mundo se divide entre pessoas de direita e de esquerda, entre pessoas boas e más. As pessoas, como a vida, não são algo que possa ser visto a preto e branco, mas com uma série de cores que muitas vezes se misturam, dando origem a tantas outras. É nessa idiossincrasia que florescemos e que crescemos. O Brasil é um país ainda com mais cores do que, por exemplo, Portugal. Com 215 milhões de habitantes, é do tamanho de um continente e é, também, uma mistura de muitas pessoas, culturas, contextos, histórias e desejos. Acreditar que a Rondônia é igual a Florianópolis ou que o Brasil são os resorts que se visitam na passagem de ano é não fazer a mínima ideia da imensidão de mundos que cabe num país que é muito mais do que novelas da Globo e boa música.
A decisão com que os brasileiros se confrontaram no passado domingo não era entre esquerda e direita. Nem sequer era entre o bem e o mal – no limite, podemos dizer que era entre o mal menor, porque ambos os candidatos têm no currículo uma série de atitudes condenáveis. Mas foi uma decisão muito séria que, na minha opinião, voltou a colocar as pessoas no centro. Da decisão daquele dia e da decisão política. Milhões de brasileiros saíram da pobreza – e não é uma pobreza como a que conhecemos na Europa, mas uma pobreza que cria barrigas de fome e exponencia os crimes violentos, capaz de criar ciclos dificilmente quebráveis – graças às políticas sociais de Lula da Silva durante os seus primeiros mandatos. Muitas famílias viram os seus filhos deixarem de passar fome, irem para a escola e serem os primeiros a conseguir entrar na Universidade, onde finalmente quebraram o ciclo de miséria.
Muitos brasileiros passaram a ter acesso a uma série de produtos e serviços que, antes de Lula e dos governos petistas, não eram mais do que sonhos que seriam para sempre adiados. Deixaram de olhar para os prédios debaixo dos quais abrigavam as suas barracas sem acreditar que um dia não poderiam ter uma vida parecida.
Brasil do mundo
O Brasil fez, durante os primeiros anos do século XX, capa de revistas como a The Economist ou a TIME porque Lula da Silva o colocou no mapa do mundo e da política externa. Tornou-se um ator relevante no cenário internacional, foi-se afirmando como exportador de bens e serviços, sentou-se à mesa dos grandes liderando, não raras vezes, os BRIC. Durante os anos de governo Lula – com tudo o que correu mal – os brasileiros sentiram-se cidadãos. Não apenas pessoas a sobreviver, mas cidadãos com direitos.
Lula, naturalmente, tem outra questão relevante que conta para esta equação: vem do mesmo lugar que tantos outros concidadãos. Nasceu num meio pobre, foi metalúrgico, perdeu um dedo em trabalho, encabeçou sindicatos, lutou nas ruas contra a ditadura. Foi presidente da República, saiu, foi julgado, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, preso durante 580 dias, e voltou a ganhar eleições democraticamente.
Flávio Bolsonaro, para além de deputado, era pouco mais do que filho de Jair Bolsonaro. Do presidente que deixou milhares morrerem porque acreditava que a Covid-19 era uma gripezinha. Que gozou com as pessoas que choravam os seus entes queridos. E que está preso por tentativa de golpe de Estado. Flávio é o advogado que se ofereceu para defender o polícia acusado de matar uma menina de cinco anos à queima-roupa. Que continua a querer endurecer o tratamento de presidiários, a defender a castração química e a acreditar que “bandido bom é bandido morto”.
Não foi, naturalmente, por isto, que Flávio ganhou eleitores. Ganhou-os, de forma justa, com outras questões: fala de combate à corrupção – embora ele próprio esteja a ser investigado por vários crimes fiscais –, de liberalização do mercado, de simplificação de sistemas tributários, de reforço de combate à fraude, de alargamento de serviços de saúde e educação… tudo coisas profundamente necessárias num país como o Brasil, que continua a ver o seu potencial adiado por anos sucessivos de governos (de esquerda e de direita) que não dão certo.
Os eleitores de Bolsonaro são, acima de tudo, pessoas descontentes com o atual estado do país. É justo. Os eleitores de Lula também não estão particularmente contentes. Nem uns nem outros são boas ou más pessoas porque escolhem um ou outro candidato.
Os eleitores de Bolsonaro são, acima de tudo, pessoas descontentes com o atual estado do país. É justo. Os eleitores de Lula também não estão particularmente contentes. Nem uns nem outros são boas ou más pessoas porque escolhem um ou outro candidato.
Então o que os separa?
A forma de olhar para a solução: para uns, o crescimento económico, a desburocratização e o fim da corrupção – aquele objetivo fácil que todos procuram, mas poucos alcançam – pode compensar algum descanso de assuntos (de cariz social e artístico) que, para outros, são absolutamente essenciais.
É confuso? Sim. É complexo? Tremendamente. O Brasil vai mudar depois destas eleições? Não tenho a menor dúvida. A sociedade está cansada, triste, frustrada e em dificuldades. Mas também aprendeu – e ensinou-nos – algo absurdamente relevante com estas eleições: que quando as pessoas se lembram de que “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”, coisas surpreendentes podem acontecer.
Isso valeu para estas eleições, mas vale também, todos os dias, para algo muito mais simples: a certeza de que se todos trabalharmos para um objetivo comum, ele se torna perfeitamente viável. Seja a Educação, a Saúde, a Justiça ou a Paz Social. O Brasil saiu destas eleições dividido, mas, quem sabe, continuará o caminho mais unido, se Lula se lembrar que pode fazer muito melhor do que até agora para deixar menos descontentes os que votaram nele acreditando que votavam, acima de tudo, na defesa da Democracia e da Liberdade.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
