“Errar é humano.” Uma das expressões mais mainstream da atualidade, frequentemente usada como forma de desculpabilização do erro. Todos já a ouvimos em algum momento da vida e, muito provavelmente, todos já recorremos a ela, sob uma forma ou outra, nas mais variadas circunstâncias.
“A justiça tarda, mas não falha!”, “Vais pagar-mas bem pagas, nem que seja daqui a vinte anos!” ou “A mim só me fazem a primeira, depois nunca mais!” são outras expressões que, volta e meia, surgem nas conversas do quotidiano. Podemos não ser nós a proferi-las, mas dificilmente nos serão estranhas.
A pergunta que podemos fazer é a seguinte: há lugar para este tipo de discurso na vida de um católico? A resposta encontra-se no próprio Evangelho.
Quando Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?», Cristo responde-lhe: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mateus 18, 21-22). Como bem sabemos, não se trata de andar de calculadora na mão, à espera de contabilizar a 491.ª ofensa, a partir da qual nos consideraríamos desobrigados de perdoar.
Ainda no mesmo capítulo do Evangelho, Jesus aprofunda a sua resposta através da parábola do servo sem compaixão. Compara o Reino do Céu a um rei que decide acertar contas com os seus servos e que, perante a súplica de um deles, se compadece e perdoa uma dívida avultada. Contudo, esse mesmo servo, após ter recebido tamanha compaixão do rei, recusa perdoar um companheiro que lhe devia uma quantia muito menor. Ao saber do sucedido, o rei chama-o e repreende-o: «Perdoei-te toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti?» (Mateus 18, 32-33).
A mensagem é clara: não podemos esperar receber aquilo que nós próprios nos recusamos a oferecer. À semelhança do servo, também nós recebemos o perdão de Deus, apesar de todas as nossas faltas – que não serão poucas – sendo, por isso, chamados a estender essa mesma misericórdia àqueles que nos ofendem.
À semelhança do servo, também nós recebemos o perdão de Deus, apesar de todas as nossas faltas – que não serão poucas – sendo, por isso, chamados a estender essa mesma misericórdia àqueles que nos ofendem.
Não é por acaso que, na oração que Jesus nos ensinou, suplicamos: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Ao rezarmos estas palavras, reconhecemos que o perdão que pedimos a Deus é indissociável daquele que oferecemos aos outros. O próprio Jesus reforça esta ideia ao afirmar que «De facto, se perdoardes aos homens os males que eles fizeram, o vosso Pai que está no Céu também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os males que tiverdes feito» (Mateus 6, 14-15).
Mas, na prática, o que significa tudo isto? Que consequências tem esta vivência do perdão na minha vida quotidiana? São perguntas legítimas de quem procura fazer da própria vida um reflexo vivo da sua fé, dando testemunho do Evangelho.
Em primeiro lugar, importa notar que, na oração do Pai-Nosso, a medida do perdão que pedimos a Deus é estabelecida a partir de uma métrica por nós definida. Ou, melhor dizendo, somos nós quem, em certa medida, determina a medida do perdão que recebemos. E essa medida não tem relação com o grau ou dimensão do nosso erro, mas antes, é o reflexo direto do grau ou dimensão do perdão que damos aos outros.
Trocando por miúdos: cada rancor que alimentamos, cada mágoa a que nos agarramos, cada ofensa que nos recusamos a perdoar será um obstáculo à obtenção da misericórdia que pedimos a Deus.
Aliás, recorrendo a uma formulação negativa da mesma passagem, poderíamos dizer «Julga as nossas ofensas, assim como nós julgamos as ofensas de quem nos tem ofendido». Talvez esta versão nos permita compreender melhor o peso do nosso pedido. Afinal, quem gostaria de ser julgado com a mesma dureza com que, tantas vezes, julga os outros?
Ainda assim, há que passar de reflexões teóricas para a realidade concreta. Como se vive esta dimensão do perdão? Nos vários contextos da vida quotidiana, o perdão deve obedecer a duas dimensões complementares. A primeira é a disponibilidade para perdoar, numa atitude humilde. Demonstrar que estamos disponíveis para o diálogo, mesmo quando nos sentimos magoados. Esta abertura não significa fingir que nada aconteceu, desvalorizar a ofensa ou ignorar o sofrimento, mas tão-somente recordar que, tal como esperamos ser perdoados pelas nossas próprias falhas, também nós temos de estar dispostos a perdoar as falhas dos outros.
Contudo, perdão não equivale a reconciliação. O perdão depende de nós, a reconciliação depende de ambos. O perdão é uma atitude pessoal, a reconciliação exige uma vontade recíproca de remediar o mal causado. É possível perdoar alguém sem que estejam reunidas as condições para uma reconciliação e isso não significa que deixamos de cumprir a nossa obrigação enquanto cristãos.
A segunda dimensão é a aceitação do perdão. Quando a pessoa que errou reconhece o erro e procura sinceramente o nosso perdão há que recebê-la sem julgamentos, sem humilhações, sem a necessidade de a recordar de que tínhamos razão. Aceitamos o pedido e procuramos seguir em frente, permitindo também que o outro possa recomeçar sem ficar para sempre reduzido ao erro que cometeu.
A profundidade do perdão está no seu carácter ontológico de pedra angular da paz. Por outras palavras, de ser a primeira pedra e o alicerce sobre o qual se edifica a paz.
Erramos. Os outros também erram connosco. Por desconhecimento, por descuido ou mesmo pela vontade consciente de nos fazer mal. Seja qual for a razão, a perfeição não é própria da condição humana. E mesmo cientes da nossa imperfeição, quantas vezes, por orgulho, nos recusamos a desculpar? Quantas vezes, por capricho ou por teimosia, negamos o perdão a quem nos ofendeu?
Perdoar é dar o primeiro passo em direção à construção da paz. É escolher não desejar o mal a quem nos feriu. É querer o seu bem, ainda que não o consigamos desejar de imediato. Queremos viver em paz connosco e com os outros. Somos chamados, por diferentes razões e em diferentes circunstâncias, a ser construtores desta paz. Sem maledicência, sem insultos, sem ressentimento e sem nos tornarmos escravos do rancor. A paz constrói-se perdoando e sendo perdoado, num acolhimento mútuo e fraterno, onde nos reconhecemos pecadores, mas, ao mesmo tempo, amados por Deus e chamados a ser melhores.
A paz constrói-se perdoando e sendo perdoado, num acolhimento mútuo e fraterno, onde nos reconhecemos pecadores, mas, ao mesmo tempo, amados por Deus e chamados a ser melhores.
O chamamento à santidade convida-nos a viver as virtudes em grau heróico. Se a virtude da justiça dita que devemos fazer por dar a cada um aquilo que lhe é devido, a fé vai mais longe e impele-nos a conceder o perdão a quem, de coração sincero, o procura. Para isso, é necessário criar condições para que o outro se sinta livre e responsável para reconhecer o mal cometido e pedir perdão.
Perdoar não significa ignorar a ofensa, negar a dor ou eximir da responsabilidade; significa não permitir que a mágoa tenha a última palavra.
Perdoar, para sermos perdoados. E, quando falhamos, ter a humildade de pedir o perdão a quem ofendemos. É um pequeno gesto para cada um de nós, mas um passo gigante na construção da paz. Como disse, certa vez, o Papa Francisco: «Fora do perdão não há esperança, fora do perdão não há paz.».
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
